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GENTE, É MUITA EMOÇÃO!

Chicória Maria vai sentir uma falta danada de Glória Maria
Imagem Gente, é muita emoção!

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No dia 2 de fevereiro, eu aterrissava em Florianópolis para uma série de stand-ups quando fui atingido por uma bomba. Um repórter me ligou e pediu uma declaração sobre a carreira de Glória Maria. Fiquei atordoado. Ele não sabia, mas estava me dando a notícia da morte dela em primeira mão. Desconectado durante o voo, não pude acompanhar as redes sociais, que se apressaram em lamentar a partida de minha amiga. Precisei de um tempo para digerir a informação. No dia seguinte, me deparei com um dos piores dilemas dos humoristas: como fazer os outros rirem se você está triste? Mas o show tinha que continuar – e continuou.

O Casseta & Planeta, Urgente! ainda era mensal quando a Globo convidou a turma do programa para protagonizar um quadro no Fantástico. Foi em 1995. Toda semana, a gente parodiava jornalistas da emissora. Fátima Bernardes se tornou Ótima Bernardes, Zeca Camargo virou Jeca Camargo e Pedro Bial se converteu em Pedro Miau. Havia, ainda, o Galo Barcellos (Caco Barcellos), o Alexandre Gracinha (Alexandre Garcia), o Corisco José (Francisco José) e o Celso Fritas (Celso Freitas). Eu interpretava a Chicória Maria. Criamos o nome dela pensando apenas na rima. Nunca soubemos se a Glória era vegetariana ou devota da Friboi.

Maquiadoras, cabeleireiras e figurinistas se empenharam para que a caricatura ficasse bem crível. De minha parte, tentei reproduzir o tom simpático e tranquilo da Glória. Também transformei uma de suas frases recorrentes no bordão da personagem: “Gente, é muita emoção!”

Minhas primeiras lembranças da Glória são como telespectador. Desculpe, amiga, sei que você não gosta que se fale em datas, mas em novembro de 1971 você apareceu na minha tevê para reportar uma tragédia: a queda do elevado da Avenida Paulo de Frontin, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Eu tinha 12 anos, e as imagens daquele acidente me marcaram demais – os carros esmagados, a movimentação dos bombeiros, as dezenas de mortos. O assunto não saía dos telejornais, especialmente do Jornal Nacional. Você estreou como repórter ali. Eu ainda não fazia ideia do ineditismo de tomar conhecimento daqueles fatos por meio de uma jornalista preta, de cabelo black power. Muito menos podia imaginar que nossas vidas se cruzariam no futuro.

Temos algo em comum, como sempre comentávamos entre nós: a trajetória solitária de negros pobres e estudiosos que atravessaram o subúrbio carioca para chegar à Zona Sul e ganhar projeção nacional numa das maiores emissoras do mundo. Você passou a infância em Oswaldo Cruz, quase Madureira, e eu, na Vila da Penha. Mais tarde, descobri outra coisa em comum: assim como seu avô, minha avó adorava jogar no bicho. Só não sei se você também chegou a levar a fezinha dele até o ponto, como fiz algumas vezes para dona Filó.

Seu ingresso no curso de jornalismo da PUC-Rio te jogou num universo que você nem sequer sabia existir. Aconteceu o mesmo comigo, quando meus pais me matricularam no Colégio de São Bento. Passamos a circular pelos ambientes elitizados do Rio e aprendemos a ser exceção. Ficamos cada vez mais distantes dos bairros em que crescemos, tivemos de superar a timidez na marra e enfrentamos muitos olhares tortos por sermos diferentes da maioria de nossos colegas. Frequentávamos apartamentos luxuosos em Copacabana, na Gávea e em Ipanema, sem que nenhum de nossos novos amigos manifestasse a curiosidade de conhecer o distante subúrbio de onde vínhamos. Era difícil admitir, mas sentíamos certa vergonha de nossa condição social, que não havia nos permitido viajar para a Disney nas férias. Curiosamente, ao mesmo tempo, não tínhamos a exata consciência do fosso que nos separava daquele pessoal. Talvez essa falta de noção tenha nos levado a encarar os medos e as adversidades de peito aberto. Foi uma caminhada difícil e silenciosa de adaptação a um meio que não era o nosso, mas que queríamos conquistar.

No fim das contas, você fez história. Tornou-se a primeira – e, por muito tempo, a única – repórter negra da televisão brasileira. Também foi a primeira negra a apresentar o Fantástico. Você entrevistou celebridades como Michael Jackson, Freddie Mercury e Madonna, além de chefes de Estado. Peitou o presidente João Baptista Figueiredo com perguntas incômodas em plena ditadura militar. “Não deixem aquela neguinha da Globo chegar perto de mim”, ordenava o general sempre que te avistava entre jornalistas.

Não bastasse, você ainda saltou de bungee jump, voou de asa-delta, pulou de paraquedas, flutuou em gravidade zero e, principalmente, não abaixou a cabeça para o racismo. Foi a primeira cidadã do país a recorrer à Lei Afonso Arinos, que define o preconceito racial como contravenção. Você a acionou na década de 1970 para denunciar um gerente que te impediu de entrar num hotel pela porta da frente devido à cor da sua pele. Por isso, achei um absurdo quando militantes de sofá te cobraram por não gastar seu tempo nas redes sociais com postagens sobre racismo. Sei que as cobranças te entristeceram. Você gostava de dizer o seguinte: “Fui criada para ser livre. Minha avó me ensinou que a história dos negros sempre foi de correntes e que eu nunca poderia permitir que me acorrentassem.” Você, de fato, não permitiu. Sempre fez o que desejava, curtiu a vida, amou como queria e virou mãe do jeito que considerava melhor. Você foi exemplo e referência para incontáveis meninas pretas de todo o Brasil. Me orgulho de ter sido seu amigo e de ter encarnado a Chicória Maria por uma década e meia.

Aliás, você e a Chicória se encontraram pouquíssimas vezes. Eram de setores diferentes na Globo – jornalismo e entretenimento. Mas você sempre elogiou a personagem. Sentia-se bem representada. Por motivos contratuais, não pôde participar do nosso humorístico, ainda que convites meus e vontade sua nunca tenham faltado. À paisana, nos víamos em festas ou restaurantes com certa frequência. Salvo engano, a gente se conheceu pessoalmente quando a Chicória já existia. Tínhamos uma grande amiga em comum, a cabeleireira Luiza das Tranças, que cuidava dos seus cabelos e dos meus dreadlocks nos tempos do Casseta & Planeta.

Por intermédio da Luiza, você me enviava recadinhos. Em 2016, quando foi à Jamaica e, mais uma vez, esteve na vanguarda ao tragar maconha no Globo Repórter, você me mandou uma mensagem bem-humorada: “Fala pro Helio que eu quero ver o que a Chicória vai aprontar dessa vez.” Sinceramente, por mais que me esforce, não lembro se parodiei o episódio jamaicano. A erva que passarinho não fuma (mas você, sim) acabou com minha memória…


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É humorista, ator e redator do grupo Casseta & Planeta. Publicou, entre outros livros, Meu Pequeno Botafoguense (Belas-Letras)