despedida
Laura Capriglione Mar 2023 18h33
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Em 1996, o distrito do Jardim Ângela, na periferia Sul de São Paulo, recebeu da ONU o título de lugar mais violento do mundo. Naqueles becos e vielas, ocorriam, em média, 116 assassinatos por ano para cada 100 mil habitantes. O ritmo de mortes era tão alucinante que o Ângela, como os moradores gostam de chamá-lo, conseguiu a proeza de somar mais homicídios que a cidade de Cali, na Colômbia, então epicentro da guerra do narcotráfico. Foi nesse momento que o padre James Crowe – ou padre Jaime, para os brasileiros – se destacou por lá.
Insubmisso, como bom irlandês, o sacerdote nunca se conformou com a matança em série. Não por acaso, viu no Ângela a possibilidade de construir um poderoso trabalho comunitário, que traduzia o Evangelho à luz da Teologia da Libertação – vertente que se vale dos ensinamentos de Jesus Cristo para questionar o status quo e lutar contra as injustiças sociais.
Jaime era um padre do afeto: preferia a conversa, a decisão coletiva. Ele sentia aversão pelos santarrões encastelados nas igrejas que não se abriam para o povo. Chegou ao Ângela em 1987, quando a região já carecia de emprego, hospital, áreas de lazer, saneamento básico e transporte. Policiais faziam farra naquelas quebradas, matando principalmente jovens de pele escura.
Sempre acompanhado por um cachimbo, o padre de cabelo ralo e rosto avermelhado organizou a Caminhada pela Vida e pela Paz, que reúne anualmente moradores do distrito, fiéis, sindicalistas, lideranças partidárias e integrantes de movimentos sociais. A mobilização acontece no Dia de Finados. Começa na Paróquia Santos Mártires, construída por Jaime com o apoio da comunidade, e termina no Cemitério São Luiz, onde estão enterrados muitos dos corpos negros que a violência ceifou. Na primeira caminhada, que se deu justamente em 1996, mais de 5 mil pessoas compareceram. Foi um grito de alerta que ecoou por toda a metrópole e tirou o Ângela do anonimato. Havia vida ali. E vida em abundância! Os mortos finalmente ganharam rostos – as famílias levavam cartazes com os retratos e os nomes de seus parentes assassinados.
Em 1997, no rastro da caminhada, padre Jaime criou o Fórum em Defesa da Vida, uma rede de organizações que busca promover a cidadania plena na região por meio do combate às vulnerabilidades sociais. A iniciativa, ainda em vigor, acabou contribuindo para a diminuição dos assassinatos. Mesmo assim, o Ângela continua entre os distritos mais carentes e perigosos da cidade. Aos domingos, vários de seus moradores colocam roupas, sapatos e alimentos sobre as calçadas para doação. Em pouquíssimo tempo, desempregados e subempregados levam os itens embora.
O apoio de dom Paulo Evaristo Arns, um entusiasta da Teologia da Libertação, se revelou fundamental para a missão do padre Jaime. “Logo depois de ser nomeado cardeal-arcebispo de São Paulo, em 1970, dom Paulo vendeu o palácio episcopal, onde moravam os bispos, com a intenção de comprar terrenos e fazer comunidades populares na periferia”, conta o padre Júlio Lancellotti, referência na luta pelos direitos humanos. Foi com parte desse dinheiro que Jaime ergueu a Paróquia Santos Mártires.
E pensar que o Vaticano mandou o sacerdote ao Brasil em 1969 para enfrentar o comunismo… De cara, ele recebeu a tarefa de rezar missa no município de Embu das Artes, vizinho do Jardim Ângela. A miséria impressionou o recém-chegado. “Era só lama, lama e mais lama”, lembra o padre Eduardo José McGettrick, também irlandês, que acompanhou Jaime durante a maior parte de seu trabalho pastoral.
Mas o pior era a fome. Padre Jaime sempre evocava um acontecimento que o marcou em 1974, quando Benedita, mulher de um operário, morreu ao dar à luz o seu 11º filho. O sacerdote visitou a família e notou que não havia um grão de feijão na casa. Benedita morrera de fome, não de parto. Fazia dois meses que o marido não ganhava salário. “Só que o dono da empresa onde o operário trabalhava tinha presenteado o filho com um Mustang. Fiquei arrepiado”, contava o padre. “Empresários como aquele se diziam católicos e me pediam para promover encontros de casais com Cristo. Isso me causou horror aos movimentos tradicionais da Igreja, que desconhecem o dia a dia dos pobres.”
Logo o pároco que veio ajudar a América Latina a se salvar do comunismo adotou outro discurso. “Viva a partilha!”, repetia, como Cristo ao dividir o pão e o peixe com seus seguidores. “Na década de 1970, os padres Jaime e Eduardo estavam entre os organizadores da Pastoral Operária, berço católico do PT”, relembra Maria Isabel Lopes Correa, a Bel, funcionária aposentada da Câmara Municipal de São Paulo. Desde a adolescência, ela acompanha a jornada dos irlandeses no Brasil. Também nos anos 1970, os dois religiosos liam intelectuais de esquerda, como Karl Marx, Friedrich Engels e Antonio Gramsci, em rodas semanais de conversa. Mas os padres nunca se convenceram de que a religião é o ópio do povo, como defendia o jovem Marx. Eram católicos e continuaram católicos.
Quando se mudou para o Ângela, Jaime fazia questão de dialogar com todo mundo. Recebia os aflitos em sua casa modesta, vizinha da Paróquia Santos Mártires. Ele sempre morou por ali, apesar das ameaças e perigos”, conta o padre Eduardo. Certa noite, um homem bateu à porta de Jaime. Era um policial militar. Os dois conversaram por algumas horas. Quando o homem saiu, um rapaz entrou alarmado na residência do pároco. Só então padre Jaime descobriu quem de fato o visitara. Era o sinistro Cabo Bruno, apelido de Florisvaldo de Oliveira e acusado de matar mais de cinquenta pessoas na Zona Sul paulistana. Naquela noite, depois que o justiceiro deixou a casa de Jaime, dois jovens morreram assassinados no Ângela. O padre Eduardo nunca soube o que o pároco e o policial conversaram.
Em 2018, durante a corrida eleitoral, Jaime recebeu Fernando Haddad e Manuela d’Ávila, dupla derrotada por Jair Bolsonaro, na Santos Mártires. Fiéis o condenaram dentro e fora das redes sociais. Chamaram-no de pecador por acolher “abortistas”. Em 2021, ao completar 76 anos, o sacerdote se afastou da vida clerical e voltou à Irlanda. Morreu de ataque cardíaco, em 20 de fevereiro, em Limerick, a duas horas de Dublin.
A paróquia agora tem outro titular, o padre Valdir Rodrigues de Brito. Ele não mora no Ângela e não quis conversar com a piauí. Uma ala anexa à nave principal da igreja costumava honrar os mártires da luta do povo. Estavam lá, num corredor estreito com lajotas de cerâmica negra, os retratos da irmã Dorothy Stang, do ambientalista Chico Mendes, da vereadora Marielle Franco, de Zumbi dos Palmares e de tantos outros. Eram os santos que padre Jaime admirava, por acreditar que o martírio de Jesus continua a ocorrer nos nossos dias. Hoje o corredor está vazio. Todas as imagens saíram de lá. Restou apenas o silêncio. Entre lágrimas, um discípulo do padre Jaime, que prefere não se identificar, lamenta: “É como se os mártires morressem novamente.”