questões vultosas

A ERA DA PILHAGEM

Sob Bolsonaro, até a corrupção se tornou mais primitiva, mas o maior crime é outro
Imagem A era da pilhagem

6 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A ideia talvez seja um pouco extravagante, mas, quando olhamos para os grandes escândalos de corrupção no Brasil das últimas décadas, podemos observar certa homologia entre cada um deles e a identidade dos governos que os patrocinaram. É como se a modalidade do desfalque (comprovado ou suposto) exprimisse ou revelasse a fisionomia e a vocação histórica de cada governo e/ou governante. É claro que isso não vale como regra geral nem constitui um padrão que possa ser aplicado indiscriminadamente. Mas vejamos.

O reinado de FHC foi atormentado pela privataria – neologismo que combina privatização e pirataria, forjado até onde se sabe pelo jornalista Elio Gaspari. No governo dos intelectuais-banqueiros, ou dos intelectuais amigos de banqueiros e vice-versa, os escândalos eram sofisticados e impenetráveis, associados ao mundo fluído das finanças e das transações vaporosas, de difícil entendimento e apreensão.

Na era Lula a coisa mudou de figura. A começar pelo uso do aumentativo – mensalão, petrolão –, logo adotado por toda a imprensa como uma espécie de carimbo na testa da companheirada que estava metendo a mão, ou as mãos, como queiram – pão ou pães é questão de opiniães, dizia Riobaldo no Grande Sertão. Meter as mãos, no caso, tinha duplo sentido: o óbvio, de surrupiar, mas também o de abrir a porta do salão e se imiscuir nos ambientes da elite, que historicamente não lhes pertenciam.

Além do mais, a grande corrupção dos anos petistas se consumou em torno da Petrobras, a estatal-símbolo da soberania nacional, expressão do varguismo e da aspiração de industrialização do país. No caso dos tucanos, as oportunidades de negócios se relacionavam à venda do Estado; no caso dos petistas, elas orbitavam a abelha-rainha das estatais. O ar rarefeito da estratosfera foi substituído pelo mar profundo do pré-sal – empreiteiros no lugar de banqueiros.

Contrapontos à parte, havia entre os dois governos se não um programa comum, ao menos um horizonte comum. Uma vez recuperada a democracia, pela qual tanto Fernando Henrique como Lula se empenharam, PSDB e PT partilhavam o mesmo anseio histórico pela modernização do país, disputando, desde 1994 até 2014, a quem caberia liderá-­la. As ênfases podiam ser distintas aqui e ali, mas progredir era sinônimo de concluir a formação da nação, e isso pressupunha reparar uma dívida social secular, prover serviços essenciais à população (educação, saúde, moradia, água limpa, transporte), criar condições de desenvolvimento sustentável e garantir assim a reprodução de uma sociedade menos desigual, menos violenta, mais decente. Foi isso que implodiu na última década.

A corrupção bolsonarista traz as marcas dessa implosão. Talvez não seja nem o caso de falar em corrupção – soa muito elevado –, mas em algo anterior, mais pedestre e visceral: é de pilhagem que se trata. Regredimos de certa forma à economia do saque, a uma espécie de extrativismo primitivo e predatório, no qual a própria distinção entre o que é legal e o que é ilegal perdeu o sentido. Antes de ser corrupto, Jair Bolsonaro é um demolidor. Com ele, nem a sintaxe resiste em pé. O que o define é a delinquência. E foi exatamente isso que o levou à Presidência uma vez (escapamos do “vale a pena ver de novo” por um triz, nunca é demais lembrar, o brasileiro gosta de emoções brutais).

O tema do momento são as joias, fiquemos um pouco em sua companhia. As investigações da Polícia Federal vêm reunindo provas abundantes sobre o esquema de apropriação indevida de presentes nababescos recebidos pela Presidência da República em viagens oficiais. Presentes, é bom repetir, que por lei deveriam ser incorporados ao acervo da União. O dinheiro obtido pela venda clandestina dessas peças configuraria, segundo a Polícia Federal, um caso de “enriquecimento ilícito” da turma investigada, entre eles – e sobretudo – Bolsonaro e sua mulher, Michelle.

Em meio a tantas passagens constrangedoras e grotescas envolvendo as aventuras internacionais dos agregados dos Bolsonaro neste escândalo, acabou merecendo pouca atenção a notícia de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou uma transferência de 20 520 reais para a conta bancária de Mauro Cid em 2022. O autor do depósito, vejam só, é brasileiro, morador de Goiânia, dono de uma barraca de aparelhos eletrônicos localizada no Hiper Camelódromo OK.

Procurado pela reportagem do jornal O Globo, Heitor Garcia Cunha explicou que também é joalheiro e disse não se lembrar do motivo da transferência para o ajudante de ordens de Bolsonaro: “Eu nem conheço essa pessoa”, falou, referindo-se a Mauro Cid. “Pode ser que, em algum negócio que eu tenha feito, me passaram os dados dele para eu fazer o depósito”, desconversou.

Supondo que o rapaz tenha dito a verdade, resta a dúvida: o que Mauro Cid vendeu ao dublê de camelô e joalheiro de Goiânia pela bagatela de 20 mil reais? E quem intermediou a transação? Não bastasse o resto, o camelódromo atende pelo nome OKinterjeição dileta do vasto vocabulário de Bolsonaro, geralmente usada quando ele quer encerrar na marra uma conversa que o incomoda (quase todas as conversas o incomodam, ele fala melhor com o polegar e o indicador). Claro, tudo pode não passar de uma coincidência infeliz, mas nada indica que estamos no terreno dos negócios republicanos.

Trata-se sem dúvida de um episódio menor, mas também sugestivo o bastante para iluminar o modus operandi do governo Bolsonaro. Um governo em que o ministro do Meio Ambiente, hoje deputado federal, teve que deixar o cargo às pressas, acusado de integrar um esquema de facilitação do contrabando de madeira na Amazônia. Governo em que o ministro da Justiça guardava em casa uma minuta de golpe de Estado. Governo no qual um avião da FAB que integrava a comitiva da Presidência da República numa viagem internacional carregava a bordo 39 kg de cocaína.

Nem mencionamos o ministro da Educação que fugiu para os Estados Unidos para não ser preso por pregar o fechamento do Supremo Tribunal Federal ou aquele outro, que o sucedeu, e entrou armado no Aeroporto de Brasília, onde realizou um disparo acidental. É o mesmo que chegou a ser preso, acusado de favorecer pastores na distribuição de verbas do ministério, a mando de Bolsonaro.  Braga Netto, Augusto Heleno, Eduardo Pazuello, Daniel Silveira, Carla Zambelli – perto dessa seleção de vândalos, Mauro Cid até parece um bom rapaz.

Está claro a essa altura que Bolsonaro não pode ser confundido com uma pessoa honesta. Das rachadinhas da família, que vêm de longe, à farra das emendas do relator, que seu governo colocou em funcionamento, trata-se de uma coisa só: desviar dinheiro público em benefício próprio (ou de seus aliados, o que dá no mesmo). Corrupto, sim senhor.

Mas está claro também, ou deveria estar, que a corrupção está longe de ser o principal problema de Bolsonaro – não porque seja pequena (não conhecemos ainda sua dimensão), mas porque ele representa coisa muito pior. Mal comparando (e aqui vale o exagero), seria como condenar Hitler por roubo. A pilhagem que Bolsonaro autoriza, encarna e patrocina – e que conta com milhões de adeptos – põe em dúvida a possibilidade de ainda sermos um país, ou que tipo de país podemos ser. É este o roubo que importa.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É repórter da piauí