Nina Rizzi piauí_240 02 Set 2026
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HISTÓRIAS DA LÍNGUA DE AHỌ́NEDÈ
minhas história são di antes desse mundo
di quando manhota fazia os feitiço
pra num se perdê nas encruziada
mas se perdemo
primeiro nas estrada fechada
dispois nos navio-tumbêro
‘inda mais dispois na calunga-grande
as água salgada de suor î lágrima
antes da perdição manhota contava
sim
os juju di prendê desalmado
as oferenda nos pé das montanha
que dispois viraro estrada di ferro
î azotra oferenda que se vinha
î as história aqui ficaro mais escura
que as di antes
misturada tudim co’as que tamém eu via
mais escura que meus zói
*
naqueles tempo tudo inmim era grande que só
os zói pareceno as bola de jabuticaba
os cocozim de cabrito
esses zói memim que se acendia co’ sol
inté que a grande inundação di fogo levô
mia línga
*
era longa as léga da mia línga
eles dizia feia
dizia lingaruda
mai’ di linguada seime seiva
fei demais é os rosário
sem rosa onde rogaro
por meu côro î morte amém
eu desfiava os fio de conta
pra num sê côtoco de gente
catulada fui só a pó de pemba
mim pusero co’as cria
as cria que di tão rosadinha
encarnadinhas se punha
às história do meu horror
histórias di dispois di casa
di quando nem gente
di quando nem cria
histórias di quando mimvertêro
di lugá î mundo î feito
*
as história di antes do mundo
î desse mundo di horror
era di pidido das cria
conta conta conta
conta maisi
as meminha cria que ninguém guentava
que ninguém nem via î nem ovia
î eu contava
sim
mai’ pelo zotro eu era um côro véi fazia é muito
in’ causa da mia pele que chegava in’ antes d’eu
in’ tudo canto
in’ causa da mia línga.
*
a línga di erinlé.
erinlé bunito que só ele
os músculo sagrado pintado a flecha
se alumiava nas bêra das água de yemoya
era dança até
os braço tudo esticado
as perna formano ofá
î os zói igual os meu purinha jabuticaba
î cocozim di cabrito
num tinha quem dissesse fei
î tanto se falava qui belezura
que yemoya se fez a grande onda
î veio vino
veio vino
grande onda prateada dos zói d’água
as onda se ajuntaro co’ ofá
inté que naquele agora tudo era uma coisa só
î a isso chamaro amor
î foro ino lá pras fundeza d’agua
dos zói de yemoya
seno um e seno amor
inté que erinlé se cansô das água toda
vou mimbora yemoya
ela disse tá
mas meus segredo cê num leva não erinlé
daí viero os peixe-espada
î cortaro a línga de erinlé
*
tamém cortaro mia línga
não que eu dissesse os segredo
segredo é fundamento manhota contava
sim
mais in’causa di quando eu contava as história
di antes desse mundo i di dispois do horror
as cria quiria as história cada vez mais escura
como se gozasse num sê eu
î eu contava
sim
aí que o minino mais branquim
se foi num susto
horrorizado eles ficaro
essa preta feia
eles dizia
essa preta lingaruda
só num dissero foi do coração piqueno do minino
do sopro antes da nascença
que porisso ele se foi num susto
cortaro mia línga preu nunca mais contar
sim
mas a história que levô o minino mais branquim
num susto
î tamém azotra história tudim
mia línga ‘inda vai contar
sim.