esquina
Pedro Tavares Out 2023 19h28
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Um anjo apareceu em sonho ao servidor público José Carlos Pereira Braga, dizendo que ele seria pai de um menino, que deveria se chamar Jeddah – nome de uma cidade da Arábia Saudita onde, de acordo com alguns muçulmanos, estaria sepultada Eva, a primeira mulher. Braga, que não é muçulmano, mas admira a cultura árabe e as religiões orientais, adotou o nome sugerido pelo anjo, com uma adaptação na grafia: seu filho, nascido em 2005, em Manaus, chamou-se Djedah.
“Meu pai tem uma importância enorme na minha vida”, diz Djedah Medeiros Braga, hoje com 17 anos. Braga estimulou no filho o gosto pela filosofia e a paixão pela música. Aos 10 anos, ele ganhou do pai um violão usado e tirou as primeiras notas. “Eu tentei tocar aquele tema do filme A pantera cor-de-rosa”, lembra.
Ao perceber a rápida evolução do filho no instrumento, Braga comprou um violão um pouco melhor – um Tagima preto. Com 12 anos, buscando cifras na internet e praticando muito, o adolescente começou a desenvolver seu estilo, a partir dos dois músicos que mais admira: Baden Powell e Yamandu Costa. “Baden é um gênio. Os afro-sambas fizeram minha mente”, diz. Com o virtuosismo do gaúcho Yamandu Costa, o amazonense aprendeu a técnica refinada e a agilidade melódica. Vem daí o “ritmo frenético” (expressão do próprio Djedah) com que ele interpreta os standards da mpb.
De seus primeiros ouvintes em Manaus, Djedah recebeu mais estranhamento do que estímulo. “Falavam que eu tocava diferente”, recorda. Foi na internet, sobretudo no Instagram, que se deu conta do que podia causar – e colher – com o violão. Ele guarda na memória, com carinho, algumas das muitas mensagens que recebe na rede social. “Uma que me marcou foi de um cara que voltou a tocar violão por minha causa.” Muitos seguidores exaltam Djedah como “o novo Yamandu Costa”, mas ele se sente constrangido com o elogio: “Eu acho um absurdo uma constatação como essa. Olha o peso enorme disso!”
A sua fama no Instagram se acelerou graças ao arranjo que fez para Preciso me encontrar. Publicada na rede social em setembro de 2022, a versão do clássico de Cartola alcançou quase 1 milhão de visualizações. Por ironia, vinha acompanhada de um comentário no qual o violonista celebrava a modesta conquista de seiscentos seguidores. Em 26 de agosto, onze meses e 68 publicações depois, Djedah agradeceu a marca de 60 mil pessoas acompanhando seu perfil. “Hoje penso em seguir carreira musical. Com o Instagram, vi que isso é uma possibilidade bem mais próxima do que imaginava”, diz o jovem, que está no último ano do ensino médio e planeja cursar música na Universidade do Estado do Amazonas, em Manaus.
Entre os seus seguidores, encontram-se nomes influentes da MPB, como o cantor Chico César e o bandolinista Hamilton de Holanda, e personalidades do violão erudito, como os violonistas Alessandro Penezzi e Marcos Kaiser. Djedah lembra a emoção que teve ao receber uma mensagem do músico mineiro Toninho Horta, em 23 de agosto, dizendo assim: “Brother, vc é muito talentoso, parabéns!”
A fama nas redes levou Djedah ao São Paulo Fashion Week, em 17 de novembro de 2022, para uma apresentação com músicas do repertório de Gal Costa para a grife Sou de Algodão. Paulo Borges, criador e diretor criativo do evento, gostou de um vídeo no qual Djedah tocava Baby e convidou o violonista para fazer uma homenagem à cantora, que morrera dias antes. Djedah diz que não tinha maiores pretensões quando fez sua versão instrumental da canção tropicalista. “Foi quase que um improviso. Mas isso me levou a tocar em São Paulo.” Em sua cidade natal, ele já se apresentou duas vezes no Teatro Amazonas.
O poeta francês Arthur Rimbaud disse que “não se é sério quando se tem 17 anos”. Não é bem o caso do violonista manauense. Ele tem uma voz grave, calma e empostada que parece não condizer com a sua idade. Suas reflexões sobre a música carregam um peso incomum para alguém tão jovem. Recentemente, um seguidor no Instagram perguntou qual era o período musical favorito do rapaz. “O final do Romantismo”, respondeu Djedah. Depois disse que a música é “a mentira mais bonita do mundo”.
Para justificar essa afirmação à piauí, ele fez um tortuoso caminho. Recorreu ao filósofo Arthur Schopenhauer: “Ele diz que a música é uma arte universal, uma das representações diretas da vontade, onde o cara escapa do sofrimento do mundo.” Em seguida, lembrou o compositor Richard Wagner: “Ele tinha uma concepção de arte total. Wagner é a pessoa que mais incorporou a filosofia de Schopenhauer.” E terminou citando o conhecido verso de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor.” A música, pensa Djedah, para afastar o sofrimento, recorre a mentiras, e não a verdades racionais.
Ao final da conversa, Djedah tirou das cordas Feira de mangaio, de Sivuca e Glorinha Gadelha, uma de suas músicas preferidas. Ele ajeitou o violão no colo, fechou os olhos e entrou numa espécie de transe. Os movimentos rápidos – ou “frenéticos” – dos dedos da mão esquerda eram embalados pelo polegar, de unha afiada, que golpeava a corda mais grave para marcar o baixo e conduzir o arranjo. O indicador, o médio e o anelar, além de trazerem a melodia nas cordas agudas, aceleravam o andamento da música – a principal marca de Djedah.
No meio do arranjo, o jovem encaixou solos improvisados sem deixar escapar os embalos do tema e da melodia principal. A mão direita percorreu todo o braço do instrumento, preenchendo os acordes com a mesma precisão e agilidade. A exibição durou 2 minutos e 50 segundos. “Foram vindo umas ideias aqui e fui improvisando”, disse Djedah. “Lá menor é um tom bacana de brincar.”