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O SUL E A SUÁSTICA

Filme que critica a extrema direita desperta a censura
Imagem O Sul e a suástica

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Isolados em casa durante a pandemia, um casal de professores decide passar um fim de semana na montanha. Ele é negro, ela é branca, e os dois têm um filho loirinho de olhos azuis. Na localidade rural onde pretendem relaxar, os moradores não acreditam na gravidade da Covid e as casas são decoradas com a bandeira nacional. O chalé alugado pelos professores fica ao lado da residência de um casal idoso, cujo filho adolescente usa uma camiseta com estampa do rosto de Jair Bolsonaro – e tem uma suástica tatuada no braço.

A tensão entre o casal inter-racial e a comunidade racista crescerá até o final trágico de Gritos do Sul, curta-metragem de 20 minutos dirigido e roteirizado por Fahya Kury Cassins, de 37 anos. O filme foi realizado com recursos do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), um programa de fomento de Joinville, cidade de Santa Catarina onde Cassins vive. Primeiro lugar entre os selecionados pelo Simdec em 2021, o projeto da diretora era claro na sua intenção de retratar o “saudosismo do fascismo” que tomou o país – e o Sul em particular.

Cassins recebeu 73 750 mil reais brutos para produzir o curta. Descontado o imposto de renda, o valor recebido foi de 54 338,11 reais. As filmagens foram realizadas em junho de 2022 nas cidades de Joinville e Campo Alegre. A pré-estreia aconteceu três meses depois, no Sesc Joinville, com a sala de cinema cheia e aplausos ao fim da exibição. Tudo seguia o curso normal de um filme independente, até que Cassins recebeu, por WhatsApp, o aviso de um amigo: Gritos do Sul entrara no radar dos políticos bolsonaristas.

O deputado estadual Sargento Lima, do PL, foi o primeiro a levantar a gritaria, em maio deste ano. Em um canal de YouTube chamado Passando a Limpo – que tem menos de quinhentos inscritos –, atacou o filme sem tê-lo visto. Um dos apresentadores diz: “Um documentário que se chama Gritos do Sul basicamente fala que o povo catarinense é nazista, fascista.” Então, Lima comenta: “Esse documentário ofende todo o povo catarinense.” O Passando a Limpo mostrou uma cena de 10 segundos, na qual uma camiseta de Bolsonaro é queimada. Sargento Lima também questionou se o documentário deveria ser pago com dinheiro público.

Cassins ficou em choque com as mentiras e imprecisões. O curta-metragem é uma obra de ficção e não um documentário. A cena da camiseta queimada não faz parte do filme. Aparecia só em um vídeo promocional no YouTube, que a diretora tirou do ar depois da repercussão negativa.

Joinville é governada por Adriano Silva, o único prefeito que o Novo conseguiu eleger no país em 2020. Sargento Lima encontrou no filme de Cassins a oportunidade de atacar Silva e seu partido. “Essa ideologia do Novo é não estar de lado nenhum, agradar gregos e troianos”, disse no YouTube. Uma semana depois, no plenário da Assembleia Legislativa, voltou a criticar o repasse de recursos municipais para a produção do filme. E mostrou de novo a cena da camiseta de Bolsonaro sendo queimada. “Eu tenho uma camisa dessas e uso com muito orgulho”, disse.

O discurso na assembleia estadual inflamou parte da Câmara Municipal de Joinville. Três vereadores do próprio Novo, Alisson Julio, Érico Vinicius e Neto Petters, propuseram um projeto de lei que limita a liberdade criativa de futuras obras agraciadas pelo Simdec. O texto diz que nenhum produto cultural que prejudique ou favoreça a imagem de uma pessoa deverá receber fundos municipais (a pessoa prejudicada no filme que motivou o projeto de lei teria sido Jair Bolsonaro).

“O nosso objetivo não é eliminar a cultura. Estamos querendo instituir regras claras e objetivas no interesse de quem está investindo esse recurso, no caso os joinvilenses”, afirma Petters, líder do governo na Câmara de Joinville. Ele quer cortar o fomento de obras que firam “a imagem e o orgulho do joinvilense”. Há mais proibições previstas: as produções não poderão conter – e nem sequer mencionar – qualquer forma de preconceito e discriminação e estão vetadas a promoção ou depreciação de ideologias políticas. Nenhum dos três autores do projeto de lei viu o curta-metragem que o motivou.

Em agosto, o vereador Wilian Tonezi (Patriota) pediu para ter acesso ao filme e à integra do projeto e do roteiro. Tonezi não gostou do que viu: “O roteiro faz descrição de pessoas brancas, loiras e de olhos azuis, um estereótipo do joinvilense, para depois dizer que somos nazistas.” No entanto, ele não apoia o projeto de lei de seus colegas do Novo. “A regra atual é clara e exige que o filme promova Joinville, algo que não aconteceu”, diz. “A minha crítica é para quem aprovou o projeto. A cineasta não mentiu no roteiro nem na execução.” Na verdade, o edital do Simdec e as leis municipais que o amparam não trazem a exigência de que as produções financiadas promovam o município. Em sua campanha para criticar a administração municipal por ter aprovado o projeto de Cassins, Tonezi divulgou o projeto na íntegra, contendo os dados pessoais da diretora, como o CPF.

Adriano Silva não quis dar entrevista sobre a controvérsia em torno de Gritos do Sul, mas a prefeitura emitiu um comunicado oficial: “A Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura de Joinville destaca que todos os projetos apoiados pelo Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec) são analisados tecnicamente com base nos critérios estabelecidos em lei. A avaliação do projeto não considera nenhuma questão política ou outro mecanismo que imponha condição de censura às ideias dos proponentes.”

Vendo que o circo político pegava fogo, a Cinemateca Catarinense divulgou, em agosto, uma carta de apoio a Cassins, assinada por 219 artistas que se posicionaram contra “qualquer tentativa de censura e/ou ataques a manifestações artísticas”. “Esta entidade repudia a forma como os detratores lidaram como o assunto (desde o uso do cargo público até a divulgação de dados sensíveis da realizadora)”, diz a carta.

Filha de imigrantes libaneses, Fahya Kury Cassins é de Curitiba e vive em Joinville desde os 2 anos. Sua carreira divide-se entre a produção audiovisual e a academia. Graduou-se em cinema e filosofia e fez mestrado em história. Ela vê com preocupação o avanço da censura institucionalizada que proíbe certos temas nos filmes. Também teme que a pressão das pequenas comunidades possa levar artistas que vivem fora dos grandes centros urbanos à autocensura. Ela mesma vem sentindo o cerco se apertar em Joinville: “Em setembro, eu daria um curso de curta-metragem em uma escola pública da cidade, em uma parceria com o Sesc, mas esse curso foi cancelado.” Formalmente, foi só um adiamento – mas não se fixou nova data para o curso.

Com uma população de 616 mil habitantes e uma economia baseada no turismo e na metalurgia, Joinville apoiou nas últimas eleições quem estampava a camiseta usada pelo adolescente de Gritos do Sul. Na cidade, Bolsonaro levou 76,60% dos votos válidos no segundo turno.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)