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Tatiane de Assis Out 2023 19h32
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No meio da entrevista à piauí, Augusto Leal é interrompido por uma senhora de vestido até abaixo do joelho e com o guarda-chuva aberto para se proteger do Sol forte. “Ah, foi você então que fez essa pintura”, ela diz. Leal confirma com um sinal de positivo. É ele o criador de uma singular e informal instituição que batizou de Museu de Arte de Simões Filho (Masf). “Que coisa boa. Eu adorei! Ficou bom pra gente tirar umas fotos bonitas”, elogia a senhora.
O museu foi instalado em uma escadaria para pedestres que liga a Rua Vereador João de Oliveira Campos à Avenida Elmo Serejo de Farias, principal via de Simões Filho, cidade da Região Metropolitana de Salvador. A escadaria é o próprio museu, mas também o suporte das obras do Masf: pinturas e mensagens inspiracionais foram feitas ali por um grupo de artistas locais.
Designer e artista, Leal, de 36 anos, se graduou em design industrial e fez mestrado em artes visuais na Universidade Federal da Bahia. A ideia do museu-escada começou a ser gestada em junho do ano passado, durante a primeira viagem que ele fez a São Paulo, para montar O jogo!, uma instalação com traves de gol em várias cores, no Parque Ibirapuera, dentro da mostra 3M de arte, com obras expostas a céu aberto.
Leal aproveitou para percorrer os museus da cidade, vendo de perto trabalhos de artistas que admira, como Hélio Oiticica (1937-80) e o alemão Joseph Beuys (1921-86). A oportunidade de contemplar essas obras que só conhecia por reproduções acabou sendo menos estimulante do que esperava.
O ambiente asséptico e pouco visitado do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) deixou o artista baiano desolado. “Você chega lá e não vê ninguém, é uma frieza só. Tem apenas o segurança naquele cubo branco enorme, com corredores compridos. Lembra um hospital.” No Masp, ele estranhou a bilheteria fechada: por causa das restrições na época da pandemia só era possível comprar ingressos online. Ele também achou as instalações pouco acolhedoras, com “exibições gigantes que não têm um banco para as pessoas sentarem”.
Depois de quatorze dias em São Paulo, Leal Filho retornou para Simões Filho, sua cidade natal, com a ideia de criar um museu diferente. “Meu objetivo era transformar um lugar de passagem em permanência. Porque a impressão que eu tive em São Paulo é que o museu, que era para ser um lugar de permanência, para as pessoas observarem com calma as obras e conversarem, tornou-se um lugar de passagem, em que os trabalhos são vistos de relance.” Em uma caminhada nos arredores da sua casa, no bairro Cia 1, ao ver a escadaria ligando as ruas, teve a ideia de transformá-la em uma espécie de museu.
Entre a concepção e a realização do projeto, passou-se quase um ano. Em 11 de junho, deu-se a criação do Masf com a participação de Leal e uma turma de sete artistas de Simões Filho – Milana de Oliveira, Diego Couto, Jó Oliveira, João Guilherme Romão, Júnior MacGiver, Luís Santos e Carla Mattos. Para criar o local, eles usaram tintas que sobraram de outros trabalhos, complementadas por compras feitas por Leal (um gasto de cerca de 400 reais).
O grupo trabalhou das nove da manhã às cinco da tarde. Pintaram de azul os três lances da escadaria de cimento, com 28 degraus. Na mureta de pedra e em alguns degraus fizeram inscrições como “Quero a paz” e “Honestidade”, em branco, vermelho e preto. Nos pisos entre um lance e outro da escadaria foram criadas, com spray, pinturas maiores e mais elaboradas: uma mandala roxa e um pássaro de plumagem exuberante. O topo das muretas foi dedicado às intervenções mais abstratas, com linhas que formam pequenos círculos, como um novelo infinito. Uma placa vermelha identifica o lugar: “Masf – Museu de Arte de Simões Filho”.
A postagem que Leal deixou no Instagram para anunciar o museu de rua teve mais de 1 mil curtidas. “Vocês não sabem o quanto, desde criança, eu sonho com isso! Eu vou visitar nos próximos dias! Que presente a gente ganhou!”, comentou um jovem e entusiasmado morador da cidade.
Para reconfigurar a escadaria, Leal agiu por conta própria, sem pedir autorização à prefeitura, que, consultada pela piauí sobre a iniciativa, não se pronunciou. Simões Filho já teve um centro de cultura, chamado Irmão Antônio Inocêncio da Rocha, no Centro da cidade, mas foi fechado em 2014 para reformas e continua de portas fechadas.
Esperava-se mais de um município de 114 mil habitantes que está entre as dez maiores economias da Bahia, por causa de sua produção industrial. Simões Filho também figura no topo de um ranking vergonhoso: entre as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, é a terceira com a maior taxa de mortes violentas intencionais, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023. “O Masf não é só um gesto artístico, é uma tentativa de resgatar a autoestima da cidade, que sempre se vê representada nas páginas policiais”, diz Leal.
Ainda neste ano, o museu-escadaria planeja exibir três exposições de artistas locais. Nos vernissages, ambulantes tomarão o lugar dos tradicionais garçons, oferecendo comes e bebes. Para a administração do lugar – que, afinal, é público –, Leal segue uma política de autogestão. “Não tem uma organização, uma institucionalidade. Cada um faz seu uso por conta própria e não tem que me avisar”, ele diz. “A lógica do Masf é a lógica da rua.”