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Bernardo Esteves Mai 2023 21h33
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Como tem feito praticamente todos os verões nos últimos doze anos, o paleontólogo uruguaio Richard Fariña passou duas semanas, em fevereiro deste ano, escavando o sítio do Arroyo del Vizcaíno, nos arredores do município de Sauce, quase 40 km ao Norte de Montevidéu, no Uruguai. Milhares de fósseis de grandes mamíferos extintos já apareceram ali desde 1997, quando os primeiros ossos vieram à tona em consequência de uma grande seca.
O sítio paleontológico fica embaixo do riacho (ou arroio) que lhe dá nome. A cada temporada, os pesquisadores precisam construir uma pequena barragem e desviar o curso do riacho, para que possam enfim abrir a escavação. Neste ano, eles eram aproximadamente quinze, entre colaboradores e alunos de Fariña na Universidade da República. Ficaram acampados nas imediações do sítio, e o paleontólogo era quem cozinhava para o grupo.
Quando apareceram os primeiros fósseis, os moradores locais estranharam. “Isso não é de boi”, disse um senhor ao se deparar com um osso comprido. E não era mesmo: pertencia a uma Lestodon, uma preguiça-gigante que podia medir quase 5 metros de comprimento e pesar 4 toneladas ou mais. O animal viveu na América do Sul durante a última Era Glacial e desapareceu por volta de 11,5 mil anos atrás, com outros mamíferos gigantes que ficaram conhecidos como a megafauna extinta.
No Arroyo del Vizcaíno, foram encontrados vários desses animais. Viveram naquela região o gliptodonte, um bicho que lembra um tatu de 1 tonelada com uma cauda pontuda; o mastodonte, um primo extinto do elefante; e o dentes-de-sabre, um felino de 2 metros de comprimento cujos caninos podiam medir mais de 20 cm.
Quando os pesquisadores dataram o material, descobriram que os fósseis tinham cerca de 30 mil anos. Até aí, nada de surpreendente. Mas algo notável se revelou quando um colaborador de Fariña examinou de perto a clavícula de uma preguiça e encontrou marcas que, na sua avaliação, só podiam ter sido feitas por ferramentas de pedra fabricadas por humanos. Marcas similares apareceram também numa costela da Lestodon e em dezenas de outros ossos. Seriam um indício de que ali viveram humanos que talvez comessem carne de preguiça-gigante. Não fosse por um detalhe: para boa parte dos arqueólogos, os primeiros humanos só chegaram ao continente americano entre 16 mil e 20 mil anos atrás – ou seja, muitos milênios depois da época em que aqueles ossos foram talhados.
Aos 65 anos, Richard Fariña é um homem corpulento de farta cabeleira e barba grisalha. O cientista recebeu a piauí no começo de março num saguão da Universidade da República onde havia o esqueleto de uma preguiça-gigante e a carapaça de um gliptodonte descobertos no Uruguai. Falou em português fluente e com direito a mesóclise. Aprendeu a língua no final dos anos 1980, quando morou em Porto Alegre e fez mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Fariña explicou que as ferramentas de pedra costumam deixar marcas mais retilíneas e em forma de V. Quando causadas por dentes de um animal, as marcas são irregulares e em forma de U. “Como a pedra é bem mais dura que o osso, a incisão é profunda e deixa uma deformação nas bordas” disse o paleontólogo. “O osso se comporta como se fosse plástico.”
As marcas misteriosas até poderiam ter outras causas. Os ossos talvez tenham sido pisoteados por outros animais. O desafio dos pesquisadores é descartar essa possibilidade acima de qualquer suspeita. O uruguaio já calculou a probabilidade de todas as marcas identificadas nos ossos terem causas naturais, e concluiu que é baixíssima – um número que começa com 0 e tem outros 43 zeros depois da vírgula e antes do 6, o último algarismo. Num estudo de 2021, seu grupo recorreu à inteligência artificial para interpretar a origem das marcas e, mais uma vez, concluiu que elas foram produzidas por ferramentas de pedra.
Alguns colegas não se convenceram. Desde 2014, quando o grupo de Fariña publicou seus achados numa revista britânica, várias refutações ao trabalho foram veiculadas na literatura especializada. Na crítica mais recente, publicada no ano passado na revista PaleoAmerica, oito cientistas de universidades norte-americanas apontaram fragilidades no estudo uruguaio. Para eles, trata-se do exemplo típico de um sítio formado por processos naturais, e não pela ação humana. Fariña e seus colegas publicaram na mesma revista uma réplica em tom meio desaforado, que fala de rigor na ciência e honestidade intelectual.
A vida dos uruguaios seria bem mais fácil se eles achassem no sítio as ferramentas que produziram aquelas marcas. Já apareceu ali uma peça que tem jeito de ser um raspador, mas nada parecido com as facas de pedra que devem ter sido usadas para deixar aquelas marcas, quem sabe tirando a carne dos ossos. Algumas peças notáveis apareceram nas escavações deste ano, mas é cedo para cravar que eram ferramentas. “Ainda estão sendo analisadas”, disse Fariña.
O Arroyo del Vizcaíno se junta a outras ocupações de idade parecida espalhadas pelo continente americano. Na Serra da Capivara, no Sul do Piauí, há vários sítios com mais de 20 mil anos de idade, sendo que um deles passa dos 40 mil. Em Santa Elina, em Mato Grosso, há indícios da presença humana com até 27 mil anos – incluindo ossos de preguiça-gigante modificados por ferramentas. Em Chiquihuite, no Norte do México, há uma caverna a 2,7 mil metros de altitude que pode ter sido povoada há 30 mil anos. Em comum, esses sítios têm também o fato de serem todos contestados por parte da comunidade científica. Enquanto não aparecer uma prova mais firme da presença humana no Arroyo del Vizcaíno, a situação não deve mudar.
Fariña não se incomoda com as críticas nem faz questão de convencer os incrédulos. Só não abre mão de ver as marcas de ossos tratadas com seriedade pelos seus pares. O paleontólogo gosta das controvérsias e acha que elas abrem espaço para a circulação de novas ideias. “Na ciência é bom deixar abertas todas as portas, porque tu não sabe por qual delas vai ter que atravessar”, disse Fariña. E a porta da chegada humana ao continente há mais de 25 mil anos, segundo ele, “está ficando escancarada”.