questões vultosas

QUAL A HISTÓRIA DENTRO DA NÉVOA QUE CERCA O GOVERNO LULA?

Incertezas com o futuro não ofuscam o significado gigantesco da derrota de Bolsonaro
Imagem Qual a história dentro da névoa que cerca o governo Lula?

6 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo


Esta história poderia chamar-­se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-­me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas.

Estes são os parágrafos iniciais de um conto curtinho e precioso de Clarice Lispector, chamado A Quinta História. Foi publicado originalmente na revista Senhor, em 1962, e republicado em A Legião Estrangeira, coletânea de 1964.

As baratas são recorrentes na obra de Clarice. O inseto aparece marginalmente em Perto do Coração Selvagem, seu romance de estreia, e A Cidade Sitiada, o terceiro romance. E está no centro da trama, ou do conflito de A Paixão Segundo G.H. (1964), um dos pontos altos da literatura brasileira no século XX. Um dos capítulos da biografia Clarice, de Benjamin Moser, se chama justamente A Barata.

No caso de A Quinta História, elas são uma legião, e inextinguíveis. As histórias são, pois, a reiteração da mesma trama – a queixa, a preparação da receita fatal, o extermínio, sempre à noite (“de dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila”). Ao mesmo tempo, a cada repetição do enredo, o ritual ganha contornos novos e se intensifica (“agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe”). Ao descrever as baratas “tentando fugir de dentro de si mesmas”, a narradora fala de si. E – por extensão – de cada um de nós.

Baratas não faltam no país (é uma metáfora, é bom dizê-lo, dada a abundância nos dias que correm de incompreensão de texto). O que nos falta neste momento é clareza mínima a respeito da história que estamos contando, ou, antes, vivendo. Eu ia dizer “construindo”, mas o verbo parece sumir na névoa que cerca o futuro do governo Lula. Nunca, no entanto, será demais repetir o óbvio: a derrota de Bolsonaro nas urnas tem significado histórico gigantesco, o que nem sempre (e cada vez menos) é tratado com a importância devida. Se viesse o segundo mandato, estaríamos agora no coração das trevas.

O mês de maio foi especialmente ruim para Bolsonaro, sem que tenha sido particularmente bom para Lula. O escândalo da falsificação dos cartões de vacina deixa o ex-presidente numa situação de vulnerabilidade inédita, não apenas porque o colocou formalmente na mira da Polícia Federal, mas porque este caso parece ser apenas a porta de acesso ao porão onde se escondem sabe-se lá quantos cadáveres da gestão anterior (e aqui não se trata necessariamente de metáfora).

A chave do porão está nas mãos do tenente-coronel Mauro Cid, preso desde o dia 3 de maio no Batalhão de Polícia do Exército de Brasília. Bolsonaro usou seu então ajudante de ordens não apenas para fraudar o cartão vacinal, mas para tentar reaver as joias sauditas retidas na Receita Federal, para pagar com dinheiro vivo contas da ex-primeira-dama e para auxiliar na urdidura do golpe contra a democracia, que iria resultar no apoteótico 8 de janeiro, não sem antes ter deixado um rastro de crimes pelo caminho.

Mauro Cid, o faz-tudo de luxo de um presidente que operou o tempo todo a confusão entre os verbos governar e delinquir, é irmão de alma (ou o “primo rico”) de Fabrício Queiroz. A distância entre eles não está nos modos, mas na geografia: um atuou no Planalto, o segundo atuava na planície. Queiroz, o homem que cuidava da rachadinha, fugiu, se escondeu, virou meme, foi descoberto na casa do advogado da família Bolsonaro – Frederick Wassef é outro personagem do submundo –, ressurgiu, voltou a se exibir, tentou virar deputado, seguindo os passos do chefe, e está por aí, vagando pelos territórios demarcados do Rio de Janeiro, arquivo vivo dos elos da milícia com a Presidência da República.

Cid lembra Queiroz, e Queiroz, por sua vez, nos faz lembrar de Adriano da Nóbrega, este um arquivo morto, fuzilado na Bahia, quando estava foragido, numa operação que contou com a participação especialíssima da polícia carioca. Ex-capitão do Bope, Nóbrega era o líder do Escritório do Crime, milícia de pistoleiros de aluguel que vivia cotidianamente da exploração imobiliária e extorsões afins. Familiares do matador foram durante muitos e muitos anos funcionários do gabinete parlamentar de Flávio Bolsonaro. Tudo se mistura nesse pântano. Alguém poderia brincar de ligar os pontos – Cid-Queiroz-Nóbrega – para ver se formam uma figura de barata.

No lusco-fusco em que vivemos, maio testemunhou também cenas explícitas da partidarização do sistema de Justiça do país. Num intervalo de poucos dias, tivemos, de um lado, a cassação do mandato parlamentar de Deltan Dallagnol pelo Tribunal Superior Eleitoral e, de outro, o afastamento do juiz Eduardo Appio da 13ª Vara Federal de Curitiba, que cuida dos processos da Lava Jato. Apeado de suas funções por uma corte especial do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o famigerado TRF-4, Appio é adversário declarado dos métodos da força-tarefa e havia prometido passar a limpo as ilegalidades cometidas pela dupla dinâmica de Curitiba. Dallagnol dispensa apresentação. Ele e Sergio Moro encarnam o neoudenismo fervoroso que costuma confundir justiça com política e política com missão religiosa. Pavimentaram o caminho para Bolsonaro e se beneficiaram da ascensão da extrema direita no país.

Esses dois casos não são equivalentes, e cada qual está embasado em alegações técnicas, mas aquém e além de todas as tecnicalidades, o que grita nas duas situações é a sensação aguda de arbitrariedade, de que a Justiça foi capturada pela conveniência política, pela sede de vingança ou por interesses particulares.

Esse ambiente tóxico, de promiscuidade e rebaixamento institucional, esteve bem representado num convescote que ocorreu também em maio, e reuniu no apartamento de um criminalista em São Paulo o pessoal do Prerrô – como se autodenomina esse grupo descolado de advogados simpáticos a Lula – e o ministro do STF André Mendonça. Tratava-se, nas palavras dos organizadores, de “celebrar o primeiro ano” do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro na nova função. Estavam lá Ricardo Lewandowski, que mal se aposentou do Supremo e já mudou de turma, ministros do governo Lula, parlamentares e membros do Ministério Público. O que faz um ministro do Supremo num banquete desse naipe? Ministro, diga-se, a quem foi designada a relatoria da ação que pede a suspensão do pagamento de multas e a revisão dos acordos de leniência firmados entre o Estado e empresas envolvidas em ilícitos na Lava Jato. Mas isso, claro, é apenas uma coincidência.

Volto a Clarice Lispector. Ao ver pela manhã o espetáculo das baratas mortas, a narradora descreve: Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompeia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro.

Haveria ainda outras histórias pedindo um narrador. A exploração de petróleo na bacia da foz do Amazonas. O esvaziamento da pasta de Marina Silva e o engessamento do Executivo patrocinado por Arthur Lira e seu Centrão. Não sei exatamente qual história eu ainda teria que contar. Mas ela começa assim: Queixei-me de baratas.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_201 com o título “Queixei-me de baratas”.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É repórter da piauí