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Luis Osete Mai 2023 22h13
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Aquela mulher que se arrasta pelo sertão no filme Vidas Secas, carregando o filho mais novo e com um baú de folha na cabeça, completou cem voltas ao redor do Sol no último dia 25 de março. Ela hoje mora em Genebra, na Suíça, mas nasceu cercada pela Caatinga, paisagem do livro de Graciliano Ramos e do filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos. Seu povoado natal, Boqueirão, no município baiano de Sento Sé, foi inundado nos anos 1970 para a criação do lago da barragem de Sobradinho. No lugarejo hoje submerso, começou o enredo singular que é a vida centenária da atriz Maria Ribeiro (no registro civil, Maria Ramos da Silva).
Caçula de uma família de sete irmãos, Ribeiro conta que tinha só 3 anos quando deixou Boqueirão, onde os pais eram trabalhadores rurais. Foi viver em Juazeiro, na Bahia, e depois em Pirapora, em Minas Gerais, com um casal de tios mineiros que cuidaria dela até a idade adulta. Quando tinha 15 anos, mudou-se com eles para o Rio de Janeiro.
No Rio, trabalhou em fábricas e tipografias, até se fixar na Líder Cine Laboratórios, onde chegou a chefe de expedição. A empresa fazia revelação de filmes e tinha entre seus clientes os jovens diretores que criariam o Cinema Novo. “Eles me entregavam o filme para revelar, e eu entregava o copião. Tinham mais contato comigo do que com o dono do laboratório”, lembra Ribeiro.
Ela nunca pensara em ser atriz, mas, aproximando-se dos 40 anos no início dos anos 1960, foi convidada por Pereira do Santos, durante um intervalo de almoço na Líder, para interpretar Sinha Vitória em Vidas Secas, o quinto longa-metragem do diretor (a tendência de buscar amadores para papéis centrais ganhou força no Cinema Novo). “Nelson, peça tudo, menos isso”, disse ela. Mas ele estava convicto de ter encontrado nos traços e na firmeza da funcionária os atributos ideais para a companheira do retirante Fabiano, personagem de Átila Iório, ator já experiente.
Ela cedeu à insistência do diretor. Os quatro sócios da Líder relutaram em liberar sua funcionária, mas foram convencidos por um dos produtores do filme, Herbert Richers, cliente assíduo do laboratório. Para não confundirem o sobrenome Ramos de Maria com o do escritor Graciliano, o dela foi mudado para Ribeiro.
As filmagens em Palmeira dos Índios, no agreste alagoano, cidade onde Graciliano Ramos foi prefeito, duraram quatro meses. A equipe morou em um alojamento improvisado. “Como o filme era muito pobre, não tinha uma tenda no set para proteger do Sol”, conta Ribeiro à piauí, por telefone. “Eu me cobria com uma toalha de banho e ficava acocorada embaixo de um pé de catingueira esperando a minha vez de entrar em cena.”
Houve outros desafios. Um deles foi a cena em que Sinha Vitória mata o papagaio de estimação para comer. Ribeiro relembrou certa vez como a sequência foi feita: “Eu, os meninos e Fabiano comendo raiz seca com um restinho de farinha. E o papagaio em cima do baú, zanzando pra lá e pra cá. Quando Nelson disse: ‘Cena!’, eu fiquei tão assombrada que peguei o papagaio pelo pescoço e apertei, torcendo e não torcendo ao mesmo tempo para não matar. Nelson ficou apavorado e disse: ‘Corta!’ Joguei o papagaio pra lá e ele caiu se debatendo. Pegaram, molharam e o descarado viveu. Ficou um dia tristinho, mas depois caiu na malandragem.”
Lançado em 1963, Vidas Secas foi exibido no ano seguinte no Festival de Cannes, onde ganhou o prêmio da Organização Católica Internacional do Cinema (Ocic). Lá, despertou preocupação com outro animal: uma condessa italiana acionou a Sociedade Protetora dos Animais para protestar contra o sacrifício da cadela Baleia. A reclamação foi tão veemente que a Air France se dispôs a levar Baleia a Cannes, para provar que sua morte fora só encenação. Ao que consta, a cadelinha desfilou no festival toda faceira, com um traje de gala azul-marinho e uma camélia branca. “Eu não fui a Cannes, mas Baleia foi”, diz Ribeiro.
Em 1965, a agora atriz profissional iria a Cannes com A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, no qual ela fez o papel de Dionóra. A essa altura, já havia deixado o emprego no laboratório. Na sequência, trabalhou em Os Herdeiros (1970), de Cacá Diegues; Soledade – A Bagaceira (1976), de Paulo Thiago; Perdida (1974), de Carlos Alberto Prates Correa, e As Tranças de Maria (2003), de Pedro Carlos Rovai. Ela conta que teve ainda uma curta passagem pela tevê, em O Rei do Gado (1996), da Rede Globo, mas suas cenas teriam sido cortadas na edição final.
Com Nelson Pereira dos Santos, fez mais dois filmes: O Amuleto de Ogum (1974) e A Terceira Margem do Rio (1994). “Meu relacionamento com ele era maravilhoso e vinha do laboratório, quando apresentou os primeiros filmes, sempre muito tímido, acanhado. Senti muito a morte dele”, diz. O diretor de Vidas Secas morreu em abril de 2018.
Maria Ribeiro vive em Genebra desde 2010. Foi sua filha única, Wilma Lindomar da Silva, que mora na Suíça há quase quarenta anos, quem a convenceu a se mudar para a cidade. A atriz sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2020. Com visão e locomoção prejudicadas, ela hoje reside em uma casa de repouso para idosos, a Résidence Poterie.
Foi lá que a Prefeitura de Genebra celebrou o centenário de Ribeiro, com a apresentação de um casal de dançarinos brasileiros e a entrega de um buquê de flores amarelas. Em abril, a família estava organizando uma breve viagem da atriz ao Brasil, entre o final deste mês e o início de junho. Ela desejava rever seus familiares.
Forte como as personagens que costumava interpretar, Ribeiro diz que a morte não a assusta. “Já comprei minha mortalha tem mais de 25 anos, em Roma. De vez em quando tem que lavar, porque vai amarelando”, conta. Ela até já planejou como será sua lápide no cemitério de Sobradinho, no interior da Bahia. Haverá uma foto sua, com chapéu de palha e sorriso radiante, perto deste epitáfio: “Maria Ribeiro: atriz da tevê e do cinema brasileiro.”