questões vultosas
Fernando de Barros e Silva Nov 2023 13h47
6 min de leitura
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Adriano, o que você mais gostava de fazer como polícia? E ele: torturar. Isso é chocante. O.k., traficante. Mas é pessoa, tem mãe, tem filho. Prende, cara! Aí é o que eu cobrei depois dele. Você vai torturar? Você vai matar? Ele morreu torturado. E o que ele mais gostava de fazer? Torturar. Isso não foi ninguém que me falou, foi ele. Ele falava. Pegava dono do morro e ficava três dias com o dono do morro. Era o tesão dele como polícia.
Adriano é o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em fevereiro de 2020, no interior da Bahia, por uma força-tarefa que mobilizou mais de setenta policiais e contou com a participação da polícia do Rio de Janeiro. As palavras do parágrafo acima são de Julia Lotufo, mulher de 31 anos, viúva de Adriano, com quem viveu dos seus 19 aos seus 28 anos. Provavelmente ninguém o conhecia melhor.
As revelações de Lotufo fazem parte da série documental Vale o escrito – a guerra do jogo do bicho, criada por Fellipe Awi, dirigida por Ricardo Calil e lançada pelo Globoplay no mês passado. No episódio em questão – o quinto de um total de sete –, intitulado Adriano da Nóbrega: o sócio fantasma, o locutor Pedro Bial (que também assina a “supervisão artística” do projeto) anuncia que “a viúva de Adriano da Nóbrega nos deu uma entrevista de nove horas de duração”. A imagem então a mostra sentada numa cadeira, levantando a barra da calça jeans, enquanto a narração prossegue: “Ela usava tornozeleira eletrônica. Respondia por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Tinha escolta policial porque se dizia ameaçada de morte.”
No momento que Lotufo diz que “o tesão” do ex-capitão do Bope era “torturar”, o entrevistador, que não aparece em cena, emenda, meio sem jeito:
– O Tropa de elite, não sei nem se ele gostava do filme…
– Ele gostava – responde Lotufo. – Ele falava: “Julia, é isso, só que muito pior.”
Vemos então imagens do Capitão Nascimento, vivido por Wagner Moura, torturando suas vítimas na favela e nos perguntamos em silêncio o que pode ser muito pior do que as cenas eternizadas no filme de José Padilha.
Um dos entrevistados no documentário é Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope e coautor, com o também policial André Batista e o antropólogo Luiz Eduardo Soares, do livro Elite da tropa, que serviu como base para o roteiro de Tropa de elite. Pimentel fala que “seria interessante para todo o Brasil que o Adriano fosse preso vivo”. E especula que “ele ia contar tudo” numa eventual delação premiada. Mas tudo o quê? Pimentel enumera: “Ia contar por que familiares dele estavam no gabinete do então deputado e hoje senador Flávio [Bolsonaro]. Ele ia contar detalhes sobre a pistolagem no Rio de Janeiro. Sobre o Escritório do Crime. Sobre o jogo do bicho. Sobre as brigas familiares na cúpula do bicho do Rio.”
Logo adiante, o delegado Alexandre Neto, da Polícia Civil carioca, dá o seu depoimento: “Quem matou o Adriano? Muita gente tinha interesse na morte dele. Se ele faz uma delação premiada, metade da polícia do Rio de Janeiro ia ser presa. A verdade é essa. Metade ia ser presa, certamente. A outra metade ia ficar com medo.”
Depois de seis meses de investigação, a polícia da Bahia concluiu que não houve tortura nem execução. Segundo a versão oficial, Adriano atirou sete vezes contra os policiais, sem acertar ninguém, e recebeu em troca dois disparos fatais. A farsa soa grotesca até para os padrões de cinismo da polícia brasileira.
Julia Lotufo, que estava com o marido poucas horas antes de sua morte, não tergiversa: “Ele foi executado. Não tinha arma. Não tenho dúvidas de que aquilo tudo foi forjado. Por que sete costelas quebradas? Por que seis coronhadas? Por que uma mordida no peito? Por que as costas espancadas? Por quê?” A seguir, ela relembra a conversa que teve ao receber o cadáver no Rio: “Quando o perito abre o Adriano, ele fala, Julia, não tem uma víscera, não tem um órgão. Não tem coração, nada. Isso eles fizeram no IML de Alagoinhas [no interior da Bahia]. Jogaram os órgãos dele todos fora e mandaram para o Rio cheio de jornal por dentro. Adriano só tinha jornal.”
Quando Adriano aparece, o espectador já foi apresentado a boa parte da fauna que vive em torno do jogo do bicho no Rio. Os personagens e enredos que Vale o escrito põe em cena fazem parte de um ecossistema tipicamente mafioso. A imagem é batida, mas eficaz. Eduardo Paes é um dos que recorrem a ela ao se referir a seus concidadãos que vivem na ilegalidade: “Quando eu olho para isso [as disputas de poder entre os grupos do bicho] eu lembro de filmes da máfia italiana, da máfia americana”, diz o prefeito.
Paes explica então sua relação com a turma que financia o Carnaval: “Na avenida, você está vendo uma dessas figuras notórias, você olha para a frente, para o lado, e passa direto. Eu diria que na avenida é mais fácil. É só dar uma sambada para o lado e seguir em frente.”
Também entrevistado, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o mandachuva da Globo na era dourada da emissora, substitui o jeito de corpo do prefeito por um drible retórico: “Eu sempre digo que nunca tive contato com o pessoal do bicho. Eu tive contato com os patronos do Carnaval.” Como Paes, Boni também sorri.
Ambos agem como quem pisca para a ilegalidade que condenam da boca para fora. Essa ambivalência, que acolhe e rejeita o ilícito ao mesmo tempo, acaba se infiltrando na própria estrutura do documentário, a despeito de suas qualidades, que são muitas, a começar pelos depoimentos de bicheiros graúdos, alguns deles falando em público sobre suas atividades pela primeira vez. Há, além disso, uma pesquisa histórica exaustiva, amarrada pelo roteiro que ilumina a escalada da criminalidade ao longo das décadas, marcada por execuções em série e atentados a céu aberto, até chegar aos chefões do bicho hoje: “Rogério Andrade e Bernardo Bello são donos dos maiores exércitos paralelos do Rio de Janeiro, e quem sabe do Brasil”, diz a certa altura o veterano repórter Chico Otavio, reproduzindo o que ouviu de um delegado que sabe das coisas.
Essa realidade atroz vem temperada por depoimentos muitas vezes deslumbrados, que não disfarçam seu fascínio pelos bicheiros, e por uma locução que a todo momento escorrega para o novelesco, embaralhando os registros entre as páginas policiais e o colunismo social – afinal, estamos falando de bandidos ou de celebridades?
Tudo isso fica muito longe de um documentário como Nova York contra John Gotti, nome da série sobre o mafioso americano em exibição na Netflix. Vale o escrito jamais poderia se chamar “O Rio de Janeiro contra os bicheiros” ou “Uma cidade contra a contravenção”. Mas, como se trata de uma grande série, seus pontos problemáticos também podem ser entendidos como sintomas de algo que merece atenção.
Indo um pouco longe na analogia, arrisco reproduzir aqui o que disse o crítico Roberto Schwarz, em seu livro Um mestre na periferia do capitalismo, a respeito das vulnerabilidades das Memórias póstumas de Brás Cubas, a obra-prima de Machado de Assis:
Segundo a boa teoria de Adorno, quanto mais alto o nível, menos contingentes as fraquezas artísticas de uma obra. Estas deixam de remeter a limitações do autor, para indicarem impossibilidades objetivas, cujo fundamento é social. Aos olhos do crítico dialético a fratura da forma aponta para impasses históricos.
Impasse histórico é uma fórmula que serve para nos definir hoje como país. Ninguém em sã consciência acredita que estejamos a caminho de resolver o nó da criminalidade, no Rio ou no Brasil. Se depender da realidade, Vale o escrito não fica apenas na 1ª temporada. É só preparar a pipoca e aguardar os próximos capítulos.