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A REVOLUCIONÁRIA DO SERTÃO

Marta sonhou – mesmo sem que lhe dessem o direito de sonhar
Imagem A revolucionária do sertão

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Dois Riachos é o nome da cidade de 10 mil habitantes onde Marta Vieira da Silva nasceu, em fevereiro de 1986. Fica no sertão de Alagoas – e o sertanejo, como se sabe desde Euclides da Cunha, é, antes de tudo, um forte. A infância de Marta não escapou de ser mais uma platitude num país capitalista e patriarcal, incapaz de alimentar, empregar e acolher todos os seus. Família de quatro filhos abandonados pelo pai. Mãe trabalhadora que contou com a ajuda da prole para colocar comida na mesa – modo de dizer, porque não cabia mesa na casa de 10 m2 que abrigava cinco.

Marta carroçou muito nas ruas de Dois Riachos. Carroçar é verbo inventado pela necessidade e bastante usado no sertão alagoano onde crianças, para colaborar com o sustento da família, levam e trazem as mais variadas mercadorias em carrinhos de mão. O que ganhava carroçando, Marta entregava à mãe. Tinha dias que pedia para limpar o caminhão de feijão recém-chegado à feira porque pegava uns restos de grãos que caíam durante a retirada da carga e, depois, corria com o alimento para casa. Ela também vendia roupas e sacolés, além de lavar pratos em residências de famílias amigas.

Nos intervalos da labuta, Marta ia até um campinho de areia que ficava justamente entre os dois riachos que dão nome à cidade. Ali, jogava bola com os meninos. Vendo a garota em ação, Dois Riachos se dividia. Uns diziam: “Deixa ela.” Outros reagiam: “Deixa nada, que pouca vergonha esse negócio de fêmea-macho.” Testemunhas das muitas ofensas dirigidas a Marta, a mãe e o irmão mais velho se desesperavam. Um dia, o primogênito correu atrás da menina para lhe dar uma lição e obrigá-la a esquecer essa besteira de jogar bola. Não conseguiu alcançá-la pelas ruas de Dois Riachos.

Na cidade vizinha, Santana do Ipanema, Marta teve a oportunidade de disputar o campeonato infantil de futsal da Associação Atlética Banco do Brasil. O técnico Luiz Euclides, o Tota, permitiu que ela atuasse entre os garotos, já que não havia equipe feminina. Deu tudo certo até Marta começar a driblar geral, inclusive metendo a bola no meio das pernas da rapaziada. Não podia. Mulher não deve fazer isso com a masculinidade alheia. Os companheiros de time chamaram o técnico para avisar que iam dar uma surra na menina se a folgada continuasse com as humilhações durante os treinos. Ela foi convidada a se retirar.

Marta voltou a Dois Riachos e carroçou com mais ódio. Juntou dinheiro até conseguir pagar a passagem de ônibus para fazer um teste no Rio de Janeiro, arranjado por Tota. Com 14 anos, viajou sozinha e encarou a peneira do time feminino do Vasco. No primeiro chute, acertou o rosto da goleira que, desmaiada, entrou no gol com bola e tudo. De onde vinha tamanha força? O que se sabe é que vinha, e vinha apesar da fome. Da precariedade. Da injustiça.

A garota permaneceu no Vasco por três anos. Depois, o clube a emprestou ao Santa Cruz, de Minas Gerais, até vendê-­la para uma equipe sueca, o Umeå IK. Lá a atacante brilhou durante cinco temporadas e acabou despertando o interesse do Los Angeles Sol, que a contratou em 2009. Ela ingressou, então, na Liga Nacional de Futebol Feminino dos Estados Unidos, uma das mais organizadas e competitivas do mundo. Hoje, defende o Orlando Pride, outro time americano.

Seis vezes eleita a melhor jogadora do planeta. Campeã da Copa Libertadores da América em 2009, quando passou rapidamente pelo Santos. Medalha de prata na Olimpíada de Atenas (2004) e de Pequim (2008). Sapatão orgulhosa. Cidadã do mundo: de Estocolmo, Orlando, Tel Aviv, Parintins, Marrakesh e qualquer outro lugar onde haja um campinho de terra batida e crianças brinquem de correr atrás de uma bola.

Vladimir Safatle, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, diz que um acontecimento não pode ser medido pelo seu resultado imediato e, sim, pela abertura que produz. Na Copa do Mundo Feminina 2023, que terminou em agosto com vitória da Espanha, Marta se despediu da Seleção Brasileira. Ao longo de 21 anos, ela vestiu a amarelinha em 183 jogos e marcou 119 gols, tornando-se a maior artilheira do Brasil entre homens e mulheres. Superou, inclusive, Pelé, Ronaldo e Zico. Jogou seis copas, mas nunca levantou a taça da Copa do Mundo. Pior para a taça. A estrela de Dois Riachos produziu aberturas infinitas para novos universos e inscreveu na nossa sociedade a maior riqueza de todas: a chance de desejar.

Marta fez o que fez sem que lhe dessem o direito de sonhar. Fez por birra, raiva, pirraça e paixão. Mandou às favas a feminilidade subserviente e ensinou que jogar futebol é um direito de todas. Ela não deveria ter sido, mas foi. Nesse sistema de castas chamado Brasil, era para Marta crescer carroçando e, depois, virar trabalhadora doméstica como a mãe. Fez sua revolução sem saber direito para onde estava indo – como, aliás, costumam ser feitas as revoluções.

Paul B. Preciado, filósofo e ativista espanhol, escreveu um texto que parece endereçado à Rainha, título que torcedores e jornalistas esportivos concederam à jogadora: “Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem integração. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, branco-negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos você sabe que seu aparelho de produção de verdade já não funciona mais. […] Nós recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Nós queremos uma cidadania total definida pelo compartilhamento das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a guerra limpa se fa­rá com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise, nós dizemos revolução.”


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É escritora, jornalista e colunista do UOL. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Los Angeles, diretora de redação da revista TPM e roteirista do programa Amor & Sexo na Rede Globo. É autora do romance O Ano em que Morri em Nova York (Planeta).