despedida

A ÚLTIMA TRAGYCOMEDYORGIA DE ZÉ CELSO

Como foi o velório do diretor que revolucionou a dramaturgia brasileira
Imagem A última tragycomedyorgia de Zé Celso

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O comentário inevitável era entreouvido pelas pessoas que – empoleiradas no famoso emaranhado de tubos de aço que formam a plateia do Teatro Oficina – acompanhavam o velório de José Celso Martinez Corrêa: de cabo a rabo, a cerimônia fazia jus à obra do dramaturgo e diretor. Na noite de 6 de julho, uma quinta-feira, a despedida foi recheada de nuances entre tristeza e alegria, poesia e contestação, congraçamento em que tudo fazia sentido e mixórdia em que ninguém entendia nada. Tudo com horas e horas de duração e tendo, como pano de fundo, um aspecto profundamente ritualístico. Igualzinho, portanto, ao climão geral das peças que, ao longo das últimas décadas, viraram a assinatura de Zé Celso.

Às 21 horas, jovens atores começaram a varrer o chão de madeira laminada da passarela de 50 metros que serve de palco do belíssimo Oficina, hoje uma referência cultural do bairro do Bixiga, na região central de São Paulo. O público já começava a lotar o ambiente que, iluminado com luzes vermelhas, ganhava um efeito cênico levemente dionisíaco. Às 22 horas, uma banda improvisada puxou uma toada de canções. Primeiro, Menino Bonito, de Rita Lee. Depois, Carinhoso, de Pixinguinha e Braguinha. A lotação começou a aumentar perigosamente, com gente escalando os pedaços da arquibancada que permaneciam vazios. Em nome da segurança, a plateia foi lentamente esvaziada. A pequena multidão, então, passou a esperar do lado de fora pela chegada do corpo de Zé Celso.

Às 22h40, o trecho da Rua Jaceguai que corre ao lado do Viaduto Júlio de Mesquita Filho, onde fica o Oficina, foi fechado para o trânsito. Às 23h14, as portas do teatro se abriram de novo. O carro do serviço funerário entrou, percorrendo vagarosamente a passarela até chegar nos fundos, com os faróis acesos. O caixão, enfeitado com alguns girassóis, foi retirado e cercado por amigos e familiares. Do lado de fora, um grupo de atores tocou tambores. Dentro do teatro, a banda entoou A Felicidade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Às 23h34, o carro saiu de ré, cuidadosamente.

Às 23h48, organizadas em fila e de mãos dadas, as pessoas começaram a entrar novamente no teatro, engrossando o coro da música da vez. A cobra humana andava até os fundos da passarela, dava a volta no caixão e depois voltava em direção à saída – em um movimento orientado por atores do Oficina vestidos de branco com adereços de folhas nos cabelos. Pela grande corda passaram jovens com cara de estudantes de teatro, alguns soltando brevemente as mãos para beber em garrafas pelo gargalo, na velha atitude juvenil de tristeza rock‘n’roll. Entraram senhores respeitáveis, usando cachecóis, e senhoras com os cabelos bem penteados. Vez por outra, a ciranda passava levando rostos conhecidos do mundo das artes. O maestro João Carlos Martins, um dos responsáveis pelo tombamento do Teatro Oficina em 1982, quando era secretário estadual de Cultura, entrou olhando ao redor e para o alto, com cara de fascínio. A atriz Bárbara Paz passou chorando. Julia Lemmertz e Maria Casadevall também. O ator Alexandre Borges estava entre os muitos que choravam e riam, ao mesmo tempo.

Artistas que estavam por ali se revezavam no microfone. À 00h04, Chico César cantou Béraderô, uma de suas composições, e foi acompanhado por um grande coro do público. À 0h28, a banda improvisada cantou Na Cadência do Samba, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta – provocou uma apoteose de palmas. O cordão de visitantes varou as horas seguintes até se desfazer, mas dezenas de pessoas continuaram chegando e encorpando o que se transformou em uma noite daquelas com poder para ativar em suas testemunhas a frase “Eu estive lá!”.

O último ritual pagão do diretor só acabaria por volta das 12h30 da sexta-feira. Uma fala de encerramento coube a Márcio Telles, ator do Oficina e pai de santo. “Zé Celso deixa de ser o nosso grande mestre para virar uma eternidade. Estamos aqui celebrando a vida, porque não acreditamos na morte – somos artistas”, disse ele. O deputado estadual Eduardo Suplicy ajudou a levar o caixão até o carro da funerária. De lá, o corpo de Zé Celso seguiu para outra cerimônia, a de cremação – exclusiva para familiares e amigos.

Zé Celso começou a cavar sua importância na história do teatro brasileiro no final da década de 1950, quando fundou o Oficina com outros artistas, como o então namorado Renato Borghi. Em 1963, encenou Pequenos Burgueses, de Máximo Górki. No ano seguinte, Andorra, de Max Frisch – ambas com imenso sucesso de público. Mas só entrou para o rol dos grandes transgressores em setembro de 1967, quando encenou pela primeira vez O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. O cartaz da estreia já avisava: “Atenção: quadrados, festivos, pudicos, não venham.” A montagem entrou em cheio no bololô que daria no Tropicalismo, movimento estético que chegou ao cinema (com Terra em Transe, lançado quatro meses antes por Glauber Rocha), à música popular (com a turma de bambas puxada por nomes como Rogério Duprat, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé que, no ano seguinte, lançaria o disco Tropicália ou Panis et Circensis) e às artes plásticas (com Hélio Oiticica).

Em 1968, Zé Celso esticou mais ainda a corda de sua capacidade de provocar perplexidade com a peça Roda Viva, de Chico Buarque. Em cena, o elenco fazia críticas à família, à propriedade, à religião e eliminava qualquer distância do público, lançando insultos à plateia e respingando sangue nas primeiras filas, ao morder pedaços crus de fígado de boi – o que arregalou os olhos da ditadura militar e mobilizou os extremistas de direita, que invadiram o teatro e espancaram o elenco. Em 1972, com a montagem de Gracias, Señor, o diretor mergulhou de vez em seu caminho altamente ritualístico, que viraria um traço de seu trabalho.

Em alguns momentos, a fusão de teatro com ritos sagrados chegou a extremos, como no famoso episódio de 1996, em que atores e operadores de luz entraram em um transe coletivo de oito horas, depois de tomar chá de ayahuasca no ensaio da tragédia As Bacantes, de Eurípides. Apesar da viagem geral, ninguém errou falas ou marcações – ou se alguém errou, ninguém notou. Quando foi apresentada no Rio de Janeiro, a peça causou frisson depois que uma atriz arrancou Caetano Veloso da plateia e o deixou nu como um bebê, em cena aberta.

“No Teatro Oficina, esse lugar sem coxia, com tudo aberto, o Zé até o fim mostrava cada passo do rito da encenação. As pessoas viam os atores trocando de roupa para entrar em cena, mergulhavam nesse tempo alongado e específico da liturgia do teatro – que é sempre um ritual, porque a gente incorpora personagens, do mesmo jeito que acontece nas religiões de incorporação. E o teatro do Zé era isso, era o entusiasmo, no sentido etimológico de ‘ter um Deus dentro’”, diz o diretor, dramaturgo e ator Marcelo Drummond, viúvo de Zé Celso.

O casal se conheceu em 1986, andando pelas ruas do Baixo Gávea, no Rio de Janeiro. Pararam para conversar e, no minuto seguinte, foram para a cama. “Nos anos 1980 era assim, a gente se pegava”, diverte-se Drummond. Aos 24 anos, ele acabou mudando para São Paulo e debutou em grande estilo: com o consagrado ator Raul Cortez, foi um dos protagonistas da peça As Boas, montagem de 1991 que marcou a volta do Teatro Oficina depois de um longo recesso – desde que voltara de quatro anos de exílio, em 1978, Zé Celso ficara longe dos palcos.

Dali em diante, Drummond participou de todas as montagens e ajudou a girar a roda do Oficina, além de ser o companheiro de vida do dramaturgo por 37 anos. “Fui muito apaixonado por ele e isso se transformou num amor imenso, numa coisa que não tem igual”, diz. Um mês antes da morte de Zé Celso, os dois se casaram, em uma “festa orgiástica” na passarela do teatro. A cerimônia rendeu cenas lindas, com ambos vestidos de branco, sorridentes. “Não foi nada romântico. Teve uma intenção de fazer essa coisa inaceitável para o etarismo, esse abuso que é um cara de 86 anos e outro de 60 se casando. Mas foi a coisa prática, de poder levar adiante a obra dele, que definiu o casamento oficial.”

Transgressor, ritualístico, com uma honestidade intelectual feroz – só fazia o que queria, apesar de ter passado boa parte da carreira às voltas com uma falta crônica de dinheiro –, muitas vezes rodeado por jovens atores que nutriam uma admiração messiânica por sua personalidade, Zé Celso acabou carregando uma imagem com força suficiente para assustar as pessoas. “Vários artistas com quem ele trabalhou disseram que no início tinham medo dele, mas chegando perto viram como era amoroso”, diz Drummond. Na noite de uma quarta-­feira, doze dias depois do velório, sentado na varanda do apart-hotel onde foi hospedado por amigos, no bairro do Paraíso, ele conversou com a piauí sobre o “Zé Celso das internas”: “As pessoas não imaginam, mas ele era extremamente ligado à família, aos irmãos – é uma gente incrível, fora de série e que sabia valorizar o tamanho e o valor dele”.

O avô do diretor, Celso Martínez Carrera – um espanhol radicado em Araraquara, interior de São Paulo – projetou a cama patente, considerada uma das joias do mobiliário nacional. O pai, Jorge Borges Corrêa, que chegou a ser vereador e prefeito interino na cidade, era um professor louco por literatura e por cinema – e cevou a imaginação dos sete filhos com filmes caseiros e uma biblioteca numerosa. A mãe, Angela Martinez Corrêa, a dona Lina, era linha dura e sangue quente. Zé Celso cresceu próximo e manteve ligações estreitas com os familiares – a não ser no auge do desbunde dos anos 1960, quando irritou alguns deles. Dois irmãos já morreram, a professora Maria Helena, também autora de peças, e Luís Antônio Martinez Corrêa, o talentoso diretor de teatro musicado que estava em plena ascensão quando foi assassinado, em 1987, no Rio de Janeiro, com mais de cem facadas, mãos e pernas amarradas em uma cama. O crime, cometido por um surfista, foi tão brutal que quase levou Zé Celso, arrasado, a desistir de fazer teatro.

Em 1994, em uma terça-feira de Carnaval, Zé Celso sofreu um infarto. “A gente ficou numa merda total, sem dinheiro nenhum. O Oficina ainda voltando, sempre polêmico. O demônio era o Zé, muitas pessoas e boa parte da imprensa tinham um grande bode dele. Atores que iam para a televisão até se afastavam do Oficina”, lembra Drummond. Zé Celso resolveu se mudar com o marido para o mesmo prédio no bairro do Paraíso em que já moravam, há anos, duas de suas irmãs, a historiadora e professora Anna Maria – responsável por levá-lo para o teatro na juventude – e a artista plástica Lala. Foi um arranjo perfeito. O dramaturgo alugou o apartamento 63; Drummond ficou no do lado, o 62. No andar de baixo, as irmãs. Aos domingos, até a morte de Zé Celso, todos se reuniam para almoçar e recebiam outro irmão também muito próximo, o arquiteto João Batista – que, entre outros projetos, assina o do túnel brutalista da estação de metrô Cardeal Arcoverde, em Copacabana. Agora herdeiro da obra de Zé Celso, Drummond planeja abrir uma fundação. Além do legado do diretor, quer juntar também os escritos, projetos e obras de arte produzidos por todos os seus irmãos.

Pelos olhos domésticos de Drummond, o dramaturgo, ator, diretor e militante Zé Celso, sempre associado às provocações, era mais silencioso do que barulhento. Tomava banhos demoradíssimos – e, às vezes, chamava quem estava em casa quando um deles resultava em uma nova ideia. Foi notívago até o fim, jantava por volta de uma da manhã e ouvia música alta na madrugada – o que provocava reclamações das irmãs no andar de baixo. Sempre esteve às voltas com perrengues financeiros, mas não se deixava amedrontar por isso. Só teve certo sossego depois que passou a receber, a partir de 2010, uma pensão vitalícia como indenização por ter sido preso, torturado e exilado durante a ditadura militar – um dinheiro fixo que lhe permitia pagar o aluguel, os remédios e o salário de um secretário.

Foi profundamente afetado pelos anos de reclusão durante a pandemia de Covid. Ficou com passos vacilantes e, por isso, andava de mãos dadas com alguém, para se garantir. A partir desse período, Drummond passou a fazer e servir suas refeições, arrumar seu quarto, tomar as decisões da casa. Aproveitava que o companheiro dormia até tarde e resolvia as coisas na rua no período da manhã. Às vezes achava que os olhos de Zé Celso estavam perdendo um pouco de sua faísca – mas, nos últimos meses, o vigor voltara com tudo durante os preparativos do projeto da vez, a peça A Queda do Céu, baseada no livro de Davi Kopenawa, líder yanomami, e do etnólogo francês Bruce Albert.

Ainda assim, reclamava dos lapsos da idade. “Ele perguntava a mesma coisa, várias vezes seguidas, e se esquecia da resposta. Ficava preocupado e me perguntava: Será que estou com Alzheimer? Eu respondia: ‘Não, Zé, você só fuma maconha há muito tempo.’” Drummond já sente muitas saudades de como debochava de Zé Celso – e de como ele ria disso. “Mas a gente brigava muito também. Acho que o conhecia muito bem, justamente porque era a única pessoa que nunca concordava imediatamente com o que ele falava.”

Nos últimos meses, os apartamentos que funcionavam como uma casa só passaram a hospedar dois amigos, os atores Ricardo Bittencourt, que havia acabado de voltar da Alemanha, e Victor Rosa, um jovem que perdeu o pai para a Covid e, como morava em Guarulhos, tinha dificuldades para ir embora depois das longas peças do Oficina, que chegavam a durar até seis horas. Bittencourt passava madrugadas conversando com Zé Celso. De seu quarto, Drummond ouvia os papos de longe, enquanto pegava no sono. Na noite fria de 4 de julho, uma terça-­feira, a casa foi dormir depois de uma dessas longas conversas. Todos acordaram repentinamente pela manhã, confusos e cobertos de fuligem, com um incêndio se alastrando pelo quarto de Zé Celso e o vulto dele tentando sair, segurando um andador. Com metade do corpo queimado, o diretor morreu dois dias depois. O laudo do Instituto de Criminalística apontou como causa provável “o contato entre um aquecedor e materiais de fácil combustão, presentes no cômodo”.

Semanas antes da morte de seu companheiro em tempo integral, ainda em junho, Drummond foi escolhido em assembleia vice-presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, nome formal do Oficina. E, poucos dias depois de perdê-lo, diz que vai continuar tocando o teatro como sempre, com decisões tomadas em colegiado. Mas tem batalhas dramáticas pela frente. Não bastasse o desafio de tocar um teatro adiante, já anda evocando as forças dionisíacas para conseguir ventos a favor na briga que já dura 43 anos com o Grupo Silvio Santos, que resiste a transformar o terreno que circunda o Teatro Oficina em um parque que, entre outros benefícios, libertaria o Rio Bixiga, que corre por ali, 4 metros abaixo do solo.

No dia de seu casamento, Zé Celso e Drummond foram impedidos por uma liminar judicial de plantar no terreno, como haviam anunciado, um pé de ipê enviado de presente pelas atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. Sete dias depois do velório do dramaturgo, a companhia foi à forra. Conseguiu autorização da prefeitura para plantar a árvore na calçada diante do terreno em disputa – onde Silvio Santos planeja construir três torres, uma delas bem na frente do imenso painel de vidro na lateral do Oficina, por onde se pode ver o movimento da cidade durante as peças.

Às 16h35 do dia 13 de julho, uma quinta-feira, a terra de um pequeno canteiro foi revolvida. Meia hora depois, a muda de ipê estava lá de pé – rodeada também por seis rosas brancas, duas espadas-de-são-­jorge e cinco antúrios vermelhos plantados por artistas. Com música, choro e gente tocando na árvore como se fosse a personificação de Zé Celso, o plantio foi uma cerimônia, claro, cheia de rituais.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “A última tragycomedyorgia”.


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É jornalista da piauí