anais do extremismo
João Batista Jr. Jul 2023 18h53
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Pouco depois das sete da noite do dia 20 de outubro de 2017, Wagner Miranda Schwartz foi até o banheiro e começou a construir seu disfarce. Diante do espelho, o homem de 1,86 metro, olhos verdes e fala suave colocou um bigode preto falso, ajustou os óculos e finalizou com um boné. Depois, ligou para um taxista conhecido, que o levou até o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, acompanhado da amiga e produtora Gabi Gonçalves.
Ao fazer o check-in do voo 8108 da Latam, com destino a Paris, Schwartz conseguiu um assento na classe econômica, perto da saída de emergência, o que lhe permitia ficar um pouco afastado dos demais passageiros. Na entrada do embarque internacional, ele e Gonçalves se despediram com um abraço silencioso – e pela primeira vez depois de muito tempo Schwartz se viu sozinho. Enquanto esperava pela chamada do voo previsto para decolar às 22h35, ele passou o tempo olhando o celular, o que tinha dupla serventia: evitar o contato visual com as pessoas e manter informados os amigos e familiares, todos muito preocupados com aquela viagem.
Durante o voo de onze horas, Schwartz não tirou o disfarce, nem conseguiu pregar o olho. Ao desembarcar em Paris, na manhã de 21 de outubro, sua primeira atitude foi avisar aos amigos no Brasil que tudo tinha dado certo: ele chegara são e salvo, sem ser reconhecido por ninguém. “Depois de tirar o disfarce em casa, em Paris, tomei cinco comprimidos de melatonina para apagar. Eu estava tristíssimo”, diz o artista. “Não queria ter saído dessa forma e com tanto medo do país onde nasci.”
Quem pesquisa pelo nome de Wagner Schwartz no Google encontra mais de 35,5 mil citações, algumas delas associadas aos termos “preso” e “morto”. Em 2017, o bailarino foi alvo de ataques furiosos por causa da performance La Bête (o bicho, em francês), feita por ele no Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo. Durante a apresentação, em 26 de setembro, Schwartz, que ficava totalmente nu, foi filmado ao lado de uma criança e da mãe dela. As imagens circularam pela internet e, imediatamente, o artista começou a ser violentamente atacado pela milícia digital bolsonarista e outros extremistas de direita, por líderes religiosos e políticos oportunistas de olho nas eleições de 2018.
“Se aquele vagabundo fosse fazer aquela exposição lá no Goiás, ele ia levar uma taca que ele nunca mais queria ser artista e, outra, que ele nunca iria tomar banho pelado”, disse, referindo-se a Schwartz, o então deputado federal Laerte Bessa (PL-DF), no plenário da Câmara. “Bando de traidores da moral e da família brasileira”, afirmou o então deputado federal João Rodrigues (PSD-SC), atual prefeito de Chapecó, também no plenário. “Isso não é arte, isso é um incentivo ao abuso infantil, à pedofilia”, publicou em suas redes o vereador paulista Fernando Holiday (à época no DEM, agora no PL), do grupo radical de direita Movimento Brasil Livre (MBL). “Em respeito à família e à inocência de nossas crianças, só tenho uma coisa a dizer a esse tipo de gente: canalhas, mil vezes canalhas. A hora de vocês está chegando”, disse em vídeo postado no Facebook o então deputado federal Jair Bolsonaro (na época pelo PSC-RJ), que no ano seguinte lançaria sua candidatura à Presidência da República.
No anonimato das redes sociais, centenas de pessoas fizeram ameaças ainda mais contundentes a Schwartz – que acabaram atingindo também a família da criança filmada ao lado do artista. Alguns exemplos: “Se ao menos eu pudesse enfiar uma vara de ferro aquecida a 850 graus no rabo dessa mãe e do artista, outros pervertidos pensariam cinco vezes antes de irem a público fazer asneira”; “seu animal, doente, porco. Pedofilia é crime e vc vai pagar. Tomara, com a vida”; “pode zombar da sociedade. Quando te pegarem vão fazer arte com o teu cu e com tua família. CANALHA”. Um homem postou no Facebook a imagem de um taco de beisebol enrolado em um arame farpado, com a seguinte legenda: “Vagabundo… #gotrump #bolsonaro. Se um dia chegar perto de meus filhos.”
Wagner Schwartz nasceu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, há 50 anos, e mora em Paris desde 2010. Em 15 de agosto de 2017, ele desembarcou no Brasil para uma temporada de apresentações de La Bête em Salvador, Campinas e São Paulo. O MAM-SP mostrava naquele ano o 35º Panorama da Arte Brasileira, cujo tema era “Brasil por multiplicação”, com obras de 25 artistas e coletivos. Para apresentações na abertura, o curador da mostra, o professor de filosofia e crítico Luiz Camillo Osorio, havia convidado Schwartz e o bailarino piauiense Marcelo Evelin.
La Bête foi criada em 2005, em Paris, onde Schwartz viveu por um curto período, morando em um minúsculo apartamento. Sua inspiração foram as esculturas da série Bichos, de Lygia Clark (1920-88), feitas nos anos 1960, e que, apesar de construídas com placas metálicas e dobradiças, foram caracterizadas pela artista como “organismo vivo”, pois permitem que o espectador as dobre e redobre, criando novas formas. “Na relação que se estabelece entre você e o Bicho, não há passividade nem sua nem dele”, disse Lygia Clark.
A performance de 50 minutos começa com o artista manipulando uma réplica de plástico em tom magenta de uma escultura de Lygia Clark. Em seguida, Schwartz encarna um “bicho”, deixando que a plateia toque e manipule seu corpo nu, como faria com a escultura. A interação faz parte da ação.
Para a apresentação em 26 de setembro de 2017, terça-feira, foi colocado na bilheteria do MAM um totem com o aviso: “Contém nudez”. Na entrada do museu constava um segundo aviso, em português (e inglês): “Esta exposição contém nudez.” Cerca de trezentas pessoas, de diversas idades, assistiram à performance naquela noite – e muitas delas aderiram à interação, tocando, manipulando e remodelando Schwartz.
Enquanto se apresentava, o artista viu passar no local uma amiga, a coreógrafa Elisabete Finger, com o marido e a filha do casal, de 4 anos. “Na hora, eu pensei: ‘A Bete tá aqui, vou marcar um jantar com ela, estou com saudades.’” Finger sabia do conteúdo da apresentação e não viu nenhum problema em levar sua filha para assisti-la. Em dado momento, a criança, por conta própria, começou a manusear a escultura de plástico e, depois, tocou o corpo do artista deitado sem roupa de barriga para cima. Primeiro, a garota pegou em um dos dedos da mão esquerda de Schwartz e depois no pé e no tornozelo esquerdos. Do outro lado do corpo do artista, Finger acompanhava os movimentos da filha. As duas aparecem perto de Schwartz por cerca de 1 minuto, mas a interação física com ele dura aproximadamente 10 segundos.
“Eu saí bem da performance, estava feliz, mas um pouco frustrado porque havia muito barulho no espaço”, recorda Schwartz. No camarim, Luiz Camillo Osorio, o curador, parabenizou o artista e ressaltou que o ponto alto havia sido a sutileza e delicadeza da criança interagindo com o bicho-homem. Schwartz contou a Osorio que, numa apresentação anterior de La Bête, no Instituto Goethe de Salvador, quatro crianças de cerca de 10 anos fizeram uma espécie de origami com o seu corpo por mais de 20 minutos.
Encerradas as atividades no MAM, um grupo de artistas foi comemorar em um bar. Schwartz e Finger combinaram de se encontrar dois dias depois, 28 de setembro, quinta-feira, para assistir a um espetáculo da mostra de dança Outros Curitibanos, que ocorria em São Paulo.
O casal de editores Patrícia Rodrigues Cividanes e Ruy Saraiva da Silva Filho, da revista eletrônica Antro Positivo, especializada na programação de teatro, também foi ao MAM para a abertura do 35º Panorama. Na mesma noite, eles publicaram um vídeo de 2 minutos da performance de Schwartz no perfil da revista no Instagram. Por conter nudez, a postagem logo foi derrubada pela rede social. Mas o tempo em que ficou no ar bastou para que o vídeo fosse copiado e viralizasse na internet.
“Bete, tá tudo bem com o seu marido?”, perguntou Schwartz, ao perceber o nervosismo do companheiro da amiga, falando ao celular, depois de os três assistirem ao espetáculo da mostra Outros Curitibanos. Finger explicou o que estava acontecendo: “Wagner, colocaram o nosso vídeo em um perfil do Facebook de direita e estamos sendo atacados.” Sem ter a mínima noção do pesadelo que estava se formando, ele apenas disse à amiga: “Nossa, que coisa chata, se precisar de ajuda eu estou aqui.” Depois, se despediu e foi encontrar alguns amigos na Casa do Povo, um centro cultural no bairro paulistano do Bom Retiro.
Ao entrar no táxi, por volta das 21h30, acionou o celular e levou um susto: havia centenas de notificações no Messenger. “As mensagens não paravam de subir, com pessoas me chamando de pedófilo, pedófilo, pedófilo, e dizendo que iriam me matar.” A pressão arterial dele caiu. O taxista percebeu algo estranho com o passageiro e perguntou se estava tudo bem. “Não, não estava”, conta Schwartz. “Mas como explicar a um estranho que eu era acusado de cometer o mais abjeto dos crimes? E se ele fosse uma das pessoas que estavam pedindo a minha cabeça na internet?” O artista chegou catatônico à Casa do Povo e não ficou mais do que 15 minutos no local. Tomou outro táxi e foi para a casa da amiga onde estava hospedado.
Naquela quinta-feira, dia 28, o MBL, então muito empenhado em estimular os sentimentos mais reacionários dos brasileiros, havia replicado em seu perfil no Facebook, às 19h38, uma postagem do site Jornalivre cujo título era: “EXCLUSIVO: Museu de Arte Moderna de São Paulo faz evento com erotização infantil e gera revolta.” A postagem do MBL, apresentada com a palavra “ABSURDO!”, teve 24 mil reações, 10 mil compartilhamentos e 6,5 mil comentários. Às 19h40, foi postada uma foto da menina e sua mãe ao lado de Schwartz nu, acompanhado da legenda: “Qual vai ser a desculpa dessa vez?” A postagem teve 10 mil reações, 3,4 mil compartilhamentos e 3,2 mil comentários. Seguiram-se outras postagens do MBL, de conteúdo similar, às 20h44, às 22h39 e às 23h22, esta acompanhada de um texto do Jornalivre intitulado “INACEITÁVEL: mais uma ‘mostra artística’ com erotização infantil financiada com dinheiro público”. Foi o primeiro ato do massacre digital que Schwartz iria sofrer.
A insistência com que o caso vinha sendo tratado pelos sites de direita e extrema direita fez com que a história da performance logo chegasse à imprensa profissional. Na mesma quinta-feira, às 22h18, o site da revista Veja publicou uma matéria sobre o assunto com o seguinte título: Em Performance no MAM, Criança Interage com Homem Nu. Na sexta, às 9h22, o site da revista Exame repercutiu o assunto: MBL Acusa o MAM de Erotização Infantil em Performance.
Para ganhar engajamento e aquecer o clima de guerra ideológica, os principais líderes do MBL fizeram vídeos ao longo da sexta-feira. Fernando Holiday prometeu denunciar o caso a órgãos internacionais. Kim Kataguiri disse se tratar de um atentado contra os valores da família. Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, acusou os artistas de esquerda de “mamar na teta” do governo.
“Eu estava em casa quando o Luciano Ayan mandou o conteúdo da performance no MAM, e redigi a matéria”, conta por telefone o editor do Jornalivre na época, Roger Roberto Dias André, de 33 anos, um catarinense formado em contabilidade. Luciano Ayan – pseudônimo de Carlos Augusto de Moraes Afonso – é o criador do site. Dias André, conhecido como Roger Scar, conta que o projeto do Jornalivre era fazer um “contraponto” ao portal Brasil 247 e ao site político Diário do Centro do Mundo, ambos de esquerda.
Na prática, desde a sua criação em 2016, o Jornalivre funcionava como uma base de produção de textos úteis à política do MBL, que compartilhava seus links com frequência. Algumas pautas eram sugeridas diretamente por Renan Santos, fundador do MBL. Em termos ideológicos, o site operava como uma máquina de propaganda reacionária e preconceituosa, difundindo notícias falsas e enviesadas. “A ideia era dar um ar de jornalismo profissional para as pautas que eles queriam passar”, afirma Dias André. Ele ganhava 700 reais como redator, passou a receber 2 mil reais quando virou editor, e nas eleições de 2018 achou que a direita poderia ser uma boa alternativa para o Brasil. “Eu tinha para mim que havia uma janela de oportunidade para melhorar o país em alguns aspectos. Eu via o Bolsonaro como um grande problema, mas também não queria o retorno do PT.” Por propagar mentiras e discurso de ódio, o perfil do Jornalivre no Facebook foi suspenso em junho de 2018.
No fim de 2017, Dias André rompeu com Ayan, depois de descobrir que o Jornalivre parasitava computadores e celulares de seus leitores para gerar criptomoedas, num processo chamado de “mineração”. Em junho de 2019, durante a CPMI das Fake News, Dias André enviou uma carta para alguns parlamentares. “Logo no início achei suspeito o fato de Luciano [Ayan] me pedir tantas matérias que tratavam de pautas do interesse do MBL. Segundo ele, tínhamos firmado uma parceria com o Movimento Brasil Livre, através da qual nós faríamos algumas matérias para agradá-los enquanto eles compartilhariam nosso conteúdo”, escreveu.
Ayan confirmou a parceria com o MBL, cujos integrantes, além de sugerir pautas ao Jornalivre, tinham a senha de acesso ao site. A ligação era não apenas ideológica, mas também financeira. Em conversa com a piauí, Ayan detalhou o negócio. “Eu pagava 20% do lucro do site para o MBL por eles compartilharem nossos links no Facebook deles, pois isso aumentava a nossa visualização.” Durante os dois anos de operação do Jornalivre, Ayan calcula ter lucrado menos de 100 mil reais. Hoje, ele mora em Presidente Prudente, em São Paulo, e atua como consultor de TI.
Ayan não se recorda quem lhe enviou, por WhatsApp, o vídeo com a performance de Schwartz, mas disse que logo orientou sua equipe a escrever um texto a respeito. O título saiu de sua cabeça. “Eu usava termos emocionais, sim. Vejo isso como lamentável”, diz. Sobre ter colaborado em difundir fake news e distorcer os fatos, como no episódio com Schwartz, ele faz um mea-culpa: “Não deveria ter feito esse sensacionalismo. Acabei contribuindo para um lado ruim.” Ayan também foi responsável por uma escandalosa calúnia no site Ceticismo Político, outra usina de fake news criada por ele: logo após o assassinato de Marielle Franco, em 14 de março de 2018, publicou que a vereadora carioca tinha ligação com o crime organizado.
Em 2020, Ayan foi alvo de uma operação da Polícia Federal por lavagem de dinheiro – o que ele negou ter praticado. Já sobre a mineração de criptomoedas, confirma que seu site usou dados de usuários sem informá-los. Diz ter rompido com o MBL e com a direita antes mesmo das eleições de 2018 – e que votou em Lula em 2022. “O ser humano precisa se recuperar desse ambiente de psicopolítica, que gera exaustão e desconexão da realidade, além de muita ansiedade. Quando saí da direita, em setembro de 2018, fui estudar o pós-modernismo. Gosto muitos dos filmes europeus de transgressão, como os do Pasolini.” Ele gosta, inclusive, de Salò ou os 120 Dias de Sodoma, em que o diretor italiano denuncia as perversões sexuais e escatológicas do fascismo.
O poder do MBL de mobilizar uma parcela da opinião pública e inflamá-la com sua ideologia está muito debilitado atualmente. “Não tinha como o MBL se consolidar [no cenário político], afinal eles são agitadores que se propõem a atacar o outro. E mais nada. Não são um grupo político sólido”, diz a socióloga Esther Solano, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutora em ciências sociais pela Universidade Complutense de Madri. A piauí procurou o MBL, mas o grupo não quis se manifestar sobre o tema desta reportagem.
“Na sexta de manhã, eu tive uma sensação fúnebre. Parecia que estava velando o meu próprio corpo”, diz Schwartz. O velório, no caso, ocorria em seu perfil no Facebook, onde ele era atacado com virulência. “As pessoas não tinham a menor cerimônia em dizer que iriam me dar um tiro na testa.” De início, muitos amigos e colegas de trabalho saíram em defesa de Schwartz. “Era como se fossem condolências típicas dos velórios.” Os ataques, porém, logo alcançaram esses mesmos amigos, e eles precisaram fechar as suas redes sociais.
Em meio à guerra digital, o MAM emitiu uma nota didática sobre a performance La Bête: “O trabalho não tem conteúdo erótico ou erotizante e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, sobre a manipulação de objetos articuláveis. As acusações de inadequação são descabidas e guardam conexão com a cultura de ódio e intimidação à liberdade de expressão que rapidamente se espalha pelo país e nas redes sociais.”
A nota teve pouco efeito. Na mesma sexta-feira, dia 29, o delegado Sérgio Luis da Silva Alves, da 4ª Delegacia de Repressão à Pedofilia de São Paulo, mandou instaurar um inquérito policial e enviou uma diligência ao MAM para “apurar eventual transgressão do Estatuto da Criança e do Adolescente”, conforme escreveu em seu despacho. Com isso, Schwartz passou a ser investigado por suposta colaboração na produção e direção de “cena pornográfica” envolvendo menor de idade – e foi convocado a depor. Ainda na sexta, uma equipe da Polícia Civil fez uma inspeção dentro do MAM. “Uma comoção social se iniciou nas redes sociais, o que culminou em nossa diligência no local”, escreveu o investigador-chefe Paulo José Zanatta, em seu laudo de três páginas. Depois, afirmou, categórico: “A exposição em nada menciona sexualidade infantil tampouco exibe fotos de crianças em estado vexatório.”
Mas o círculo infernal estava formado. Dezenas de manifestantes, alguns usando camiseta verde-amarela, foram à porta do museu para protestar com megafones e cartazes com frases como “Estão erotizando os teus filhos!!!” e “Insanos governam enquanto covardes toleram”. O ex-apresentador e ator Alexandre Frota, que já havia atuado em filmes pornográficos e aderira na época à campanha bolsonarista, foi até o MAM para fazer uma live. Enrolado na bandeira do Brasil, ele invadiu o museu, que estava com a porta fechada, e transmitiu tudo por seu perfil do Facebook. “Se esse homem estivesse nu aqui hoje, eu ia ‘levantar ele’”, afirmou, se referindo a Schwartz. No ano seguinte, Frota elegeu-se deputado federal pelo extinto PSL, então partido de Bolsonaro. Hoje, está rompido com a extrema direita. Em 2022, disse que votou em Lula.
Também no dia 29, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), entidade apoiada pela futura ministra Damares Alves, entrou com um pedido de investigação. O texto assinado pelo pastor e presidente da entidade, Uziel Santana, dizia: “A apresentação em comento não apenas expõe, mas torna os infantes protagonistas da apresentação, com conteúdo erótico e abusivo, devido à exploração da nudez de terceiro estranho.” Na sua nota, já havia uma pluralidade de crianças – “os infantes” – agindo como protagonistas da performance.
Em 30 de setembro, circulou pelo Twitter e o Facebook a notícia veiculada por um site chamado Notícias O Dia (que já não existe) de que Schwartz tinha sido morto a pauladas em São Paulo. A imagem do corpo ensanguentado era de um assassinato ocorrido em Altônia, no Paraná, em março do ano anterior. O portal g1 e o site da Veja desmentiram o assunto. No dia 2 de outubro, outro site, o Polêmica Paraíba, publicou que o deputado e pastor Marco Feliciano (PL-SP) pedira a prisão de Schwartz, que já estaria em cana. O link segue até hoje no ar. Procurado pela piauí, o Polêmica Paraíba não deu retorno.
No mesmo dia 2 de outubro, a advogada e policial civil paulistana Daniela Cristina Miguel Bruzarrosco entrou com uma notícia-crime contra a performance. Ela justificou assim o seu pedido: “No vídeo, é notório que a criança está constrangida, com medo, e até toca o coreógrafo tentando manter-se o mais distante possível, contudo é chamada a retornar próximo ao coreógrafo e tocar seus pés e perna […]. Verifica-se a violência contra a criança, que tenta se desvencilhar dessa cilada pedófila.” Bruzarrosco tentou se eleger deputada estadual em 2018 pelo PSL (teve 5.507 votos), e vereadora por São Paulo em 2020 pelo PL (493 votos). Procurada pela piauí, ela chegou a combinar uma entrevista, mas depois desistiu.
Ainda no dia 2, a Frente Parlamentar Evangélica da Assembleia Legislativa de São Paulo também apresentou uma notícia-crime, dizendo: “O fato aqui abordado, de exposição da criança à nudez exibicionista de adulto, enquadra-se de maneira cristalina no conceito desta patologia denominada pedofilia.” O texto é de autoria de doze deputados, entre eles o paulista Coronel Telhada (à época PSDB), cuja carreira na Rota foi marcada por inúmeras investigações sobre execuções sumárias – ele próprio afirma ter matado mais de trinta pessoas. (Neste ano, Telhada, eleito anteriormente como deputado estadual pelo PP, assumiu como deputado federal na vaga do Delegado Bruno Lima, indicado para o cargo de secretário de Inovação e Tecnologia da cidade de São Paulo.)
As notícias-crime não pararam. O primeiro político a entrar com um pedido assim foi o então deputado federal Major Olímpio (à época Solidariedade-SP), integrante da chamada bancada da bala. Em seu pedido de abertura de investigação, ele qualificou a performance como “uma atividade criminosa, sob o falso pretexto de ‘liberdade de expressão’, que reiteradamente tem sido usada para a prática dos mais diversos e repugnantes atos, que põe em risco toda uma sociedade”. Em 2018, Olímpio foi eleito senador. Morreu de Covid em março de 2021. Surgiram ainda notícias-crime em várias cidades, entre elas Anápolis (GO), Niterói e Nova Friburgo (RJ). Todas foram remetidas para a 4ª Delegacia de Repressão à Pedofilia, em São Paulo, onde a investigação tinha sido instaurada.
João Doria (PSDB), que estava de olho no governo de São Paulo e logo pularia na locomotiva bolsonarista, resolveu embarcar na campanha. Classificou a performance como “uma cena libidinosa, que estimula uma relação artificial, condenada e absolutamente imprópria”. O então senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), que ambicionava o governo de Goiás, também arregaçou as mangas: “Isso não tem nada a ver com arte. Isso é crime.” Ambos foram eleitos. Caiado continua cerrando fileiras ao lado dos bolsonaristas, mas Doria não demorou a cair fora. Alexandre Frota, Kim Kataguiri (União-SP), Marco Feliciano e Laerte Bessa – aquele que prometeu uma “taca” no artista – também foram eleitos deputados federais. Nenhum deles quis rememorar o assunto em entrevista à piauí.
Em 4 de outubro, outra notícia da “morte” do artista circulou na internet: “Ator Wagner Schwartz comete suicídio se jogando de prédio em São Paulo.” A fake news veiculada pelo site Saúde e Vida e Família, hoje desativado, dizia que, “de acordo com informações da polícia, ele se jogou do apartamento de um amigo, no Edifício Martinelli, no Centro de São Paulo”.
Schwartz foi ouvido na 4ª Delegacia, no Centro de São Paulo, no dia 3 de outubro, quarta-feira. “Encarei aquele momento também como uma performance, até para não pirar. Mas por dentro estava muito nervoso”, lembra. O gelo foi quebrado pelo delegado Silva Alves logo no começo da oitiva, que duraria mais de duas horas. “De arte eu não entendo, mas de pedofilia, sim. Eu sei que esse não é o caso”, disse o delegado. “Pedofilia é um crime que não acontece com testemunhas, ali no MAM tinha centenas delas.” O artista sentiu um peso cair de suas costas.
No dia seguinte, foi a vez de Elisabete Finger depor. Ela afirmou saber do conteúdo da performance e que em nenhum momento sua filha foi exposta a situação vexatória por ter visto a apresentação e interagido com o artista. Patrícia Rodrigues Cividanes, que fez o vídeo que viralizou, prestou depoimento no dia 14 de novembro. Ela explicou qual era o seu trabalho como dona de um site sobre os eventos artísticos e disse que decidiu filmar a interação da mãe e da filha com Schwartz porque achou a cena bonita e sem nenhum apelo sexual.
Schwartz retornou à 4ª Delegacia em 6 de outubro. Mas não mais no papel de investigado, mas no de vítima. Ele havia aberto um boletim de ocorrência das ameaças recebidas via Facebook. A advogada Natasha do Lago, do escritório Ráo & Lago Advogados, contratado pelo MAM, selecionou para o processo apenas as ameaças diretas. “Não tinha como selecionar tudo, o volume era muito grande, e os ataques não paravam de chegar”, recorda ela, em seu escritório em São Paulo. Foram passados para a polícia os endereços eletrônicos de 56 pessoas.
Quatro dias depois, Cesar Camargo, delegado da Divisão de Proteção à Pessoa, pediu ao Facebook as identidades dos donos de todos esses perfis. Com os dados em mãos, enviou às operadoras telefônicas pedidos de informação dos números de celulares cadastrados nos perfis no Facebook. Cartas precatórias intimando os autores das ameaças a Schwartz foram expedidas para cidades de diversos estados, como Bahia, Ceará, Pará, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. Um vigilante chamado Rodrigo da Silva Lemos, que mora na capital paulista, prestou depoimento presencial no dia 8 de maio de 2019. Ele confirmou ter enviado a seguinte mensagem a Schwartz: “Filho da puta. Lixo. Você tem que morrer, pedófilo.” À polícia, justificou se tratar “apenas de um desabafo” e que não tinha “a intenção de atingir moral ou fisicamente” o artista.
No dia 28 de agosto de 2020, a promotoria remeteu o pedido de arquivamento do caso, que foi acatado pela justiça. Nenhuma pessoa que manifestou o desejo de espancar ou matar Schwartz virou ré. O promotor Clever Rodolfo Carvalho Vasconcelos enviou à 1ª Vara Criminal do Foro Regional do Jabaquara o pedido de encerramento do caso, que diz o seguinte: “Verifico que os fatos aqui apurados não passam de desentendimento entre as partes por questões de somenos importância, que não é suficiente para dar início a uma ação penal. […] Não resta configurado o crime quando a ameaça traduz mera ‘bravata’ ou é feita em um momento de cólera.”
Foi grande a movimentação política para transformar o caso em chamariz de votos dos eleitores de direita. Em outubro de 2017, Schwartz foi convocado pelo senador e pastor Magno Malta (ex-PST, hoje PL), que à época presidia a CPI dos Maus-Tratos, dedicada a investigar abusos cometidos contra crianças e adolescentes. A convocatória foi endereçada ao museu, e não ao artista. “A possibilidade de ser convocado para a CPI me deixava doente”, conta Schwartz. A sua ausência fez com que Malta falasse na possibilidade de se fazer uma condução coercitiva. Os advogados do artista então conseguiram um habeas corpus no STF. Prevista para encerrar no fim de 2017, a CPI se estendeu até o ano seguinte, apenas para coincidir com o período eleitoral.
Elisabete Finger não teve a mesma sorte do amigo. Malta foi de Brasília a São Paulo para fazer a oitiva com a mulher que ficou conhecida como a “mãe do MAM”. O encontro se deu no dia 24 de outubro, na sede do Ministério Público de São Paulo. Ela permaneceu em silêncio, o que não impediu o senador de fazer seu proselitismo digital. No mesmo dia do encontro, Malta postou vídeos da audiência em seu perfil do Facebook para 2 milhões de seguidores. Na legenda, o senador informou que Finger tinha direito de se manter em silêncio, e escreveu: “Mas ouviu muito, inclusive as leis que burlou do Estatuto da Criança e do Adolescente.” (Magno Malta não conseguiu se reeleger senador em 2018 pelo PL do Espírito Santo. Perdeu para Fabiano Contarato, homossexual assumido, eleito pela Rede e hoje no PT, e Marcos do Val, eleito pelo PPS e hoje integrante do Podemos. Mas foi eleito senador pelo PL nas eleições de 2022.) Finger, que hoje vive em Berlim com sua família, não quis falar com a piauí.
Naqueles dias, o curador Luiz Camillo Osorio recebeu uma ligação dos advogados do MAM dizendo que ele poderia ser conduzido coercitivamente a Brasília para prestar depoimento à CPI. Como Osorio mora no Rio e a convocação da CPI foi enviada para o MAM em São Paulo, o documento acabou ficando sem resposta de sua parte. Atônito, Osorio escutou as orientações dadas pela equipe jurídica: ele deveria informar à PUC-Rio, onde é diretor do Departamento de Filosofia, e à portaria de seu prédio sobre a possibilidade de a polícia bater ali para levá-lo. “Então aconteceu um dos episódios mais surreais”, ele conta à piauí, no ateliê do artista Júlio Villani, em Paris, cidade onde está fazendo uma pesquisa para seu pós-doutorado. Quando desceu à portaria do seu edifício, seguindo o conselho dos advogados, Osorio explicou o caso da performance ao porteiro. “E o porteiro me disse: ‘Sei dessa história, minha filha leu na internet que mataram ele’”, conta Osorio. “Eu então falei que o Wagner não tinha morrido e que, se a polícia chegasse, era para me avisar.” Ali, o curador se deu conta da proporção que o caso tinha tomado. “Percebi que a capacidade de apropriação e violência é infinita, e que o discurso destruidor é construído muito facilmente. Toda a exposição no MAM, que contava com várias obras e artistas, virou uma performance em que um artista nu é tocado por crianças.”
Quando foi à PUC-Rio, Osorio passou o tempo todo da aula olhando pela janela e a porta, com a sensação de que seria levado pela PF a qualquer momento. Por fim, descobriu que o trâmite seria mais civilizado: a Secretaria Legislativa do Senado havia ligado para combinar a sua ida à CPI. Osorio prestou depoimento em Brasília no dia 23 de novembro. Explicou sobre o seu trabalho (foi diretor do MAM do Rio e curador do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza, em 2015, entre outras atividades) e sobre a performance La Bête. “A nudez dessa performance não tem nenhuma conotação sexual, muito menos pornográfica”, disse aos parlamentares. Ao voltar ao Rio, ficou três dias de cama, com 39 graus de febre.
No mesmo dia em que ouviu Osorio, a CPI escutou o curador Gaudêncio Fidelis, responsável pela exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, que reunia 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBTQIA+, questões de gênero e diversidade sexual, inaugurada em agosto de 2017 no Santander Cultural, em Porto Alegre. As obras eram assinadas por artistas como Adriana Varejão, Candido Portinari, Leonilson e Lygia Clark, entre outros. Prevista para ficar em cartaz do dia 15 de agosto ao dia 8 de outubro de 2017, também foi alvo de uma campanha difamatória do MBL, que relacionou a exposição a práticas de pedofilia, zoofilia e vilipêndio religioso.
O MBL andava particularmente ativo: convocou sua milícia digital para boicotar o Santander. O banco mandou fechar a exposição no dia 10 de setembro e ainda pediu desculpas: “Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.” Durante uma entrevista ao programa TV Verdade, da filial do SBT em Minas Gerais, Bolsonaro foi fiel ao seu estilo: disse que os responsáveis pelo evento Queermuseu deveriam “ser fuzilados”.
“Foi uma guerra midiática injusta”, afirma Fidelis, curador do Queermuseu, à piauí, em uma entrevista por videochamada. “A nossa única maneira de combater a desinformação foi dialogar para que a sociedade conseguisse entender o que estava acontecendo. O MBL e os extremistas em geral não têm limite moral. Eles se utilizam da desinformação e de fake news, usam armas diferentes das nossas.” Depois de sofrer inúmeras ameaças e precisar de escolta de policiais, o curador deixou o país em 2019. Mudou-se para Nova York, onde vive hoje com a ajuda do Institute of Internacional Education Scholar Rescue Fund, entidade que auxilia e financia acadêmicos em risco em seus países de origem. “O que aconteceu no episódio do Queermuseu foi o primeiro estágio de um processo. Hoje as ideais fundamentalistas estão disseminadas em diversos setores da sociedade, sem falar na questão da autocensura por parte de instituições culturais”, avalia.
Osorio traça um paralelo entre a performance de Schwartz e a exposição Queermuseu. “O MAM é uma instituição pública que preza pela cultura, por manifestações artísticas e liberdade de expressão. O centro cultural do Santander preza principalmente pela imagem do banco, então é mais complicado para eles se envolverem nisso. Existe uma relação maior com os correntistas do que com a produção cultural.” O recuo do Santander, que havia destinado 800 mil reais via Lei Rouanet para a exposição, acendeu o sinal vermelho no mundo artístico. Além de ser uma vitória da intolerância e do reacionarismo, o cancelamento mostrava o poder de fogo das fake news. No dia seguinte ao fechamento da mostra, Arthur do Val, o Mamãe Falei, publicou um vídeo no YouTube comemorando e atacando a “agenda autoritária da esquerda”.
Em reação ao encerramento abrupto do Queermuseu, o Parque Lage, no Rio de Janeiro, manifestou interesse em receber a exposição. Uma vaquinha online arrecadou 1,08 milhão de reais para a montagem na instituição carioca, na época dirigida por Fabio Szwarcwald. A abertura da exposição ocorreu no dia 18 de agosto de 2018 e atraiu cerca de 14 mil pessoas. O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, conseguiu que o Ministério Público do Rio de Janeiro determinasse a instalação de cartazes indicando se tratar de uma mostra para maiores de 18 anos. Dias depois, a medida foi derrubada pela Justiça.
Filho do meio de uma professora de escola primária e um vigilante de guarita da empresa Companhia Estanífera do Brasil, em Volta Redonda, Wagner Schwartz foi educado conforme as regras da 2ª Igreja Presbiteriana do Brasil de sua cidade. Cresceu indo a cultos e lendo a Bíblia. Desde muito novo, sua homossexualidade foi para ele um tormento, pois a mãe, sempre que desconfiava da inclinação do filho, fazia questão de dizer que os gays estavam destinados ao reino de Lúcifer. Aos 10 anos, o menino quebrou todos os seus discos de músicas seculares, entre eles os de Michael Jackson. Era uma forma de se sentir menos culpado. “Eu fui doutrinado a pensar que estava fadado ao Inferno, tinha uma coisa no meu corpo que eu desejava que não estivesse ali. Eu sempre me senti em um corpo errado”, conta o artista. “Após me masturbar, eu ajoelhava e pedia perdão a Deus. Também fazia jejum de 24 horas pensando que, ao fim, eu estaria curado, deixaria de ser gay, poderia viver uma nova vida e ir para o Céu.”
Aos 14 anos, ao ver o filme Amadeus, de Miloš Forman, Schwartz se apaixonou pela obra de Mozart e passou a ouvir outros tipos de músicas, diferentes de canções gospel. Sua primeira paixão, platônica, foi pelo pastor da igreja. Aos 17 anos, assistiu a uma palestra do poeta amazonense Thiago de Mello (1926-2022) sobre o amor – e teve um choque. “Fiquei deslumbrado ao ouvi-lo falar com tanta liberdade. Ao mesmo tempo, me senti miserável. Vi nele tudo o que eu não poderia ser.” Desolado, Schwartz decidiu se matar: atravessou de costas a Avenida dos Trabalhadores, no Centro de Volta Redonda. Por sorte, havia poucos carros passando no local.
Aos 20 anos, ele fez o vestibular para o curso de letras da Universidade Federal de Uberlândia, cidade para onde seu irmão mais velho se mudara. Aprovado, viveu em repúblicas de estudantes na cidade mineira e continuou frequentando a 2ª Igreja Presbiteriana do Brasil. “Eu antes fazia exatamente o que a Bíblia pedia”, diz. Schwartz também gostava de balé e dança em geral. Um dia, seu irmão lhe mostrou o anúncio de uma escola em Uberlândia, ele ficou curioso e se matriculou. Depois de um mês, foi convidado por um amigo a montar um grupo de dança de rua. A timidez começava a sair de seu corpo.
Com os dois filhos mais velhos vivendo em Uberlândia, seus pais também se mudaram para a cidade, e Schwartz voltou a morar com eles. Ainda sem força para se assumir gay, procurou uma psicóloga que frequentava a igreja. Ela o acolheu – e ele começou seu processo de aceitação. Aos 28 anos, beijou um homem pela primeira vez e passou a frequentar a Heaven, a boate mais badalada da cidade. Quando descobriu que seu filho namorava um rapaz, a mãe o questionou. “Sim, sou gay, e se eu for para o Inferno a senhora também vai por se negar a aceitar o próprio filho.” Ele fez as malas e saiu de casa no mesmo dia.
Em 2003, Schwartz começou a se firmar como bailarino de dança contemporânea e abandonou o trabalho de professor de inglês. Depois de participar com amigos de um grupo de dança, passou a atuar sozinho. Seu primeiro espetáculo solo foi Otro. “Não era ‘Outro’, na linguagem oral, muito menos no dialeto mineiro. Era Otro, nome próprio”, explica. O espetáculo se inspirava nas alterações do ritmo cardíaco, da tensão muscular e do aumento da temperatura da pele. Ele começou a se apresentar em festivais de dança de Brasília e São Paulo, e criou um grupo de dança chamado Maria do Silêncio.
A primeira aparição sem roupa em público não foi num palco, mas nos jornais. Um fotógrafo do extinto Correio de Uberlândia registrou o dançarino em uma pose igual à do estilista Yves Saint Laurent no famoso retrato de Jeanloup Sieff, em 1971, em que aparece de óculos e inteiramente nu.
Em 2003, Schwartz fez a sua primeira viagem internacional, depois que o Itaú Cultural selecionou um de seus projetos de dança. Durante um mês, apresentou-se em Lisboa e Paris, e estudou o quanto foi possível. No ano seguinte, ao mostrar o espetáculo de dança Transobjeto no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, um espectador mudou sua vida. O coreógrafo francês Rachid Ouramdane o convidou para trabalhar em Paris. Schwartz aceitou o convite e, de 2005 a 2009, viveu entre a França e o Brasil. Foi nessa época que concebeu a performance La Bête.
Depois de um relacionamento conturbado, Schwartz conheceu um arquiteto francês da sua idade. Hoje, os dois vivem juntos em um apartamento de 35 m2, com teto de vidro e uma janela enorme para o 10º arrondissement, em Paris, onde a piauí entrevistou o bailarino.
Em 2010, Schwartz enviou para toda a família um e-mail dizendo que viria ao Brasil na companhia do namorado arquiteto. Sua mãe respondeu dizendo que iria pegá-los no Aeroporto de Uberlândia. Ao encontrar o genro, a sogra o abraçou com carinho. “Anos de desentendimento e de sofrimento foram amainados em um abraço”, diz Schwartz, que pediu à piauí que não citasse nem o nome de seus parentes nem o de seu companheiro. Tem receio de que também possam ser ameaçados.
Depois do linchamento virtual iniciado no fim de setembro de 2017, Schwartz quase não saiu mais às ruas em São Paulo. Preferiu se resguardar na casa da amiga onde estava hospedado, e só deixava o apartamento para tratar de questões relacionadas às grandes ameaças que vinha sofrendo. Como seu voo para Paris estava marcado para 20 de outubro, ele pensou em antecipá-lo, mas os advogados aconselharam que não saísse do país de forma abrupta, para não parecer que estaria fugindo. No dia do embarque, temendo ser atacado no aeroporto, decidiu se disfarçar.
De volta a Paris, Schwartz participou do filme Le Genre International, de Judith Cahen e Masayasu Eguchi, do qual fazia parte também a atriz portuguesa Maria de Medeiros. Foi ela quem apresentou Schwartz a Sandra Hegedüs, mecenas e colecionadora de arte brasileira. Hegedüs, que vive em Paris desde os anos 1990 e faz parte do Conselho Consultivo Internacional da Fundação Bienal de São Paulo, criou há catorze anos a SAM Art Projects para financiar residências artísticas e projetos de artistas brasileiros na França. Ela articulou para que La Bête fosse dissociada da campanha da extrema direita brasileira e reinserida no mundo da arte. Conseguiu que o Palais de Tokyo, um dos principais espaços artísticos de Paris, incluísse a performance no festival Do Disturb.
Schwartz se apresentou por três dias seguidos, em abril de 2018, para uma plateia formada por adultos e idosos, jovens e crianças. Muitos interagiram com o artista nu. “Nós precisávamos colocar essa manifestação artística de Wagner Schwartz no lugar ao qual ela pertence”, diz Hegedüs, na sala de sua cobertura duplex no bairro Montparnasse, com obras de arte por todos os lados, de Ana Elisa Egreja a Maxwell Alexandre. “O que esses trogloditas fizeram foi intencional. Eu comparo esse tipo de gente com os nazistas.”
Em março de 2018, um mês antes da performance no Do Disturb, Schwartz resolveu enfrentar seu medo de voltar ao Brasil e aceitou apresentar a peça Domínio Público no Festival de Curitiba, a mais importante mostra de teatro do país. O espetáculo discutia questões como censura e conservadorismo. Ao desembarcar, sentiu-se feliz por retornar ao país sem disfarce, mas, como as ameaças ainda pairavam no ar, chegou a discutir com a direção do festival se deveria se apresentar com um colete à prova de balas. A ideia foi descartada, mas por precaução Schwartz fez um seguro de viagem para que, caso sofresse um atentado, pudesse ser atendido em um bom hospital particular.
No mês seguinte à vitória de Bolsonaro, em novembro de 2018, Schwartz foi convidado a lançar o seu romance Nunca Juntos mas ao Mesmo Tempo/Jamais Ensemble mais au Même Temps, em uma feira do livro de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro. Iniciado antes do linchamento virtual, o livro havia sido lançado em junho daquele ano pela Editora Nós. É uma experimentação literária, em escrita bilíngue, em torno de uma personagem feminina, Adeline.
Assim que a notícia da presença de Schwartz foi divulgada, moradores da cidade usaram o Facebook para pedir o cancelamento da visita, chamando o artista de “charlatão, sem vergonha do MAM” e “pedófilo”. A despeito da grita, a participação foi mantida, com cuidados redobrados. Schwartz chegou ao evento em um carro da Polícia Militar, responsável por sua escolta. Ao lado da mesa onde palestrou, havia um policial armado. O auditório lotou e, ao final, o bailarino – e escritor – foi aplaudido.
Depois da posse de Bolsonaro, Schwartz retornou ao Brasil para fazer alguns trabalhos: três vezes em 2019, uma vez em 2020 e outra em 2021. “Mas nunca perdi o medo de estar no Brasil. Saía sempre acompanhado e não usava transporte público”, diz. “Não queria, porém, sucumbir ao medo. O medo social acompanha a vida de um gay desde que nascemos. O medo de ir para o Inferno acompanhou minha infância e adolescência. Foi isso que, de certa forma, me preparou para lidar com o medo causado pelos haters de extrema direita. Ou você enfrenta ou morre isolado. Eu prefiro enfrentar.”
Schwartz vive atualmente com a ajuda de instituições internacionais que cuidam da proteção de artistas em situação de risco e que estão interessadas em preservar os valores democráticos nos países. Em março do ano passado, ele recebeu 24 mil dólares (cerca de 114 mil reais) da Open Society Foundations, criada pelo magnata húngaro-americano George Soros, para escrever um livro contando todo o processo pelo qual passou no Brasil com La Bête. O Artists at Risk Connection, projeto da PEN America que ajuda artistas ao redor do mundo, lhe concedeu em janeiro deste ano uma ajuda de 1,5 mil dólares (cerca de 7 mil reais) para a criação de projetos culturais. Já a PEN Belgium/Flanders, braço europeu da mesma entidade, convidou Schwartz para uma residência literária na Antuérpia entre os meses de fevereiro e junho de 2022, a fim de que terminasse o seu livro sobre o trauma brasileiro.
O livro acabou de ficar pronto. A Nudez da Cópia Imperfeita será lançado neste mês de setembro, também pela Editora Nós. É uma autoficção, que começa com o episódio do MAM e descreve os aspectos emocionais, jurídicos, políticos e psicológicos decorrentes. “A você que roubou as imagens de La Bête de uma conta pessoal no Instagram e as repostou em sua página oficial no Facebook, ofereço, como suvenir, estas memórias póstumas”, escreve Schwartz, logo no início do livro, evocando o Brás Cubas de Machado de Assis.
Schwartz foi ameaçado, mas não chegou a ser agredido fisicamente. Foi investigado, mas não foi indiciado, uma vez que o Ministério da Justiça autoriza nudez artística, científica e cultural exposta de maneira não erótica em produtos culturais – como exposição e documentário – de classificação livre. Em novembro de 2017, o MAM assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público de São Paulo para encerrar o caso na esfera civil. Ficou acertado que o museu proibirá a filmagem por espectadores de artistas que se apresentem nus no local. O MAM também precisou doar 15% do lucro do 35º Panorama da Arte Brasileira ao Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, num total de 6 561 reais. Como queria ter um bom registro em vídeo de sua apresentação no MAM, Schwartz contratou na época um cinegrafista profissional. O trabalho custou 1,5 mil reais. Ele pagou o profissional com parte da remuneração que recebeu do museu – 2,5 mil reais.
Em A Nudez da Cópia Imperfeita, ele conta que, um dia em Paris, encontrou-se com um galerista de São Paulo que queria comprar o vídeo da performance. O galerista contou que admirava o trabalho de Schwartz e era um grande fã de Lygia Clark, da qual tinha adquirido uma escultura por 1,8 milhão de dólares (cerca de 8,5 milhões de reais). O artista ficou de pensar se gostaria de vender o vídeo. Algum tempo depois, escreveu, aceitando a proposta, mas estipulou algumas condições: o vídeo deveria ser exibido ao lado da escultura de Lygia Clark comprada pelo galerista, seria preciso instalar perto um mural com reportagens falando do lançamento da escultura e da repercussão da performance no MAM, e o valor a ser pago pelo vídeo seria também 1,8 milhão de dólares. O galerista respondeu que tinha havido um “mal-entendido”, que ele não dispunha desse valor para comprar a performance, e nunca mais retomou o contato.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “La Bête contra as bestas”.