catástrofes familiares_ficção
Martha Batalha Nov 2022 10h17
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Querido Fernando,
A morte de papai seguida por dias de luto causara-me profundo impacto. Encontrei no espaço da perda a lucidez para agir com sabedoria, a começar pela redação desta missiva. O fato é que não somos crianças, e se não nos acertarmos agora só há de ser noutra vida. Vai que não há outra, e teremos que nos aturar pela eternidade no jazigo do Caju. Cômodo, é fato, espaçoso, certamente, e deveras organizado, pó sobre pó da linhagem Bulhões da Veiga, os juízes, catedráticos, embaixadores e imortais baluartes do Brasil.
Mas se o Rio era pequeno para as brigas de família, que dirá aquela aberração em mármore. Melhor nos acertarmos agora. Quero poder te encontrar na rua e não ter que virar o rosto, te abraçar sem que você tente se defender. Quero recorrer ao passado e só me lembrar das coisas boas. Porque elas existem, Fernando. Elas existem.
Escrevo portanto em missão de paz. E porque com a morte de papai eu me torno a mais velha remanescente do clã, sendo meu dever apontar verdades.
Primeiro, quero dizer que desaprovo o que você fez com Bibiti. Sim, ela não deveria berrar de madrugada na porta da sua casa reivindicando as joias de família. Agora, tinha que ameaçar nossa irmã com um revólver até ela colar com Super Bonder a pulseira de ouro no pulso? Para sua informação, Bibiti só se livrou do metal em procedimento sem anestesia na emergência do Souza Aguiar. Ganhou cicatriz no pulso e no dia seguinte foi trabalhar constrangida, os colegas da repartição pensando que ela tinha tentado se matar outra vez.
Legalmente as joias são suas. Não precisava dar a pulseira para a Bibiti como quem alimenta os cães com os restos de um almoço de domingo. Papai tinha todo o direito de nos remover da herança. Ele nunca perdoou a minha adolescência conturbada ou entendeu as buscas espirituais de Bibiti. Morreu como um ser atormentado, incapaz de aceitar as escolhas das que eram carne da sua carne. Mas ao menos ele foi generoso com seu único filho homem.
Eu fico feliz por você, Fernando. Feliz mesmo. Agora você tem a lancha, as ações, as joias, o Mercedes e a mansão no Cosme Velho. Você sempre sonhou em ser o dono do casarão. Pois agora ele é seu, todo seu.
Apesar de tudo, você não está feliz. Difícil entender a origem de tanto rancor. Como você teve coragem de enxotar Flavinho do enterro do avô? Uma homenagem final, Fernando, era essa a intenção do meu filho ao proceder com a performance na capela. Fazer malabares é uma atividade digna. E também popular. Tome o Rio como exemplo, a cidade é um circo a céu aberto. Ter meu filho equilibrando bolinhas no sinal da Voluntários me enche de orgulho. Muito me alegro de ver até onde ele chegou (ao sinal da Lagoa-Barra nos fins de semana). Eu tenho fé no menino. Desde os meus 15 anos que eu não faço outra coisa além de amar essa criança, mesmo porque mamãe me tirou do Colégio Santo Inácio antes que a barriga se tornasse aparente. Passei seis meses olhando o teto do quarto, pensando se o neném nasceria com a pele azeitonada do pai.
Era o meu erro, papai dizia. A minha perdição. Mas todos nós erramos, Fernando. Mesmo você.
Seu casamento, por exemplo. Estava na cara, literalmente, que a primeira iniciativa de Monique após assinar os papéis seria usar a conta conjunta para pagar por uma plástica no nariz. E que, de posse do novo nariz, ela se tornaria insaciável. Já na Páscoa apareceu de peitos novos. Eu sei, Fernando, porque na hora de distribuir os chocolates ela agradeceu pelo ovo levando o mimo ao coração e os três volumes tinham o mesmo tamanho. Sabe quantos bombons cabem num ovo de 750 gramas da Lacta? Multiplique por dois. Monique teria com certeza um problema de coluna. Mas nem eu, que sei ler tão bem as pessoas, imaginava que ela te trocaria pelo fisioterapeuta. Monique te abandonou antes da plástica no queixo, a meu ver mais urgente que o trabalho no nariz.
Mas de que adianta trocar farpas, não é mesmo? Escrevo para me aproximar do meu irmão caçula. E também para lhe dar um recado do Pai Jaçanã.
Calma, Fernando. Enfrente seus medos. Desde criança você tem horror de espíritos. Papai e mamãe (que Deus a tenha, em tranquilizantes) não conseguiam ter um momento íntimo, todas as noites você batia na porta do quarto, não consigo dormir sozinho, choramingava. Um pirralho e depois marmanjo incapaz de dormir na própria cama causa danos à relação. Inclusive deve ter sido esse o motivo do affair de papai com o professor de tênis. O vestuário do clube era o único lugar em que ele tinha alguma paz.
Na minha última visita ao centro de umbanda em Irajá, Pai Jaçanã disse que você precisa trabalhar a resistência aos espíritos. É um dom que você tem, Fernando. Você é médium por natureza. Seu pânico tem fundamento. O coração contraído é causado por um espírito que te atravessa a carne, a respiração entrecortada por um espírito que te sopra a nuca. A constante insônia é fruto de espíritos junto à cabeceira. Eles estão ali, olhos eternamente abertos, velando a sua alma, observando os seus movimentos, invejando a matéria.
Pai Jaçanã sabe das coisas. A Bibiti, que já percorreu três vezes o caminho de Santiago com o mesmo tênis All Star, praticou hataioga na Índia e doou todos os bens para o Santo Daime; a Bibiti disse que a verdade está em Pai Jaçanã. Bibiti procurou mais respostas que o mago Paulo Coelho, ela rodou o mundo e voltou para Irajá. Você devia fazer o mesmo. Um banho de pipoca por semana e seus caminhos se abririam.
Mas, enfim, vamos ao recado: para superar o limbo, papai terá que resolver questões da última encarnação, como a falta de diálogo com o único filho homem. Ele voltará, Fernando. Muito em breve.
Entendo não ser um recado agradável. Certamente o fedelho que infernizou a vida de nossos pais permanece de olhos esbugalhados dentro de você. Mas a vida é assim, Fernando. A vida e a morte. Se depender de mim nossa família resolverá as diferenças mesmo que seja entre espíritos desencarnados e os de missão incompleta no mundo. Nós estamos aqui para acertar nossas contas e viver da melhor maneira possível. Assim eu penso. Por isso lhe passo o recado. Há espíritos à espreita, Fernando. Você sabe.
Todos nós temos uma missão. A minha é apontar a verdade. Por isso revelei no velório como papai havia morrido. Ah, eu disse, Fernando, disse sim. Caixão fechado, juízes, procuradores, socialites, empresários e jornalistas indagando sobre a morte inesperada de um homem saudável que marchava no calçadão até anteontem. Aproveitei sua ida ao banheiro e anunciei: Morreu enforcado, apertaram demais a coleira. A polícia está investigando o paradeiro da dominatrix.
Papai é produto da contracultura, viveu os anos de reprodutor em plena revolução sexual, e se a moral da época o impediu de flertar com o desconhecido é absolutamente natural aventurar-se depois dos 60 pelos caminhos instigantes da sexualidade humana. Como juiz ele buscava a verdade, creio que se orgulharia do meu comunicado no velório. Um consolo de fato para mim, dar a meu pai um único orgulho mesmo que póstumo.
Como irmã mais velha é meu dever facilitar a comunicação entre você e nosso finado pai. Por isso fui esta semana até a mansão do Cosme Velho. Bati na porta, a Cleide hesitou em abrir, e eu disse: Clei, papai já morreu, agora você pode me deixar entrar.
Ah, Fernando, a emoção de percorrer o casarão após quase trinta anos. Sentir nos dedos as ondulações das lombadas dos livros, inspirar as variações de mofo, ver pela primeira vez a prataria escurecida. Estava ali a namoradeira com palhinha furada, presente do imperador, a cristaleira com louças craqueadas, o baú em que eu e Bibiti te trancávamos por tantas horas em traquinagens infantis.
Muito tempo passei em meu quarto de solteira. Memória não é o meu forte. Não consegui decorar as lições de biologia necessárias ao vestibular quando havia em mim a ilusão de cursar medicina. Mas nunca me esqueci do desenho do teto. Da ponta de cada quadrado saem linhas, as linhas formam novos quadrados, de onde saem linhas formando quadrados. Cento e dois quadrados, Fernando. Interrompido no centro por um círculo florido em gesso (28 flores), de onde pende o lustre de cristal. Quatro lâmpadas em formato de vela, 32 pingentes de cristal. Foram seis meses trancada, tendo Flavinho como única companhia crescendo em mim.
Mas eu não fui ao casarão do Cosme Velho para revolver o passado. Fui para reforçar os laços familiares. Carregava comigo um pote de sorvete Kibon com as cinzas de papai. Sim, você não jogou as cinzas de papai no mar de Copacabana. Dentro da urna havia fubá de milho. Você até desconfiou da cor amarelada. É Cebion, eu disse. Papai tomava muito Cebion. Mas era mesmo fubá de milho.
Espalhei papai pelas frestas do chão de tábuas. Cada cômodo recebeu o seu quinhão. Foi o que Pai Jaçanã disse para eu fazer. E sabe que foi a decisão certa? Enquanto distribuía as cinzas, senti sair um peso do meu coração.
Agora papai te acompanhará todos os dias e todas as noites. Papai estará para sempre, para todo o sempre, com você.
Esta é a minha modesta contribuição para que essa família permaneça unida.
Com amor, da tua irmã,
Virgínia.