poesia
Mar Becker piauí_239 06 Ago 2026
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SUBITAMENTE A GÉRBERA SECANDO
1,
minhas palavras me servem de muito pouco. mas a mim basta – para não desistir delas –
que estejam tentando como podem me dar um corpo que arda fora da carne
2,
quis oferecer a ti um livro escuro o bastante para que teus olhos (e só eles) fossem-lhe a primeira luz
3,
saber que as cartas que não chegarão nunca a seus destinos estão fadadas a continuar queimando, nelas o fogo encontra o inconsumível
nisso, cartas interrompidas e certas mulheres são semelhantes
4,
em mim acontece às vezes de
doer subitamente a gérbera secando
dentro de algum livro que
nunca lerei
5,
ficaram dentro dos livros das bibliotecas
velhas as marcas daqueles que
fomos nós quando ainda
havia fichas de empréstimo em
cada última página e tínhamos chance
de nos reconhecer segundo a
letra apenas, encontrar
um ao outro
ainda sem rosto
só pelo fogo
num rastro de
títulos em comum
6,
[arte poética com um aquário em desuso]
amar um objeto onde deveria
haver água mas não há
é na verdade amar o
naufrágio da luz
7,
[para o meu coração num agosto de ventania]
não é que me entristeça a ideia
de um outono estendido
não me fere ver árvores
desfolhando-se
ainda
o difícil é que as folhas demorem a cair
que haja alguma força nas correntezas, o bastante
para que sejam capazes de sustentar
corpos leves no ar, operando nesse sentido
contra a gravidade
por alguns segundos
carregam tudo o que se queda –
e de fato isso sim
como dói a beleza dos
últimos esforços
em vão