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Filipe Vilicic Ago 2023 11h10
6 min de leitura
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De San Diego
“Nada mais me assusta”, disse o neurocientista paulistano Alysson Muotri à sua mulher, ao voltar para a casa em San Diego, na Califórnia, em certa noite de maio de 2022. Ele havia acabado de participar em Escondido, uma cidade próxima, do ritual xamânico Voo da Águia, que incluiu o consumo de chá de ayahuasca. Sob o efeito do alucinógeno, Muotri teve a sensação de voar como um pássaro. No auge da viagem, sentiu que havia se tornado “parte do todo, da natureza”, como ele descreve à piauí. “Costumo ser cético, mas no Voo da Águia tive uma experiência espiritual.”
O ritual foi elaborado pelo curandeiro brasileiro Léo Artese, que diz que o Voo da Águia ajuda a “destruir memórias que causam dores, mágoas, feridas”. No caso de Muotri, a experiência serviu para superar alguns de seus medos – em particular, o de morrer subitamente e deixar a família desamparada. Não fosse por essa experiência, o neurocientista talvez não tivesse aceitado o convite que a Nasa lhe fez no final do ano passado: viajar até a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) para realizar experimentos nesse laboratório que orbita a Terra a 400 km de altitude.
Dois outros brasileiros já voaram acima da atmosfera: Marcos Pontes, ex-piloto da Força Aérea e hoje senador (PL-SP), em 2006, e o engenheiro Victor Hespanha, como passageiro da empresa de turismo espacial Blue Origin, em 2022. Muotri será o primeiro cientista brasileiro a realizar o feito. O foguete que o levará até a ISS deve partir entre maio e novembro de 2024.
Formado em ciências biológicas pela Unicamp, com doutorado pela USP, Muotri mudou-se para os Estados Unidos em 2002, para um pós-doutorado. Hoje é professor e pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), onde coordena 39 cientistas em um laboratório que leva seu nome.
Sua principal linha de pesquisa são experimentos com minicérebros, como são conhecidos os agregados de neurônios cultivados em laboratório que recriam redes neurais, simulando o desenvolvimento cerebral de um feto. Com a técnica é possível observar como o cérebro humano reage a diversos estímulos, a novos medicamentos e também a tratamentos contra doenças que afetam a morfologia do órgão, como o autismo e o Alzheimer.
Muotri fez parte da equipe de cientistas que, em 2016, descobriu a relação do zika vírus com casos de microcefalia. Dois anos depois, ele e seus colaboradores anunciaram estudos que inauguraram uma nova linha de pesquisa, a neuroarqueologia: com base em análises de DNA, criaram minicérebros que simulam as redes neurais dos neandertais, espécie humana extinta há 40 mil anos. “Ao comparar os minicérebros de homens modernos com os de neandertais, descobrimos, por exemplo, que os nossos se desenvolvem mais devagar”, explica. “Estamos atrás de compreender o que nos faz diferentes deles, como sermos mais sociáveis. Aí pode estar um dos segredos de nosso cérebro levar um tempo maior para amadurecer.” Suas pesquisas já foram citadas mais de 20 mil vezes em artigos de seus pares, segundo o site Google Acadêmico.
Em 2010, Muotri conseguiu utilizar técnicas de reprogramação celular para reverter alterações morfológicas em neurônios de minicérebros, achado que abriu novos horizontes para a pesquisa de tratamentos do autismo, um de seus principais temas de estudo. “Recentemente, a definição de autismo passou a abranger contextos leves, de pessoas funcionais, de uma forma que, como cientista, eu não concordo”, diz. Para ele, os casos de indivíduos que demonstram habilidade para sobreviver sozinhos, apesar de apresentarem traços como dificuldade de socialização e hiperfoco, deveriam ser chamados de “neurodivergentes”.
Em 2011, quando dava uma palestra sobre autismo em São Paulo, Muotri conheceu a ex-modelo Andrea Coimbra, mãe de Ivan, que é autista (e hoje tem 17 anos). Os dois se casaram. “Minha ambição é conseguir reverter situações graves, como a do meu filho, que não tem controle do corpo e não sobreviveria sem supervisão”, afirma o neurocientista. “Acredito que um dia possamos achar até mesmo uma cura para o autismo.”
O envolvimento de Muotri com as pesquisas espaciais teve início em 2016, quando ele leu o relato de experimentos realizados pela Nasa com astronautas que passaram longos períodos na ISS – e discordou de certas conclusões. “As pesquisas provavam que nossas células envelhecem mais rápido no espaço”, conta. “Só que a Nasa achava que era um efeito temporário, já que, algum tempo depois do retorno à Terra, as células do sangue e da pele eram repostas pelo próprio organismo. Mas eu desconfiava que, no cérebro, a consequência seria permanente.”
Na hipótese seguida por Muotri, a cada um mês em órbita, as células neurais envelhecem o equivalente a dez anos em nosso planeta. Uma das teorias com as quais trabalha relaciona esse efeito à microgravidade no Cosmo. “Há vários possíveis efeitos desse envelhecimento do cérebro no espaço, como o de astronautas terem uma chance 300% maior de desenvolver Alzheimer”, diz. “Se queremos enviar colonizadores a Marte um dia, precisamos entender como funciona esse mecanismo neural e como impedir seu envelhecimento, talvez por meio de medicamentos.”
O neurocientista hipotecou a própria casa para financiar o envio de um experimento com minicérebros para o espaço, a bordo de um foguete de uma empresa americana, em 2019. Comprovou sua hipótese – e ganhou a atenção da Nasa, que já financiou três experimentos de Muotri na ISS, realizados com auxílio de um robô criado por seu laboratório.
Alguns procedimentos mais delicados, porém, só podem ser feitos por mãos humanas. No fim do ano passado, dois astronautas visitaram Muotri na UCSD para discutir as possibilidades de avançar com a pesquisa. Concluíram que seria mais fácil treinar o neurocientista para ser astronauta do que ensinar um astronauta a operar aparelhos como o micropipetador – instrumento de alta precisão utilizado para adicionar minúsculas frações de agentes químicos nos experimentos com minicérebros.
Até o fim deste ano, Muotri deve começar um treinamento para aprimorar suas habilidades técnicas, físicas e mentais. Ele não sabe detalhes do que virá a seguir, mas já passou por testes físicos e entrevistas, com perguntas como: “Você teria algum problema em passar horas em um caixão escuro?” Também foi questionado sobre suas razões para se tornar astronauta. Sua resposta: “Para realizar meu experimento. Se tivesse de ir ao fundo do mar, me tornaria mergulhador.”
A missão por ora é exclusiva da Nasa, mas Muotri gostaria de incluir o Brasil na empreitada. Em 27 de junho, ele se reuniu com o presidente Lula e a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, para discutir o assunto. “A sugestão é criar um programa, que provisoriamente chamamos de Ciência no Espaço, com o qual o Brasil participaria não só dessa primeira missão como de outras que devo fazer com a Nasa”, explica Muotri. Ele diz que Lula deu um parecer positivo, mas a participação do Brasil ainda é incerta. Perguntado pela piauí, o ministério respondeu por e-mail: “Mantemos diálogo no sentido de elaborar um programa para viabilizar pesquisas na ISS. A realização de projetos de ciências da vida na estação espacial oferece diversas vantagens técnicas em comparação com experimentos conduzidos na Terra.”
Para efetivar o ingresso do país, o novo astronauta acredita que o governo brasileiro precisará arcar com cerca de metade dos custos (o orçamento da missão ainda está sob sigilo). Mas, com o Brasil ou sem, Muotri decola no próximo ano rumo à estação espacial. O voo terá dois pilotos e deve levar mais um ou dois cientistas. Ele torce para cavar outro lugar para seu país na viagem.