anais do desastre I

MORTE E VIDA EM SÃO SEBASTIÃO DEPOIS DAS CHUVAS

Jornalista conta seu drama pessoal e o drama coletivo nas enchentes no litoral paulista
Imagem Morte e vida em São Sebastião depois das chuvas

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Entre amigos, chamo o ano de 2020 de “breve purgatório”. Esse período sombrio começou quando tive um probleminha com cocaína. “Probleminha” é um eufemismo. Eu passava até 24 horas cheirando cocaína em lugares cheios de bandidos, gastava meu salário em poucos dias e era constantemente roubado em situações que prefiro não recordar.

Lidava também com a sobrecarga do jornalismo diário da Folha de S.Paulo, onde eu trabalhava, e com o excesso da­ninho de notícias que germinavam nos campos inférteis de Bolsonaro. Tomava comprimidos para anestesiar essas dores, somadas à tristeza de uma separação. No ápice da crise, um chefe se irritou com minhas mancadas e autodestruição pública e, ao telefone, começou a brigar comigo. Disse que eu seria demitido. Comecei a chorar, ciente de que algo havia descarrilado numa vida antes promissora.

Guilherme se compadeceu com meu pranto, me deu uma chance e foi me resgatar em uma calçada suja do Largo do Arouche, lugar próximo da redação do jornal. Ele me levou ao hospital e, junto com a médica que nos atendeu, me convenceu a iniciar um tratamento contra a dependência química.

Começava ali uma longa luta, minha, de amigos, familiares e colegas de trabalho. Nunca achei que seria tão difícil interromper o uso de uma substância que comecei a usar tardiamente, aos 38 anos, de início sem grandes danos, mas que, em 2020 (quando eu tinha 42 anos), tornou-se como uma daquelas visitas que a gente convida para jantar e não vão mais embora. Naquela época, o cenário ao meu redor não ajudaria na minha recuperação: logo a Covid se espalhou e todos que estavam dispostos a me dar a mão sumiram com o isolamento social. Meu pai morreu no fim de abril daquele ano, e outros dois lutos fizeram de mim algo próximo a um peixe mexendo a boquinha na superfície do Rio Tietê.

O corte salarial de 25% durante a pandemia, permitido por Bolsonaro e aplicado pelo jornal, chegou justo nesse momento. Por causa dessa redução e do caos que era meu cotidiano, atrasei dois aluguéis. A proprietária do apartamento se enfezou, recebi uma carta extrajudicial com ameaça de despejo, tentei negociar, mas a resposta dela foi acrescer à dívida muitas multas e honorários advocatícios. Mudei de residência em um momento ainda cheio de riscos para a vida, bem antes de a vacina contra o coronavírus chegar ao país. No trabalho, não tínhamos uma fração de sossego. Impedidos de ir à redação, testávamos uma produção remota e íamos à rua apurar histórias profundamente tristes e marcadas pelas injustiças sociais.

O fundo do poço pode ser escuro, mas ele me trouxe à lembrança a iluminada Praia de Camburi, em São Sebastião, lugar idílico que eu já conhecia: pessoas lindas, restaurantes gostosos, trilhas que levam a cachoeiras de grande volume. Fiz da pousada Tree Park – uma das mais baratas da região – uma espécie de internação voluntária, já no fim de 2020. Quanto mais tempo eu ficasse sem usar cocaína, pior seria o efeito de uma recaída. Com medo de enfrentar fins de semanas vazios em São Paulo, eu fazia as malas para Camburi já na quinta-feira.

Tirei férias do jornal no momento mais severo da pandemia, em março de 2021, quando a doença matava quase 4 mil pessoas por dia no Brasil. Nessa época, as entradas para muitas das praias de São Sebastião estavam lacradas com tapumes, e havia barreiras sanitárias nas estradas do litoral. Eu pegava carona com pessoas que viviam lá, por meio do aplicativo BlaBlaCar, e ia mesmo assim, pensando que esse deslize ético era para que eu não morresse de overdose – eu permanecia lutando contra recaídas destruidoras e realmente achava que estava prestes a encontrar Amy Winehouse pessoalmente.

Em uma Camburi fechada em toda sua extensão, com a sede de mar que eu tinha, forçava os tapumes com uma irresponsabilidade convicta, entrava nas praias vazias e chorava enquanto olhava o oceano. No início, nada parecia tão devastador como aquelas ondas estourando sequencialmente no meu desespero. Os sons das ondas, porém, foram me acalmando com o tempo. Um mergulho levava as paranoias e tristezas embora. Naquele lugar propício para a cura, o vício foi se tornando menos impositivo. Nunca usei cocaína em São Sebastião e fui me limpando. Decidi investir no surfe.

Passei muitos dias solitários ali, mas aos poucos conheci um monte de gente legal. Um dia, abri a porta do meu quarto na Tree Park e lá estava o piloto de drone Filipe, de Piracicaba. Ele saía para capturar imagens aéreas dos surfistas, e eu ajudava eventualmente no que precisasse. Nas horas vagas, assistíamos aos skatistas fazerem manobras na pista da Tree Park, construída pelo dono da pou­sada, o Peixe, um cara meio mal-humorado, mas que nos fazia rir quando esse mau humor se tornava caricato. Ele construiu essa pista e preservou uma árvore no meio dela, da qual os skatistas precisam se desviar. Todo esse cenário era para mim bem menos árido de afeto do que o de São Paulo. A pan­demia parecia também menos sinistra no litoral: houve até hoje cerca de duzentos óbitos em São Sebastião por Covid, segundo o Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). A taxa de letalidade por lá foi menor (2,4%), do que na capital paulista (3,9%).

Já escalando o poço rumo à luz, um dia vi na rua um show do Gabriel Kombirutas e de sua mulher Biscoito, que ele chama de Biscoitinho, porque ela é baixinha. Ele tem cabelo comprido, e ela, curto. Kombirutas estava tocando hits do rock e da MPB em uma Camburi ainda sem turistas. Estávamos vacinados e era o primeiro show que eu via desde o início da pandemia. Muitas crianças se aproximaram, parecia uma festa infantil. Eu batia palma e gritava “eeeeee”, em coro com elas. Entre uma música e outra, Gabriel contava histórias pessoais e fazia todo mundo rir e esquecer um pouco do luto pandêmico. Ele parece um viking e, com sua voz levemente rouca, contou que fizera hidratação no cabelo e o resultado tinha sido “incrível”.

Em março de 2022, aluguei uma quitinete em Camburi, porque os gastos com as diárias na Tree Park e em outras pousadas estavam abrindo um vazio na minha conta bancária. Além disso, eu queria dar um passo à frente naquele relacionamento sério com a praia, fazer uma demonstração de comprometimento. Conciliei emprego e surfe por mais um tempo, mas após uma série de recaídas com a cocaína, e a partir da percepção de que o estresse era componente fundamental na equação de minha condição clínica, decidi pedir as contas no jornal e fiz de Camburi um lar, aquela história de plantar a sementinha. A quitinete já estava mobiliada com o básico. Mas a deixei ainda mais jeitosa. Levei para lá livros, roupas, duas pranchas e uma coleção de miniaturas de brinquedos que venho juntando desde a adolescência. Coloquei os brinquedos com cuidado em uma prateleira que fica na altura dos meus olhos – tenho 1,79 metro.

Firmei ali uma união estável com a cidade, com juras públicas de amor nas redes sociais. Nunca esperei fazer postagens tristes na conta @nolitoralnorte, que criei no Instagram para enaltecer as belezas naturais, as pessoas e a cultura local.

A quitinete que aluguei é muito barata e rústica, não tem ar-condicionado e eu preciso tirar a tomada da geladeira de tempos em tempos para as coisas não congelarem. Ela faz parte de uma casa antiga de dois andares, onde moram a Irani, que tem 66 anos, e o Caio, seu filho de 35 anos. Os dois são pessoas muito fortes. A Irani mora na parte de cima, e eu, na parte de baixo. Quando chove, eventualmente, entra água na minha casa, mas nunca dei importância a isso.

O Caio estudou design e tem habilidades manuais, sabe trabalhar com madeira e consertar as coisas. A Irani é uma arquiteta bicho-grilo e acampava em Camburi antes da construção da BR-101, a Rodovia Rio-Santos, terminada em 1975. Ela conta que ia de Boraceia até Camburi, caminhando pelas praias e trilhas que cortam os morros, com sua filha, irmã do Caio, no colo. São 25 km.

Boraceia é a primeira do rosário de praias do comprido município de São Sebastião. Fica logo após Bertioga para quem vem de Santos. Com o passar do tempo e a construção incessante de casas (desde as luxuosas até as mais simples), foram crescendo vilarejos nas praias, hoje considerados bairros ou parte de bairros de São Sebastião. Por ordem, seguindo rumo ao Norte e para citar as mais conhecidas, as praias são: Boraceia, Jureia, Barra do Una, Juquehy, Barra do Sahy, Baleia, Camburi, Boiçucanga, Maresias, Paúba, ToqueToque Pequeno, Toque-Toque Grande e Barequeçaba. O Centro de São Sebastião não fica no Centro, mas lá na ponta ao Norte, já próximo à divisa com Caraguatatuba.

A casa de Irani é habitada também por dois cães e quatro gatos, sendo que o meu animal preferido é um gato muito branco a quem dei o apelido de Ow, isso porque eles todos já têm nomes, mas não fico perguntando toda hora para não incomodar. Às vezes, deixo a porta da quitinete aberta torcendo para eles entrarem, mas quando fazem muita zona, bato o pé e todo mundo sai correndo. Um dos gatos, que não é o Ow, tem por hábito roubar meu pão de fôrma. Ele abre as embalagens. Sou feliz ali.

Conforme a pandemia arrefecia, vimos o renascimento da programação cultural da cidade e a retomada do turismo. Eu ainda passava dias e dias solitário mas minhas noites eram regadas com música ao vivo, cerveja e novos amigos. Retomei o hábito de ler livros (a dependência química e a depressão haviam destruído a relação entre o Tico e o Teco, meus dois neurônios). Nas ruas de Camburi, da Baleia e da Barra do Sahy – praias unidas por uma rua que permite evitar a Rio-Santos –, conheci uma vida que, ao contrário das rodas paulistanas, não me jogava para baixo. Peço desculpas ao leitor pelo tom de amargura, mas minhas relações na metrópole em que nasci e cresci estavam muito pálidas. Em Camburi voltei a ver algum brilho na humanidade.

Nas caminhadas longas, conheci as diferentes manifestações da natureza mais de perto. Fui várias vezes surpreendido, no meio do mato, pelo voo de pássaros coloridos. Lá, grupos de macacos passam por nossas cabeças dependurados nas altas folhagens de coqueiros e outras espécies vegetais da Mata Atlântica. Vi bichos-preguiça, cobras, quatis, tudo sem pagar ingresso. Ainda não vi jaguatirica, espero que elas estejam vivas. Também graças a essas caminhadas, saí da fase “peixe sem ar” para a de “macaco descalço”: aprendi a andar pisando de um jeito que nada mais machucava meu pé.

Nessa etapa da ressurreição, o mar me apresentava lições mais desafiadoras. Fui aprendendo a lidar com sua forma intempestiva de agir sobre seres frágeis, como nós. Entendi melhor o movimento das correntezas, e até que escapei de alguns sufocos com tranquilidade. É preciso sangue-frio quando somos puxados para longe da praia. O surfe também exige empenho, dedicação e paciência com os tombos. De repente, você pode estar lá, no fundo, girando, sem noção do que é em cima ou embaixo. Aprendi a não lutar à toa. Quando uma onda grande estoura na sua cabeça, basta relaxar e prender a respiração. Uma hora a centrifugação vai ter fim, e você sobe para a superfície.

Essa luta constante nos gratifica com a sensação de vitória quando ficamos em pé e deslizamos pela superfície, mas também mas também me sinto grato ao ver as tartarugas erguerem suas cabeças para respirar ou quando a luz do pôr do sol no outside – nome dado pelos surfistas às águas que ficam depois da arrebentação – tinge o mar de vermelho. Uma das últimas graças que a natureza me proporcionou antes do Carnaval deste ano foi um cardume de peixes-voa­dores, que viajaram por quase 10 metros bem na minha frente e depois mergulharam. Um colega de surfe olhou para mim confirmando se eu também tinha visto aquele espetáculo. Eu agradecia a Deus por todas essas manifestações de solidariedade, depois me recordava que não acredito em Deus.

Comprei uma bicicleta, passei a visitar outras praias da região e descobri que o melhor cabeleireiro e barbeiro do pedaço morava na Vila Sahy (lado pobre) e tinha um salão na Barra do Sahy (lado rico, que ele acessava cruzando a Rio-Santos). O Valdemir tinha a capacidade de me deixar bonito. Passei a cortar o cabelo só com ele, que além do mais permitia entrar no salão com roupas úmidas e tinha clientes que contavam boas fofocas enquanto esperavam sua vez: era denúncia de desvio de dinheiro de pousada para cá, eram casos extraconjugais para lá. Com a bicicleta e agora também com a barba sempre aparada, eu fazia trilhas em lugares longínquos, descobria piscinas naturais, cachoeiras e me assustava com as árvores tombadas no caminho.

Os morros começavam a me chamar atenção, porque eu via árvores monstruosas penduradas na pontinha de penhascos e pensava: “Um dia isso cai.” A natureza naquele lugar nunca foi brincadeira. Mesmo antes do verão, as chuvas já eram abundantes e preocupavam. Passei a andar pela Rio-Santos olhando também para cima.

Conforme explorava as partes mais próximas aos morros, fui ficando surpreso com a quantidade de nordestinos que moram no litoral e prestam serviços nas praias ou trabalham como pedreiros. A construção civil foi o que atraiu os nordestinos, mão de obra para a construção de mansões e condomínios. Aos poucos, entrei nos bairros mais pobres, chamados de “sertões do litoral”, e conheci a Vila Sahy, onde já desejei morar. Com construções precárias, fiações elétricas acumuladas nas fachadas, telhados de amianto e paredes sem reboco, quando não feitas de tapume, o lugar tem seu charme e os bares não são caros como os da orla. Quando as ruas de Camburi ficam insuportavelmente cheias de turistas, os sertões viram uma alternativa feliz.

Fiz amizade com a Joyce e com seu filho Jonathan, donos da Barraca dos Baianos, um carrinho que os dois empurram diariamente de um estacionamento até as areias de Camburi. Eles me deixavam beber muitas cervejas e caipirinhas e sair devendo. Não anotavam a minha despesa e confiavam nas contas que eu mesmo apresentava depois. Saudade de conversar sobre a novela Travessia com a Joyce. Nós concordamos que a Glória Perez errou a mão na elaboração de uma trama difícil de entender. Joyce até tentou me explicar tudo, mas eu ainda peno assistindo a essa trama.

Montado em uma bicicleta, fui descobrindo as capelas da região. Quase todas as praias de São Sebastião têm uma. Contam que elas foram construídas pelas comunidades de pescadores entre as décadas de 1920 e de 1960. São preciosidades que, em meio a mansões e condomínios, guardam a memória dos antigos vilarejos. O mercado imobiliário avançou com muita fome depois da construção da Rio-Santos, e ainda hoje devora terrenos localizados mais próximos do mar. Nos últimos dois anos e pouco em que observei essa disputa, só em Camburi vi três condomínios serem erguidos. Seus donos se sentem livres para arbitrariedades: uma das cons­truções depenou árvores em área pública que faziam sombra para a Barraca dos Baianos.

A prefeitura, atualmente comandada por Felipe Augusto (PSDB), não demonstra compromisso com os mais pobres. As pessoas que trabalham na rede de hotéis, pousadas e restaurantes, muitas vezes esperam mais de duas horas por um ônibus. Eu mesmo passei por esse perrengue muitas vezes. As pessoas sofrem.

Mais alguns amigos entram nessa história: Danilo, roqueiro que morava no alto de um morro; Carol, defensora do amor romântico e monogâmico (tento convencê-la de que somos naturalmente poligâmicos); Iann, talento das finanças (deixou a Barraca dos Baianos e está na gerência do bar Soul Hops); Bete e Japonês (compro pão artesanal dela e vibro com as histórias dele). E a Carol 2 (vamos chamar assim por causa da repetição de nome), que se mudou para a quitinete vizinha à minha, gosta de escrever e faz ioga.

A cervejaria Sevá se destacava nesses cenários por causa de uma grande capacidade de reunir a galera. As cervejas de João e Eric, os donos, são vendidas em diversos pontos comerciais do litoral, e eles tinham ainda uma unidade móvel: ofereciam chope do bom em uma Kombi com pintura psicodélica e torneiras acopladas à lateral. Nas noites de sexta, a Kombi parava próxima à praia e regava de álcool e lúpulo os nossos luaus, que atraíam muita gente.

Eu estava vivendo de uma reserva financeira que tinha feito, e meu ócio contrastava com o suor de todos esses trabalhadores empenhados nas atividades da alta temporada, que se encerraria com o fim do Carnaval. Eu os estimulava com meus gastos e palavras de incentivo.

Foi essa turma e esse lugar incríveis que eu deixei por sete dias quando decidi passar o Carnaval deste ano em São Paulo. A Carol, a do amor romântico, ficou brava comigo, porque havíamos decidido ir juntos ao Bloco Samdosa vestidos de super-heróis. O Sam­dosa é um dos blocos mais conhecidos daquela região.

Em São Paulo, no domingo, dia 19 de fevereiro, fui bem cedo para um bloco na Zona Oeste da cidade e, a fim de não ser roubado numa festa onde tudo pode, deixei o celular em casa. Fui arrastado por amigos a bares e ruas com pessoas fantasiadas, depois para uma festa no Centro Cultural Tendal da Lapa. Distante das notícias e com o cérebro encharcado de álcool, permaneci alheio ao desastre que estava em curso no litoral. Em São Paulo, pulávamos feito doidos e beijávamos todo mundo, enquanto lá, em São Sebastião, as autoridades começavam a anunciar o número de desaparecidos por causa de enchentes e desmoronamentos. Voltei tarde e fui direto para a cama. Na segunda-feira, acordei com muitas mensagens no meu WhatsApp, todo mundo perguntando se eu estava bem.

Pela tevê e pelas redes sociais, fui lentamente entendendo o que havia acontecido. São Sebastião tinha sido atingida por uma tempestade histórica no fim de semana, com um volume de chuva superior a 600 mm. A ficha só caiu completamente quando falei com a Carol pelo telefone e ela começou a chorar. Naquele momento, compreendi que o desastre era de grandes proporções, embora nem ela nem eu morás­semos em áreas de risco.

Voltei à tevê e me dei conta do tamanho da catástrofe. Fiquei em pânico ao pensar no que teria havido com amigos de Camburi. Nessa hora, todo mundo nos vem à mente, mesmo colegas distantes e a atendente da banca de jornal. Algumas pessoas eu soube que estavam bem, porque vinham postando nas redes. Para outras pessoas, consegui ligar. Mas muita gente não respondia às minhas ligações e mensagens.

Por causa do caos no litoral e das estradas interrompidas por desmoronamentos, só consegui retornar a São Sebastião na Quarta-feira de Cinzas. Peguei um BlaBlaCar com o Tim, um amigo israelense que vive em São Paulo. Entre os passageiros estava um homem ansioso para rever sua mulher e sua filha bebê, as duas presas na Praia da Baleia. A viagem foi rápida, não havia trânsito. A Rodovia Mogi-Bertioga, ligação mais rápida entre São Paulo e o litoral Norte, estava bloqueada, então seguimos pela Imigrantes, para depois pegar a Rodovia Rio-Santos. O motorista morava em Boiçucanga, e no carro estava também uma moça que tinha programado suas férias na Barra do Una e não se deixou intimidar pelo desastre.

Pouco depois das dez da noite, chegamos a Juquehy, então a última praia acessível na Rio-Santos. A partir dali, um grande desmoronamento havia isolado a Barra do Sahy, a Baleia e Camburi, aonde só era possível chegar pelo mar. O homem no BlaBlaCar, preocupado com a família, ligou para um barqueiro, subiu no barco e cortou o breu rumo à Praia da Baleia às onze da noite. Havia troncos nas águas, pude ver no dia seguinte, quando fiz o mesmo trajeto. Para que eu não precisasse me arriscar nessa mesma travessia marítima noturna, rumo a Camburi, um amigo, o Leo, me emprestou sua casa em Juquehy, que não havia sido atingida pela enchente e estava totalmente em ordem.

Tim, o amigo israelense, nunca havia visto uma enchente. Ele levou na viagem um cavaquinho e tocava samba antes de dormir. Tim tem 25 anos e diz que sua geração vive em uma bolha de prazer e riqueza em Israel. Ele me alertou que, se morresse durante a viagem, a mãe dele viria ao Brasil para me matar. A situação já se apresentava como devastadora, eu não precisava de uma mãe judia me perseguindo ali, respondi.

As ruas de Juquehy estavam sujas, vazias e escuras, iluminadas apenas pelas luzes intermitentes dos veículos da polícia, dos bombeiros e das dezenas de guinchos que retiravam carros quebrados das ruas e do lamaçal. Havia lixo acumulado, a coleta estava interrompida havia quatro dias (em Camburi, a coleta demorou sete dias para retornar). Restaurantes e bares estavam fechados. O bar Chopp com Escama, conhecido pelas fervidas noites de forró, agora estava ocupado com pacotes de donativos quase até o teto. Senti cheiro de carniça numa esquina, depois em outra.

Na quinta-feira, Tim e eu andamos por Juquehy e vimos turistas bem-vestidos saltarem de barcos na praia, arrastando malas de rodinhas pela areia. Eles vinham das praias ainda isoladas. Helicópteros das Forças Armadas e de particulares passavam no céu. Paramos em uma escola para conversar com um casal que esperava notícias das buscas de seu filho. Na camiseta da mãe estava escrita a frase Good vibes. Na conversa, o casal falava do rapaz às vezes como se ele estivesse vivo, às vezes como se estivesse morto.

Na escola onde os dois se abrigaram em Juquehy havia pilhas de fraldas e colchões. Grupos de crianças brincavam, alheias à tragédia. O calor era forte, e Tim me pedia água o tempo inteiro, como um menino birrento. Andamos até uma área de desmoronamento e vimos uma árvore que, ao cair do morro, cravou sua ponta na parede de trás de uma casa, como um lápis furando uma superfície. Entre tantos escombros era difícil identificar onde terminava uma casa e onde começava outra. Ainda havia gente circulando pelas decretadas áreas de risco. Na parte mais alta da comunidade, quatro homens da Defesa Civil procuravam um jovem havia quatro dias. Um deles sentou-se nos escombros, exausto. Poucas horas depois, as autoridades disseram que não havia mais esperança de encontrar pessoas vivas entre os soterrados.

Conseguimos negociar com um barqueiro, Tide, uma viagem até Camburi, por 50 reais cada passageiro. Até Barra do Sahy, ele não estava cobrando nada, fazia voluntariamente o transporte de moradores e de doações de água e mantimentos. Viajamos com as nuvens fechando sobre nossas cabeças. Passamos por muitos outros barqueiros transportando mantimentos e garrafas d’água.

Do mar, vimos a dimensão da tragédia, porque o trajeto era uma vista panorâmica para aqueles morros que, antes verdes, estavam todos cortados por largas faixas marrons. Cada fenda significava um desmoronamento, e eles eram dezenas, um ao lado do outro. Na base de cada desabamento, havia troncos de árvores enormes, com portes de cen­tenárias. O mar azul agora tinha coloração barrenta.

Desembarcamos na Praia de Cam­buri, deserta e cheia de árvores mortas. No caminho até minha casa, senti grande tensão. Pessoas transportando mantimentos, água, colchões. Nas ruas, móveis e eletrodomésticos estragados pela chuva. Nas entradas das casas, havia sofás e colchões tingidos de terra. Bares e restaurantes estavam fechados. As prateleiras dos supermercados, vazias. Havia fila nas lojas de materiais de construção: as bombas dos poços artesianos de muitas casas tinham queimado. Não há saneamento nem na parte rica nem na pobre de Camburi, como não há no Sahy. Muita gente estava sem água para lavar roupa ou tirar a lama que havia invadido suas casas. Uns dormiam na casa de outros.

Para chegar à minha quitinete, eu e Tim atravessamos ruas cheias de barro, nossos pés atolavam na argila com cheiro de decomposição. Voltei a sentir o odor de carniça em diversos pontos. Répteis, pássaros e mamíferos morreram com as enchentes, e seus corpos estavam espalhados, misturados a restos de móveis, geladeiras quebradas, garrafas de plástico. Vi um quati e um lagarto mortos.

Caio e Irani estavam empenhados na limpeza de suas casas e das quitinetes fazia mais de três dias e não pareciam tão exaustos. Eles contaram que o pico da exaustão havia passado no dia anterior e que, de repente, o organismo deles reagiu. Caio estava usando uma lavadora de alta pressão para limpar tudo e contou que a minha quitinete tinha sido coberta inteiramente por água e lodo. Com o instrumento poderoso, Caio tirara o grosso do barro, mas os rastros do desastre ainda eram visíveis. Os móveis estavam imundos e fora do lugar, uns amontoados sobre os outros. Minhas roupas foram cobertas pela lama e agora pareciam esculturas, de tão enrijecidas pelo barro já seco. Estavam dobradinhas com cuidado, bem do jeito que eu havia deixado ao sair. Troncos podres cobriam o pátio da casa, e Caio pediu para que eu e Tim nos concentrássemos na tarefa de levá-los para um terreno baldio ao lado, onde mais tarde poderíamos acender uma fogueira. Nos dias seguintes, eu veria fogueiras sendo acesas aqui e ali, em pontos distantes de Camburi, talvez com o mesmo objetivo que nós: queimar as árvores que tombaram e os móveis perdidos.

Embora minha quitinete seja pequena, demorei dois dias fazendo a faxina e nem assim consegui deixá-la bem arrumada. O Tim permaneceu tirando troncos do terreno. Algumas coisas perdi de vez: uma prancha de surfe, um travesseiro, uma caixa de som, roupas e pequenos objetos decorativos e algumas das minhas lindas miniaturas. Adeus, Daruma. Um dia, nos vemos de novo, Marge Simpson. Pensei que, com tão poucos prejuízos, a tragédia ao meu redor não me permitia a alcunha de “vítima” da enchente.

À noite, fui para um dos deques de Camburi e encontrei amigos e pessoas que conversavam sobre a tragédia. Faço aqui um apanhado dos relatos que ouvi de diversas bocas, não apenas naquela noite, sobre o dia da grande tempestade.

O sábado de Carnaval começou animado. As praias e os bares estavam cheios, e o Bloco Samdosa fez um desfile pelas ruas de Camburi sob o Sol quente. Às oito da noite, a chuva começou a cair já com força. Muita gente foi para casa e muita gente resolveu esperar, abrigando-se em algum teto amigo. Danilo, o roqueiro que mora no morro, foi para casa e dormiu. Bete e Japonês, o casal que faz pão, Carol, a defensora do amor romântico, e muitas outras pessoas também decidiram se recolher.

Zileu, um professor de skate e promotor de eventos de Camburi, saiu de carro da rua da praia pouco antes da meia-noite. Ele contou que as ruas tinham se transformado em rios e que a visibilidade era quase zero. Seu carro ameaçou empacar, mas ele prosseguiu. Um muro inteiro caiu logo depois que ele passou, mas Zileu chegou em casa. Bete acordou por volta das duas da manhã porque seu gato subiu na cama com as patas muito molhadas. Esse foi, para ela, o sinal de um grande problema.

Uma jovem que trabalha vendendo sorvete estava cuidando dos avós, e o casal de idosos entrou em desespero quando viu a água entrar na casa. A menina disse que foi a primeira vez que precisou berrar com os avós, pedindo calma. Empilhou colchões sobre a cama e conseguiu fazer com que o casal ficasse em cima deles. A água atingiu o nível do assoalho, mas, como a casa foi erguida em palafitas de quase 2 metros, a situação lá fora era de completa inun­dação. Eles só poderiam sair dali de barco. A jovem ligou diversas vezes para a Defesa Civil, mas não foi atendida.

Iann contou que a chuva o impediu de ir para sua casa em Boiçucanga naquela noite, então ele permaneceu em um alojamento vizinho ao bar Soul Hops. Irani, proprietária da casa onde moro, ficou em uma situação sufocante, porque nem eu, nem o filho dela, o Caio, nem a minha vizinha de quitinete, estávamos em casa. Ela desconfiou que aquela chuva não era comum, foi subindo móveis, utensílios, roupas e objetos para a parte superior da casa e acabou surpreendida por um volume de água contra o qual não podia lutar. Sua prioridade foi colocar todos os gatos e os cachorros que convivem conosco no andar mais alto, onde fica seu quarto e sua cozinha.

Em lugares específicos da vizinhança, os volumes de água e lama conquistaram força suficiente para arrebentar janelas, portas e depois arrastar pedaços completos de casas e telhados. Os carros flutuavam na inundação. Durante a madrugada, começaram os desmoronamentos em Juquehy, no Sahy, em Camburi, Boiçucanga e Toque-Toque Grande. Dezenas de morros perderam grandes pedaços, que rolaram com árvores e pedras, encobrindo trechos de estradas e atingindo casas. Quinze pontos da Rio-Santos chegaram a ser interditados, ainda que parcialmente.

Vila Sahy, a extensão pobre da Barra do Sahy separada da parte rica apenas pela Rio-Santos, viveu o terror mais intenso daquela noite, com mais de sessenta mortos, em contagem oficial da Defesa Civil. Casas foram moídas pelo volume de lama, troncos e rochas. Os moradores dizem que a Defesa Civil chegou à vila às duas da manhã, mas os agentes esperaram a chuva arrefecer para poderem iniciar os trabalhos de salvamento. Nas primeiras horas, foram os moradores que cuidaram de salvar as pessoas, enquanto viam mortos e vivos serem arrastados pela lama. Uma mulher contou que, na porta de casa, recebeu um bebê em seus braços sem saber quem era a mãe, que apareceu depois, desnorteada. Amigos que alugaram uma casa para o Carnaval foram soterrados dormindo. Um homem abraçou suas duas filhas momentos antes de serem engolidos pelos escombros, e assim foram encontrados mortos.

Na Barra do Sahy, um grupo de turistas arrombou a porta de uma escola para poder se abrigar. Postes caíram em diversos pontos do litoral e muitas casas de todas as praias ficaram no escuro. Crianças e adultos se desesperavam, sem saber qual lugar era de fato seguro. Parou de chover às sete da manhã, foram doze horas de água em grande volume.

Na manhã do domingo, quase ninguém tinha internet ou sinal de telefone, e por isso não sabia direito sobre a dimensão da tragédia. O roqueiro Danilo acordou para ir à farmácia de Camburi, onde ele trabalha, e estranhou que uma pedra havia rolado e quebrado um muro de sua casa. Quando foi descer o morro, percebeu que a escadaria que costumava usar diariamente não estava mais lá. Danilo ficou temporariamente preso no local, sem ter conhecimento do que havia acontecido. Com um amigo, abriu uma nova trilha e chegou à beira da Rio-Santos. Quando olhou para cima, viu o morro dividido em dois. A fenda aberta era ao lado de sua casa. O desmoronamento não o atingiu por pouco.

Na Barra do Sahy, quando o restaurante Pimenta Rosa abriu para mais um dia de trabalho, o caos estava à porta. Dezenas de desabrigados buscaram refúgio no estabelecimento, que tem seu piso suspenso em relação à rua. A dona passou a cozinhar marmitas com os insumos que havia estocado para o Carnaval. Havia muita gente faminta. Depois, ela abriu seu sinal de internet para quem precisasse. Enquanto isso, moradores e turistas se mobilizavam para procurar sobreviventes.

A Carol, do amor romântico, perdeu um carro e passou dias em conflito com os atendentes de sua seguradora. Os meninos da Sevá perderam sua Kombi e outras coisas da cervejaria. Em Camburi, os guinchos passaram a trabalhar na remoção de carros dos mais diversos tipos, incluindo uma BMW que vi depois ser içada, uma força-tarefa que durou uma semana inteira. Mesmo de madrugada víamos homens empurrando automóveis nas ruas, suspendendo-os por cabos e fazendo-os rolar numa terra que não secava. A fadiga estava no rosto de todo mundo.

Com essas histórias na cabeça, no sétimo dia da tragédia, domingo, dia 26 de fevereiro, voltei a fazer uma grande faxina dentro de casa. Ao terminar, examinei o serviço, e era como se eu não tivesse feito muita coisa. O barro parecia ganhar vida, porque vinha dos cantos, das frestas do fogão e das janelas. Meu colchão tomava banho de Sol diariamente e tinha o cheiro de um cachorro molhado (eu e Tim dormíamos no puxadinho do Caio, preservado do lamaçal). Na limpeza de casa, os panos sujos iam e voltavam para o tanque. A cada viagem, pareciam ficar mais sujos de terra.

Tim e eu conseguimos uma carona até a Vila Sahy, onde, com uma câmera profissional e veia amadora, faríamos registros para um documentário. Havía­mos iniciado as filmagens no segundo dia de viagem. Assim que cheguei no Sahy, fui até o salão de Valdemir, meu cabeleireiro, único conhecido de quem não tinha notícias. O salão estava fechado. Perguntei por ele e ninguém soube dar informação.

Na Vila Sahy, o Instituto Verdescola, ONG educacional que tem um prédio grande no local, havia se tornado abrigo, e homens do Exército estavam presentes em todos os lugares, armados e com carros camuflados. Mutirões de voluntários transportavam água, alimentos e produtos de higiene de um lado para o outro. Um contêiner com serviços do Poupatempo foi instalado bem na frente da escola para emitir documentos, pois muita gente tinha perdido tudo em meio à lama e à água.

Repórteres e câmeras de tevê se esbarravam em esquinas cheias de lama. Em um bar, três amigos conversavam sobre aquele movimento inédito: eles achavam que a imprensa tinha o dever de acompanhar  a  remoção de moradores da Vila Sahy desde o início. Mais tarde, de volta a Camburi, fui a um bar e ouvi a história de um homem que perdeu sua coleção de selos. Outro interlocutor naquela conversa disse que ainda precisava checar se seus vinis estavam tocando. Mas eles falaram que aquelas perdas eram miudezas diante da tragédia social. Depois, os homens conversaram sobre os cachorros de rua.

Toda essa região do litoral Norte tem muitos cães criados soltos, e a comunidade se preocupa com eles. Em Camburi, depois da enchente, houve “chamada oral” de cachorros, uma contagem, e estavam todos presentes. Só que, dias mais tarde, reconheci um desses cães de rua na Barra do Sahy, muito mais magro, com as costelas aparentes. Ele se aproximou enquanto eu comia um pastel de carne comprado em uma padaria. Meu primeiro impulso foi ignorar seu olhar de apelo. Cheguei a pensar em bater o pé para afastá-lo, mas logo me senti desumano. Todos nós, inclusive aquele cão desnutrido, compartilhávamos o horror. Coloquei o pastel em um prato. O cachorro devorou em segundos.

Em Boiçucanga, durante quase vinte dias, o Rosa dos Ventos Hostel, ponto de festas e boa música ao vivo, conver­teu-se em um canil. Uma ONG que resgata cães em desastres pediu para abrigá-los ali depois das chuvas. Quando cheguei para uma visita, o hostel tinha 25 animais sob seu teto, incluindo filhotes, e pilhas de sacos de ração doadas. Uma equipe de veterinários trabalhava dia e noite no atendimento dos animais.

Na segunda-feira, Tim já não olhava mais na minha cara de tão cansado e decidi levá-lo a Juquehy, onde ele pegaria carona para São Paulo. Junto levei uma trouxa de roupas sujas. Eu planejava lavar a roupa em um contêiner instalado à beira da Rio-Santos por um grupo de voluntários. Muitas pessoas perderam suas máquinas de lavar, como foi o caso da máquina compartilhada na casa da Irani. Eu não tinha mais nada para vestir, porque tudo sujava muito depressa. Na única bermuda limpa que me restara, havia surgido um furo mais ou menos na altura do meu ânus.

Despachei Tim para São Paulo e fui lavar a roupa no contêiner, mas havia uma fila de mais de um dia, segundo estimativa dos funcionários. Quando decidi voltar para Camburi, notei que o trânsito estava bloqueado de novo. Travados por agentes de trânsito, os motoristas reclamavam sob o Sol. Voltei a pé levando o saco de roupa suja por uma Rio-Santos desértica e silenciosa, um trajeto de 6 km, durante o qual pude ver um dos pontos mais críticos da série de desmoronamentos. As árvores que despencaram na região entre Juquehy e Sahy eram grandes e numerosas. Os rombos nos morros tinham a largura de duas avenidas Paulista. Havia uma fila de escavadeiras à beira da estrada, e o barro começava a se transformar em poeira, deixando o ar turvo. A Praia Preta, que fica no meio do caminho, tinha sido soterrada, toda sua faixa de areia estava encoberta.

Como nem camiseta eu tinha, resolvi enfrentar a timidez e pegar roupas das doações. Na terça, tomei um ônibus em Camburi e fui até Boiçucanga. Em uma igreja católica, expliquei que a única coisa que havia me restado era aquela bermuda com um furo na bunda. Eles me deixaram entrar. Uma voluntária me disse, depois, que roupa tinha muita, e eu poderia escolher à vontade. Ela até me ajudou com opiniões estéticas. Mostrava camisetas velhas doadas e dizia: “Vai ficar ótima em você.”

Naquela terça à tarde, um temporal voltou a deixar a população com medo. Minha quitinete alagou mais uma vez. Seu piso fica cerca de um palmo acima do terreno, e a água subiu dois palmos. Precisei secar todo o local e refazer a faxina. Eu estava, ao menos, vestindo roupas dignas.

Restava saber se meu cabeleireiro, Valdemir, estava bem. Então voltei ao salão na Vila Sahy no dia seguinte. Encontrei o salão vazio. Nem o grande espelho onde tantas vezes vi minha barba tomar forma estava na parede. Uma faxineira tirava barro lá de dentro. Perguntei por Valdemir, e ela me orientou a ir a um pequeno bar da vizinhança para me informar melhor. No bar disseram que Valdemir estava muito ferido, mas não corria risco de vida, e me passaram o telefone dele. Mandei uma mensagem, e ele me respondeu algumas horas depois. Sua casa e o salão que estava erguendo (para sair do aluguel) na Vila Sahy tinham sido destruídos, completamente. Ele perdeu tudo. Sua mulher estava bem, mas sua sogra havia morrido. Quando perguntei se ele e sua família vinham sendo assistidos por alguém, foi a mulher de Valdemir que, chorando, mandou a seguinte mensagem em áudio: “Bom dia, estamos sendo bem amparados, temos água, comida, produto de limpeza. Deus abençoe, coloque nos­sa família em suas orações que a gente precisa.”

O que aconteceu com Valdemir, e também ao pai que morreu abraçado às filhas, ao jovem casal e ao grupo de amigos que foram soterrados, a diversas famílias, destroçadas pelo luto e com tantas perdas materiais, era algo até certo ponto evitável. A população não foi avisada sobre a tormenta e ainda cobra uma investigação: existem responsáveis pelas mortes de mais de sessenta pessoas que viviam naquelas áreas de risco? Tragédia similar em Petrópolis, um ano antes, e tantas outras nas serras e no litoral fluminense não nos ensinaram nada? Apenas uma coisa me pareceu clara no meio de tanta água turva: que uma comunida­de inteira criada na rabeira do caminho de um santo de nome Sebastião soube fazer da solidariedade o melhor consolo àquele momento trágico. E que, agora, essa comunidade tem força e tem voz.

Se quero permanecer em São Sebastião depois dessa desgraça, sabendo que alguns amigos planejam deixar a cidade? Com certeza, sim. Ainda é um lugar que associo a um potencial de cura muito presente. Meu tratamento psiquiátrico foi interrompido em outubro do ano passado – eu mesmo me dei alta e sigo feliz. Também tenho pensado que, se aquelas pessoas me ajudaram a ficar mais forte, eu talvez possa retribuir agora, com o mínimo que seja. Não é um ato heroico, vejo como parte de uma reconstrução.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_199 com o título “Depois da chuva”.


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É jornalista