questões vultosas
Fernando de Barros e Silva Jan 2024 17h00
6 min de leitura
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Sou de um tempo em que o Grupo Globo era chamado de Organizações – Organizações Globo. De um tempo em que Amaral Netto era “o repórter” e a cadeira de William Bonner era ocupada por Cid Moreira. Para quem pertence à minha geração, o compromisso da família Marinho com a democracia não tem nada de trivial. Só por isso já mereceria registro o documentário 8/1 – A democracia resiste, exibido pela GloboNews por ocasião do aniversário do golpe que fracassou, atualmente disponível na Globoplay.
A rigor, como disse Eduardo Escorel em sua coluna semanal no site da piauí, a obra dirigida por Julia Duailibi e Rafael Norton não é um documentário, e sim uma reportagem televisiva. Não se trata, como ele explica, de uma “firula semântica”, uma vez que “há diferença notória entre, de um lado, o que pertence ao âmbito do jornalismo e, de outro, uma forma específica de cinema”.
É uma boa discussão essa que envolve a definição das fronteiras entre a criação artística da técnica jornalística, o documentário e a reportagem. Escorel sabe do que fala (basta lembrar que seu extenso currículo inclui a montagem de Terra em transe, de Glauber Rocha, e Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, nada menos). Eu me atreveria a dizer apenas que nem sempre “há diferença notória” entre o que pertence ao universo do jornalismo e o que é próprio do cinema documental.
Mas o nosso problema aqui é anterior: somos de um tempo, Escorel e eu, em que a Globo costumava vender gato por lebre e a “reportagem televisiva” não diferia muito da Voz do Brasil.
Completaram-se no último dia 25 de janeiro 40 anos do comício pelas Diretas Já na Praça da Sé, em São Paulo. Foi um divisor de águas do movimento popular que tomou o país nos primeiros meses de 1984 pedindo a volta da eleição direta para presidente. A pressão das ruas mudou de patamar após o ato da Sé, mas duas semanas antes, em Curitiba, 50 mil pessoas já haviam dado a largada dos grandes comícios pelas diretas. Essa primeira manifestação foi simplesmente ignorada pela Globo no Jornal Nacional, seguindo a boa lógica orwelliana: não noticiamos, logo não existiu.
No caso de São Paulo, a operação de apagamento da realidade era mais delicada. Calculou-se à época que 300 mil pessoas inundaram o Centro da cidade. Ainda que o número estivesse superfaturado, tratava-se de um evento histórico, no sentido forte da palavra – a história do país estava sendo escrita naquele momento e naquele lugar. Entre não dizer nada e noticiar a verdade, a Globo optou por um caminho alternativo (já naquela época a obsessão pela terceira via).
Cito a descrição que faz desse episódio o jornalista Oscar Pilagallo, no livro O girassol que nos tinge: uma história das Diretas Já, o maior movimento popular do Brasil, lançado no ano passado pela Fósforo:
Pela primeira vez, a emissora fez imagens de um comício. Mas o noticiário daquela noite informou na escalada – os destaques do dia – que o evento da Praça da Sé tinha sido um show musical por ocasião do aniversário da cidade. Não houve menção à natureza política do comício no jornal televisivo de maior audiência do país. Quanto à reportagem exibida na sequência, de pouco mais de dois minutos, só mencionava brevemente a reivindicação por eleição direta.
Foi preciso esperar pelo comício da Candelária, a duas semanas da votação da Emenda Dante de Oliveira, que seria derrotada no Congresso, para que a Globo decidisse enfim fazer o que se pode chamar de cobertura da campanha das Diretas Já. O ato no Centro do Rio reuniu, conforme se noticiou na ocasião, mais de 1 milhão de pessoas.
No capítulo dedicado ao comício carioca – Candelária, enfim –, Pilagallo começa contando que na tarde daquele 10 de abril, depois de interromper sua programação para transmitir flashes ao vivo da manifestação, a Globo foi alvo de uma intimidação cinematográfica. Um helicóptero do Exército passou a sobrevoar o prédio da emissora, detendo-se na altura do décimo andar, onde se localizava a sala de Roberto Marinho. Era possível discernir através da vidraça o vulto dos ocupantes da aeronave, alguns fardados, um deles com uma metralhadora apontada para a janela. “Ali ficaram parados por alguns infindáveis minutos e depois partiram. Nunca consegui saber de onde partiu a ordem para que o helicóptero viesse nos assombrar”, relatou Marinho ao livro de memórias oficiais do Jornal Nacional.
Corta.
Tenho absoluta certeza de que torciam por uma virada de mesa. Porque tinham ojeriza, ódio – um ódio nos olhos, um ódio que não é presumido, eu vi – ao que nós representávamos.
Quem fala aqui já não é Roberto Marinho, mas Flávio Dino. O relato faz parte de uma passagem do documentário (vamos chamá-lo assim) 8/1 – A democracia resiste, quando o então ministro da Justiça de Lula descreve a reunião com membros do Alto Comando do Exército na noite da intentona golpista, horas depois da devastação. Pelo contexto da fala, fica claro que Dino se refere ao então comandante do Exército, Júlio Cesar de Arruda, que se recusava a autorizar a prisão da turba que havia retornado para o acampamento em frente ao Q.G. depois de vandalizar os prédios dos Três Poderes.
No topo da hierarquia do Exército, o general agia abertamente como capanga de luxo de um punhado de baderneiros. E chegou a zombar do interventor Ricardo Capelli, dizendo na frente de todos, durante a mesma reunião, que o poder bélico do Exército era maior do que aquele dos policiais encarregados pela prisão.
Diante dessas circunstâncias, o título do documentário – A democracia resiste – soa excessivamente otimista e tem algo do espírito de grêmio estudantil. A opção pelo panfleto talvez se explique pelo histórico da emissora, preocupada em alardear num momento grave do país que mudou de lado para valer. Talvez, mais do que isso, o título reitere a mesma lógica orwelliana, com sinais trocados: se a gente está dizendo que ela resiste é porque resiste.
O documentário é melhor que isso. Além do acesso aos principais personagens da crise, do lado governista, e das imagens inéditas, a obra expõe com clareza a aposta dos golpistas na GLO, a Garantia da Lei e da Ordem, pela qual a baderna instaurada se converteria em golpe consumado, aí sim. “Se eu dou autoridade para eles [os militares], eu tinha entregado o poder para eles”, diz o presidente a certa altura, explicando por que optou pela intervenção federal. Lula, aliás, sempre à vontade com jornalistas, parece tenso diante de Duailibi.
Outro ponto alto da obra está na reconstituição da tensão extrema e da grande incerteza que marcaram as negociações do governo recém-empossado com os militares nas horas que se seguiram ao golpe frustrado. Mas aqui o filme também revela seus limites e serve como documento histórico tanto pelo que mostra como pelo que deixa de mostrar. Somos informados ao final que os militares golpistas foram procurados e não quiseram falar. Não é suficiente para desfazer a sensação de que houve certa cautela, ou quase uma mesura da emissora em relação às Forças Armadas, como se a alma de José Múcio estivesse presente também no espírito da edição.
O ministro da Defesa acaba sendo, por obra de sua pusilanimidade, um personagem relevante, menos pelo que diz e mais pelo que representa como sintoma de um arranjo histórico. A democracia brasileira sobrevive, mais do que resiste, quase como uma solução de compromisso, sem enfrentar à altura a nata dos golpistas de farda. E para piorar, como a gente sabe, o pulso das ruas ainda está mais para Eu te amo, meu Brasil do que para Apesar de você.