Imagem Astrud Gilberto: a voz mundial da Bossa Nova

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ASTRUD GILBERTO: A VOZ MUNDIAL DA BOSSA NOVA

Cantora foi referência da música brasileira fora do país, mesmo sem alcançar sucesso no Brasil

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A história foi contada muitas vezes. Nos dias 18 e 19 de março de 1963, João Gilberto e Tom Jobim estavam em Nova York com o saxofonista Stan Getz. Eles gravavam o que viria a ser um dos álbuns mais importantes da bossa nova, o Getz/Gilberto. Já no final das gravações, o produtor Creed Taylor teve a ideia de emendar uma versão em inglês de Garota de Ipanema à versão original para facilitar a compreensão da música pelo público norte-americano. À beira dos 23 anos, Astrud Gilberto acompanhava o marido, João, no estúdio da Verve Records. Gostava de cantar, era muito afinada e falava bem inglês. Escalada de improviso, registrou para todo o sempre a canção de Jobim e Vinicius de Moraes, na versão de Norman Gimbel. A faixa acabou abrindo o disco. Astrud e João dividiam o vocal. Ela cantava em inglês e ele, em português.

Um ano depois, a Verve resolveu lançar a versão de Gimbel num compacto simples, mas somente com a voz de Astrud, o violão de Jobim e o sax-tenor de Getz. João ficou de fora. O resto se sabe: o compacto virou um fenômeno e vendeu 1 milhão de cópias. A bossa nova se tornou febre mundial e Astrud foi catapultada para o sucesso.

Do ponto de vista musical, há um elemento importante na versão em inglês. Quando surgiu interpretando Chega de Saudade em 1959, João Gilberto parecia uma criatura de outro planeta, se comparado aos cantores e violonistas da época. Compreendia a batida do violão como algo flexível e não dava ênfase clara no primeiro ou no segundo tempos do compasso. Quer dizer: fugia das características usuais do samba.

Ainda mais revolucionária era a forma de João entender o canto, que ele aproximava da linguagem falada. Criar música a partir das melodias naturais da fala já vinha de muito longe. Basta pensar no canto gregoriano e nas canções trovadorescas. Ou, então, no próprio samba urbano, popular no Brasil desde as primeiras décadas do século XX. A diferença é que João Gilberto levava ao extremo a entoação do canto falado, reforçando um espírito ao mesmo tempo vanguardista e íntimo, moderno e afetuoso. Desse modo, definiu uma “bossa” realmente nova, que tinha em Tom Jobim seu maior compositor e em Vinicius de Moraes seu melhor poeta.

Quando João canta a estrofe inicial de Garota de Ipanema, só a primeira sílaba cai indubitavelmente no tempo forte: Ó…lha que coisa mais linda/Mais cheia de graça/É ela a menina/Que vem e que passa/Num doce balanço/Caminho do mar. Todo o resto flutua sobre a batida regular dos compassos – de um jeito diferente a cada repetição e a cada sucessiva gravação. Agora vejamos a primeira estrofe da letra em inglês, antes de voltar a Astrud: Tall and tan and young and lovely/The girl from Ipanema goes walking/And when she passes/Each one she passes goes: Aaah! Aqui, não apenas se perdeu – de modo até chocante – o encantamento lírico de Vinicius, mas a possibilidade de se cantar à moda de João. Os versos dessa estrofe obrigam o canto a oscilar entre o tempo forte e o fraco: Tall and tan and young and lovely… A caminhada mais livre proposta por João Gilberto vira uma disciplinada marcha. Parêntese: tall and tan?! Alta e bronzeada?! Só faltou dizer blonde (loira). Virou Garota de Palm Beach

Não deixa de ser irônico perceber que talvez tenha sido justamente esse um dos fatores que levaram a bossa nova ao êxito internacional. Mas ficar só nisso seria injusto com o trabalho dos arranjadores e muito mais injusto com a arte de Astrud, que não à toa se converteu num dos principais nomes da música brasileira fora do país, embora nunca tenha alcançado verdadeiro sucesso por aqui.

Nascida em março de 1940, em Salvador, a cantora cresceu no Rio de Janeiro. Chamava-se Astrud Evangelina Weinert antes de se casar e foi amiga de adolescência de Nara Leão, que lhe apresentou o futuro marido. A baiana chegou a participar, em maio de 1960, do lendário show A Noite do Amor, do Sorriso e da Flor na então Faculdade Nacional de Arquitetura, ligada à UFRJ. O espetáculo, que entrou para a história como o primeiro festival de bossa nova, reuniu Elza Soares, Sylvia Telles, Ronaldo Bôscoli, Nana Caymmi, Sérgio Ricardo e Johnny Alf, além da própria Nara e de João, entre outros.

Em 1963, Astrud se mudou para Nova York acompanhando o marido, com quem já tivera João Marcelo, o único filho do casal. Separada em 1964, ficou nos Estados Unidos até morrer, aos 83 anos, no último dia 5 de junho – notícia que correu o mundo, apesar de a artista ter parado de cantar há duas décadas.

Seja no canto em si, seja na postura em cena, as marcas de Astrud eram a afinação e a contenção, como se observa, por exemplo, no programa de tevê em que ela interpreta The Girl from Ipanema com Stan Getz, fácil de achar no YouTube. A cantora também demonstrava certa ingenuidade ou, indo mais longe, um quase apagamento de personalidade que, paradoxalmente, só fazia aumentar seu charme moderno. Se as melodias da bossa nova, nas versões em inglês, retornavam à geometria regular, ao gosto convencional, Astrud escapava estranhamente de qualquer expressão emotiva, o que, aliado ao leve sotaque, conferia a tudo um encantamento de outro mundo, admirável e novo.

No embalo de Girl from Ipanema, ela logo lançou seu primeiro disco solo, The Astrud Gilberto Album (1965), em que apresentava dez composições de Jobim e uma de Caymmi, algumas em português, a maioria em inglês. Depois viria The Shadow of Your Smile (1965), que oferecia não só música brasileira, mas hits internacionais em arranjos bossa-novistas, como a irresistível Fly Me to the Moon. Era a bossa nova tomando para si o planeta inteiro, pela voz de Astrud.

Ao longo da carreira, a artista gravaria nada menos que dezoito discos, cantando em inglês, português, francês, espanhol, italiano, alemão e até japonês, com parceiros variados, de Chet Baker, Stanley Turrentine e George Michael à orquestra de James Last. Foi a primeira intérprete feminina a receber o Prêmio Grammy de gravação do ano, em 1965. Quase quatro décadas depois, em 2002, entrou para o International Latin Music Hall of Fame.

Difícil imaginar que a maior parte dessa produção tenha sobrevida longa. Mas aqueles primeiros discos permanecem. Vendo as coisas daqui para fora, Astrud não chegava a ser uma cantora de primeiríssima linha. Aos olhos do mundo, no entanto, ela certamente foi. Talvez não tivesse a personalidade forte que se espera de uma grande artista. Só que aí também se esconde um milagre. Menos uma cantora do que um estilo, Astrud encarnou como ninguém a beleza, o afeto, a leveza e certa forma de felicidade um pouco triste que definem o sonho brasileiro pré-ditadura.

João Gilberto, Tom Jobim: esses estão fora do tempo, presentes para nós, ao primeiro acorde, à primeira sílaba, na dimensão da eternidade. Livraram-se da época, sem se perder dela. Já Astrud é uma cápsula perfeita de seu tempo, que ela soube preservar como ninguém. Com todas as suas dicções e contradições, é a voz mundial da bossa nova, que passou.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_202 com o título “Discrição fulgurante”.


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É violonista e compositor. Foi diretor artístico da Osesp entre 2010 e 2022. Autor do livro Tudo Tem a Ver (Todavia), lançou os álbuns Violão Violão e Sarabanda (Selo Circus), entre outros.