poesia

DEZEMBRO POR ORA

Quando voltamos das compras o mundo portátil é inútil e o beijo estraga depressa
Imagem Dezembro por ora

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Dezembro pode ser fim.

Dezembro pode ser ponte.

Pergunto quanto tempo dura

a imagem que se forma nítida

sem que a outra já se apresse

com seu aço a desdobrar-se

sobre o avesso transparente

da primeira: fim ou ponte?

Olho daqui – tudo muda

onde a palavra se lança.

Imagens são anéis de barro.

Versos são punhais de vento.

Dezembro pode ser fim

e pode estar no começo.

Dezembro pode ser fonte?

Os espelhos não respondem

– o rosto retirou-se deles.

Não falarei de dezembro

mas falarei de sua sombra

contarei de sua grinalda

esfarrapada difusa

ondulando pelas ruas

rasgando as horas nas pedras.

Lâmpadas breves se acendem

mas se tentamos o gesto

de recolher uma sílaba

um raio uma cor um halo

– já não existe dezembro

tudo o que resta é seu nome

quebrado em muitos pedaços

e restos de ter havido

o seu vestido passando

e as suas botas solenes

e as suas máquinas tristes.

Não falarei de dezembro

talvez eu fale do fogo

mordendo os últimos rios

as cidades – e os teus ombros.

Talvez eu fale da cinza

que se espalhou sobre os livros.

Não falo mais de dezembro

falo das mães e dos mortos

à porta de nossos olhos

batendo contra o silêncio.

Não me interessa dezembro.

Quem quiser porém que o compre

barato como são baratos

os perfumes e os venenos.

Dezembro é lixo. É de plástico.

Dezembro fere. É fútil.

Enquanto isso há dezembros

feitos de escárnio e de ouro

pomposos em caixas-fortes

defendidos do futuro

e as horas vendem-se a prazo

em calendários estúpidos.

Quando voltamos das compras

o mundo portátil é inútil

e o beijo estraga depressa.

Mas as imagens alternam

e dezembro permanece

– não passa? – prossegue livre

tonto de nós e secreto

à maneira de um planeta

crescendo em mundos distantes

muito mais quentes que o sonho.

Dezembro nem começou.

Dezembro é ponte – quem sabe

dezembro nem acabasse

(e seu séquito de dúvidas).

Dezembro sabe. Não diz.

Atravessamos os séculos

quando dizemos dezembro

e no entanto seu contorno

não dura mais que um segundo

na página branca fria

do seu cimento recente

que nunca chega ao destino.

Chegar nunca foi seu plano?

Dezembro é talvez projeto

e nunca mais terminava

o seu desenho confuso

de arames em arabescos

errando em nossos cabelos

como se em nós um segredo

eternamente nascendo

girasse – sem nós – girando.

Dezembro pode ser a borda.

Dezembro pode ser a dobra.


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Poeta e ensaísta, publicou Sentimental e Retratos com Erro, ambos pela Companhia das Letras