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A TÁTICA DO INELEGÍVEL

Enquanto espera pelo STF, o ex-presidente sai da toca
Imagem A tática do inelegível

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Desde que Lula assumiu a Presidência da República e apresentou sua pauta econômica, a reforma tributária tornou-se uma questão de vida ou morte – para Jair Bolsonaro. O assunto nunca despertou seu interesse pessoal, mas ele avaliava que sofreria um revés humilhante, caso o governo petista fosse capaz de construir um consenso mínimo no Congresso Nacional e ainda aprovar a reforma já no primeiro ano de gestão. Logo ele que vendeu ao mercado a promessa de que faria tudo – a reforma da Previdência, a reforma tributária, a reforma administrativa – e encerrou seu mandato aprovando apenas a previdenciária, e a duras penas. Bolsonaro mandou às favas os escrúpulos fiscalistas de seu ministro Paulo Guedes e furou o teto de gastos cinco vezes, mas, ainda assim, uma vitória do PT num tema tão complexo como tributos seria aviltante.

Tanto mais que o ex-presidente se empenhou no assunto durante seu governo. Como a reforma tributária mexia nos ganhos de grande parte da elite nacional, Bolsonaro chegava a despachar sobre o tema diretamente com seu primeiro secretário da Receita, Marcos Cintra, que se debruçara sobre os tributos desde a campanha eleitoral. Criou-se até uma distorção dentro do ministério de Paulo Guedes: havia dois grupos discutindo textos diferentes – um de Cintra e outro de Rodrigo Maia, então presidente da Câmara dos Deputados. Maia não tinha simpatia por Cintra e preferia a proposta de reforma desenhada pelo economista Bernard Appy, que hoje integra a gestão de Fernando Haddad.

O sentimento de humilhação de Bolsonaro, segundo o relato de alguns de seus interlocutores, começou a tomar corpo no início de novembro, quando uma primeira versão da reforma passou no Senado – e o texto-base era aquele de autoria de Bernard Appy. Depois de um ano quase inteiro recluso em razão dos temores penais, Bolsonaro decidiu encerrar a quarentena. Em outubro, já estava articulando contra a reforma discretamente, mas no mês seguinte ficou mais desinibido. Em 8 de novembro, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma mensagem em que Bolsonaro cobrava o apoio do senador Nelson Trad Filho (PSD-MS): “Trad, você amanhã será decisivo para derrotarmos a reforma tributária.” Trad votou a favor.

Até então, as articulações da direita contra Lula vinham sendo tocadas à meia-­luz nos bastidores por Arthur Lira (PP-AL), o presidente da Câmara. Lira é a melhor encarnação do que o cientista político Marcos Nobre chamou de “Centrão sem medo”, no artigo Pega, mata e come (piauí_204, setembro 2023) – o “Centrão sem medo” é aquele bloco que, em nome de seus interesses, está disposto a aderir a qualquer lado, inclusive o da extrema direita, mas anda cansado de exercer o papel de coadjuvante. Agora e cada vez mais, com a fome de um carcará, seu objetivo é o poder – sem intermediários.

A reforma tributária em sua versão definitiva foi aprovada em segundo turno na Câmara por 365 votos a 118, no dia 15 de dezembro. “Um fato histórico”, comemorou Lula. E Bolsonaro engoliu o sapo. Mas sua volta ao jogo público, que começou a tomar forma ainda antes das articulações contra a reforma, animou o presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto. Até o canal do YouTube de Bolsonaro estava sendo melancolicamente pautado por Lula. Sempre que o presidente inaugurava uma obra, a equipe corria para colocar um vídeo antigo dizendo que tudo havia começado no governo anterior. Agora, retomou a postagem de registros de suas andanças e ataques ao governo, como no caso da indicação de Flávio Dino para o Supremo Tribunal Federal.

Na versão sem medo, Bolsonaro voltou a organizar recepções na sua chegada em aeroportos do interior, apoiar candidatos ao pleito de 2024 (como Ricardo Salles, que quer ser prefeito de São Paulo) e até voou de helicóptero sobre cidades inundadas em Santa Catarina na companhia do governador aliado. Também deu para aparecer de surpresa nos lugares – em eventos de Michelle e até em encontros oficiais, como aconteceu na reunião do embaixador de Israel, Daniel Zonshine, com parlamentares da direita, para discutir o conflito entre Israel e o Hamas. Ali, era o puro suco de Bolsonaro, tentando faturar sobre uma tragédia.

Fabio Wajngarten, assessor informal de Bolsonaro com alguma influência entre os membros da comunidade judaica, achou que seria uma boa ideia infiltrar o ex-presidente na reunião na Câmara. O embaixador Zonshine queria apresentar vídeos dos ataques do Hamas aos deputados, no intuito de pressionar indiretamente o governo Lula a marcar uma posição mais crítica aos ataques. Wajngarten articulou o encontro com o PL, e Bolsonaro apareceu na última hora. A reunião deve inviabilizar a permanência do embaixador no Brasil, sob a suspeita de ultrapassar os limites da diplomacia para fazer política, mas reforçou a posição pró-Israel de Bolsonaro, gerando simpatia até em parte da comunidade judaica que havia votado em Lula.

Os movimentos de Bolsonaro deixaram o Palácio do Planalto em alerta. Em parte por isso, o governo se empenhou em promover um ato tão barulhento, com a presença de tantos ministros, para receber os brasileiros que voltavam da Faixa de Gaza, resgatados pela equipe do Itamaraty. Era uma forma de evitar que Bolsonaro tentasse capitalizar a chegada do grupo ao país. No final da disputa, ele ganhou a batalha dentro de parte da comunidade judaica, mas não levou a de Gaza. Logo, voltou suas atenções para a Argentina, que, naquela altura, se preparava para a eleição presidencial.

O ex-presidente se envolveu pessoalmente na campanha do direitista Javier Milei. Filmou a conversa em que parabenizou Milei pela vitória e, depois, compareceu à posse do novo presidente (à qual Lula não foi) e fez outra aparição de surpresa – desta vez, tentou se infiltrar na foto oficial dos presidentes presentes à posse de Milei. Foi barrado. O triunfo de Milei reforça, na avaliação de Bolsonaro, que no mundo de hoje não há mais lugar para a “esquerda”. Ele está convicto de que Donald Trump ganhará a eleição deste ano e que, junto com Milei, ajudará de algum modo a favorecer a extrema direita no Brasil, ainda que ele próprio esteja fora do páreo, já que inelegível até 2030.

A convicção do ex-presidente, ainda segundo aqueles que o cercam, tem funcionado como uma evitação mental do que o futuro lhe reserva. Bolsonaro acredita que, de fato, acabará sendo preso por sua atuação golpista, mas acha que precisa mostrar dentes e músculos. Já foi alertado nos bastidores de que a delação de Mauro Cid, seu ajudante de ordens no governo, não deverá ter uma prova substancial que o coloque como artífice do 8 de janeiro, mas, mesmo assim, acha que será condenado porque seu caso está sendo avaliado por um “tribunal político”. Incensar a militância neste momento, portanto, é providencial.

Na Justiça, afinal, as perspectivas efetivamente não lhe são animadoras. As primeiras condenações dos bolsonaristas que participaram da intentona golpista têm se aproximado dos vinte anos de cadeia. A expectativa é que essa dosimetria seja ainda mais severa para o caso dos artífices. O STF, neste momento, está calibrando o calendário: não quer uma condenação tão rápida que transforme Bolsonaro em vítima, nem tão lenta que lhe dê tempo para fortalecer os músculos e arreganhar os dentes.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época