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Maria Júlia Vieira Mai 2023 22h06
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No princípio era o barro.
Foi graças ao solo rico que o Alto do Moura, bairro de Caruaru, cidade do agreste pernambucano, começou a ser povoado. Por volta de 1900, agricultores de regiões vizinhas foram atraídos por sua terra fértil banhada pelo Rio Ipojuca. O local abrigava também uma abundante jazida da argila e, com o tempo, esse material levou os moradores a trocarem a agricultura pelo artesanato. O amontoado de ruas ficou conhecido como “Terra dos Ceramistas” e foi lá que viveram os mestres Vitalino (1909-63) e Galdino (1929-96), precursores das artes figurativas em barro no Brasil.
Logo na entrada do bairro, um portal exibe o seu título principal, conferido pela Unesco: “Bem-vindo ao Alto do Moura, o maior centro de artes figurativas das Américas.” As ruas calmas são repletas de ateliês. Pelas portas e janelas abertas se vê as mais diversas figuras de cerâmica dispostas em mesas, cadeiras e pranchas: casinhas e igrejas, bois e cães, lavradores, músicos e trabalhadores com roupas de padrões geométricos multicoloridos. De acordo com a Associação dos Artesãos em Barro e Moradores do Alto do Moura (Abmam), cerca de oitocentos ceramistas vivem atualmente da tradição do barro, passada de geração a geração.
Para a modelagem de peças nas mais variadas dimensões – desde figuras minúsculas cujos detalhes só se enxerga com lupa até figuras humanas em tamanho natural –, o barro precisa ter características específicas, como as encontradas nas margens do Rio Ipojuca. Essas jazidas locais, porém, estão quase esgotadas, de acordo com uma análise do geógrafo Laudenor Pereira da Silva.
Não foi o artesanato que as exauriu: olarias da área utilizam a argila dos terrenos para produzir telhas e tijolos desde os anos 1950. Houve épocas em que essas empresas até proibiram os artesãos de terem acesso a sua matéria-prima – que devido à cor escura, recebeu o epíteto de “ouro negro” (normalmente associado ao petróleo).
Proveniente de fenômenos geológicos que duram milhares de anos, o barro só pode ser encontrado em partes da margem do rio. Até hoje, três reservas foram utilizadas pelos moradores do Alto do Moura. A primeira, comprada pelo governo do estado, foi cedida para a comunidade de artesãos em 1981. O esgotamento da área ocorreu rapidamente, antes da liberação da segunda jazida, adquirida em 1985 e que acabou por volta de 2007. No mesmo ano, o governo comprou a atual reserva, de 4 hectares, também doada aos artesãos. Contudo, segundo relatos dos moradores, não há nenhuma proteção da jazida. Como sua porteira e suas cercas estão quebradas, qualquer um consegue ter acesso ao local, inclusive as olarias.
Acredita-se que a argila dessa terceira jazida vá durar pouco mais de vinte anos – o que precisa ser confirmado por novos estudos geológicos. Mas os artesãos dizem que a situação é pior. “Se retirássemos só da área que pertence à associação, o barro já tinha acabado há muito tempo”, diz o artesão Helton Rodrigues, presidente da Abmam. “Hoje em dia, tiramos só 10% do que utilizamos dessa jazida. Os outros 90% vêm de terrenos particulares [à beira do Rio Ipojuca], mas a qualidade é duvidosa.” A falta de estudos sobre o solo da região dificulta a descoberta de outras reservas que podem existir nos 320 km de percurso do rio.
Atendendo à reivindicação dos moradores e da associação, a Prefeitura de Caruaru anunciou, no ano passado, a compra de um terreno que seria destinado à extração do barro. Mas até agora só existe a promessa da então prefeita Raquel Lyra (PSDB), hoje governadora de Pernambuco. A doação ainda não foi oficializada, e os oitocentos artesãos, cuja renda depende inteiramente do barro, estão entregues à própria sorte.
Discípula e afilhada de Mestre Galdino, Cleonice Otília, de 65 anos, não acredita na sorte. Conhecida como Nicinha, a artesã começou a moldar o barro ainda criança, para ajudar no apertado orçamento da família. Foi graças ao barro que pôde comprar sua casa e sustentar seu filho após a morte precoce do marido.
“O diploma que eu tenho é o bolo de barro. O meu ouro negro. A minha caneta sem bico”, recita Nicinha, que estudou até a quarta série e é poeta. No ano de 2021, ela teve um poema publicado pela primeira vez, em uma coletânea intitulada Asas da Palavra do País de Caruaru. Agora está trabalhando em seu próprio livro. “Não aprendi a ler na escola, mas, através da arte do barro, até poesia eu faço”, diz. Suas esculturas de formas alongadas e imaginativas quase sempre vêm acompanhadas de poemas que as explicam e reinventam.
Mestre Galdino, Edvard Munch e Frida Kahlo são alguns dos artistas que inspiram Nicinha, além, é claro, de suas companheiras artesãs do Alto do Moura. Líder nata, ela fundou o grupo de mulheres Flor do Barro, que realiza cursos e oficinas sobre a arte ceramista para as novas gerações. O grupo já recebeu importantes distinções estaduais, como o Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, em 2019, e o Prêmio Culturas Populares, em 2018. Na luta pelo reconhecimento do trabalho feminino, o Flor do Barro protesta contra o fato de, quase sempre, somente homens serem reconhecidos pelo título de mestre artesão.
Tudo o que Nicinha construiu até hoje veio da intimidade entre suas mãos e o “ouro negro”. “A gente sobrevive da arte do barro. Precisamos saber quanto tempo ainda temos, e precisamos principalmente de uma nova jazida, com estudos que comprovem se ela é boa ou não”, diz. “Para que nossa arte não morra, precisamos ter o que deixar para as próximas gerações.” Esse é o único momento em que o rosto de Nicinha, cheio de pequenas rugas que atestam suas muitas risadas, deixa a tristeza transparecer.