HISTÓRIAS DA LÍNGUA DE AHỌNEDÈ

Naqueles tempo tudo inmim era grande que só
CRÉDITO: CAROLINA ITZÁ_2026
CRÉDITO: CAROLINA ITZÁ_2026

3 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

HISTÓRIAS DA LÍNGUA DE AHỌ́NEDÈ

minhas história são di antes desse mundo

di quando manhota fazia os feitiço 

pra num se perdê nas encruziada

mas se perdemo

primeiro nas estrada fechada

dispois nos navio-tumbêro

‘inda mais dispois na calunga-grande

as água salgada de suor î lágrima

antes da perdição manhota contava 

sim

os juju di prendê desalmado

as oferenda nos pé das montanha

que dispois viraro estrada di ferro

î azotra oferenda que se vinha

î as história aqui ficaro mais escura

que as di antes

misturada tudim co’as que tamém eu via

mais escura que meus zói

*

naqueles tempo tudo inmim era grande que só

os zói pareceno as bola de jabuticaba 

os cocozim de cabrito

esses zói memim que se acendia co’ sol

inté que a grande inundação di fogo levô

mia línga

*

era longa as léga da mia línga 

eles dizia feia 

dizia lingaruda

mai’ di linguada seime seiva

fei demais é os rosário

sem rosa onde rogaro

por meu côro î morte amém

eu desfiava os fio de conta

pra num sê côtoco de gente

catulada fui só a pó de pemba

mim pusero co’as cria

as cria que di tão rosadinha

encarnadinhas se punha

às história do meu horror 

histórias di dispois di casa

di quando nem gente

di quando nem cria 

histórias di quando mimvertêro

di lugá î mundo î feito

*

as história di antes do mundo

î desse mundo di horror

era di pidido das cria 

conta conta conta 

conta maisi

as meminha cria que ninguém guentava

que ninguém nem via î nem ovia 

î eu contava 

sim

mai’ pelo zotro eu era um côro véi fazia é muito

in’ causa da mia pele que chegava in’ antes d’eu 

in’ tudo canto

in’ causa da mia línga.

*

a línga di erinlé.

erinlé bunito que só ele

os músculo sagrado pintado a flecha

se alumiava nas bêra das água de yemoya 

era dança até 

os braço tudo esticado

as perna formano ofá

î os zói igual os meu purinha jabuticaba

î cocozim di cabrito

num tinha quem dissesse fei

î tanto se falava qui belezura

que yemoya se fez a grande onda

î veio vino 

veio vino

grande onda prateada dos zói d’água

as onda se ajuntaro co’ ofá

inté que naquele agora tudo era uma coisa só

î a isso chamaro amor

î foro ino lá pras fundeza d’agua 

dos zói de yemoya

seno um e seno amor

inté que erinlé se cansô das água toda

vou mimbora yemoya

ela disse tá 

mas meus segredo cê num leva não erinlé

daí viero os peixe-espada

î cortaro a línga de erinlé

*

tamém cortaro mia línga

não que eu dissesse os segredo 

segredo é fundamento manhota contava

sim

mais in’causa di quando eu contava as história 

di antes desse mundo i di dispois do horror

as cria quiria as história cada vez mais escura

como se gozasse num sê eu

î eu contava 

sim

aí que o minino mais branquim

se foi num susto

horrorizado eles ficaro

essa preta feia

eles dizia

essa preta lingaruda

só num dissero foi do coração piqueno do minino

do sopro antes da nascença

que porisso ele se foi num susto

cortaro mia línga preu nunca mais contar

sim

mas a história que levô o minino mais branquim

num susto

î tamém azotra história tudim 

mia línga ‘inda vai contar

sim. 


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É poeta, tradutora, pesquisadora e professora. Publicou Quando Vieres Ver um Banzo Cor de Fogo (Patuá)