esquina
Angélica Santa Cruz Jan 2024 19h41
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A cena parecia ter pulado de um livro de Oliver Sacks, o neurologista inglês que publicava crônicas sobre seus pacientes para mostrar os misteriosos labirintos do cérebro humano. No final de 2019, a moral andava baixa no Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Vila Mariana (Caism VM), na Zona Sul de São Paulo. O lugar faz parte do sistema estadual de saúde e é um portento composto por pronto-socorro, enfermarias, hospital-dia e ambulatórios de psiquiatria – ali passam cerca de 2 mil pacientes por mês.
Naquele período, o Caism acabara de enfrentar mudanças administrativas e demissões. Para aplacar o fechamento de um ano duro, a coordenação da unidade decidiu chamar alguma atração musical. Convidou a banda Os Pitais, formada por músicos voluntários. “Foi mágico”, descreve o psiquiatra Ary Gadelha, professor e vice-chefe do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo, instituição à qual coube administrar o Caism durante as mudanças.
Aconteceu então o toque oliver-sackiano: à medida que as músicas avançavam, uma paciente em estado catatônico começou a se movimentar na cadeira, até que se levantou. Gadelha conta: “O vocalista perguntou se a paciente queria cantar. Ela, a princípio lentificada e balbuciando, e depois se soltando, cantou a música Malandragem. Não foi curada pelo episódio, embora tenha melhorado. Mas a equipe, que lida com as incertezas de tratar pessoas com quadros mentais muito graves, se entreolhou, como quem percebe que ali tem mesmo uma pessoa que vale a pena ser resgatada. Foi um momento fundamental de conexão.” E brinca: “Antes, para mim, a melhor banda eram os Beatles. Hoje são Os Pitais.”
Depois do episódio, o grupo se apresentou outras vezes no Caism – e o centro incorporou a música como um tratamento auxiliar.
Os Pitais são uma banda sem formação fixa. Reúne músicos tarimbados do rock nacional, de várias gerações, que tocam como se não houvesse amanhã em instituições públicas de saúde, abrigos ou ONGs. Já fez uma centena de shows em São Paulo, para plateias grandes ou com meia dúzia de gatos pingados, para audiências animadas ou desfalecidas. Apresentou-se em pátios de hospitais – diante de pacientes levados para o ar livre em macas, braços conectados a aparelhos de soro. Cantou para crianças em antessalas de quimioterapia. Tocou sob lonas montadas em praças públicas às vésperas do Natal para pessoas em situação de rua. Animou salões enfeitados de centros de acolhimento a idosos, que dançaram formando trenzinhos. Os músicos riram quando pacientes de centros de reabilitação de drogas ameaçaram matá-los se não tocassem aquela do Raul Seixas. Por via das dúvidas, tocaram.
Fazem parte da trupe nomes como o roqueiro Kiko Zambianchi, cujos hits tocam fogo nas plateias; o metaleiro Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, a mais famosa banda de heavy metal brasileira; o cantor e músico André Frateschi, que levanta os shows com interpretações do Legião Urbana. Às vezes, aparecem convidados de última hora, como integrantes das bandas Cachorro Grande ou NX Zero, ou a cantora Zélia Duncan que, em outubro do ano passado, ganhou um bolo de aniversário (ocorrido dois dias antes), depois de cantar para pessoas em situação de rua em uma instituição beneficente.
Todos são arregimentados para as apresentações por meio de um grupo de WhatsApp administrado por Anna Butler, ex-diretora do núcleo de relações artísticas da MTV. Butler criou o projeto meio que por acaso. Em 2016, passou meses acompanhando a mãe na internação de um hospital em São Paulo. Recebeu a visita de Duda Machado e Martin Mendonça, que foram baterista e guitarrista da cantora Pitty.
Os roqueiros chegaram com violões, dispostos a animar um pouco o ambiente. Não puderam entrar no quarto, então tocaram na sala de espera e criaram uma pequena comoção entre os funcionários. “A gente viu aquelas reações e resolveu fazer um show maior por ali, para agradecer à equipe do hospital”, conta Butler. Conseguiram autorização da direção para tocar no pátio, chamaram outros músicos. “E o show deixou todos nós emocionados. Alguma coisa acontece quando você toca nesses ambientes e vê o efeito nas pessoas”, diz Rodrigo Luminatti, cantor, baixista, produtor e um dos voluntários mais assíduos da banda. Depois da apresentação, bebendo no bar da esquina e ainda em estado de graça, os músicos resolveram que fariam outros do gênero. O cantor e apresentador China criou o nome: Os Pitais.
No final da manhã de 17 de janeiro, quarta-feira, Os Pitais foram tocar no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Adulto III – Vila Matilde, na Zona Leste de São Paulo, que recebe pessoas com transtornos mentais graves. A banda chegou com uma formação de sete músicos, entre eles Kiko Zambianchi e Johnny Monster, e gente das novas gerações, como o roqueiro Igor Godoi, da banda Sioux 66, e o cantor Thiago Juliani.
Quando os músicos entraram em uma sala decorada com balões azuis e roxos, já encontraram um pequeno aparato de microfones e caixas, providenciados pelo produtor Flavio Cruz, voluntário da trupe há seis meses. “Acompanhei um show deles na oncologia do Hospital das Clínicas e vi um paciente muito debilitado e emocionado, sendo erguido de uma cadeira de rodas por sua mulher para dançar. Caí no choro e pensei: pode ser a última dança deles. Comecei a ajudar nos shows e continuo chorando em todos.” Antes de cada apresentação, Cruz pede equipamentos emprestados em empresas de produtos para eventos.
Os Pitais já sabem o repertório que funciona para cada tipo de público. No show da Vila Matilde, os pacientes dançaram com Anunciação, de Alceu Valença, e bateram palmas ao ouvir Epitáfio, dos Titãs. Os homens cantaram com vigor Metamorfose ambulante, de Raul Seixas. O show foi encerrado por Kiko Zambianchi, com a infalível Primeiros erros cantada em coro, com alguns pacientes de olhos fechados repetindo o refrão “mas só chove, chove…”.
Zambianchi está entre os mais incansáveis integrantes do projeto. Já foi assaltado no trânsito, a caminho de uma apresentação, mas conseguiu chegar assim mesmo. Depois do show na Vila Matilde, em uma salinha para onde foi levado pela equipe de psicólogas do Caps para comer bolo e, sobretudo, tirar fotos, contou por que é tão assíduo nos shows da banda de voluntários. “Poder tocar para essas pessoas é tão bom que é viciante. Hoje é o meu cachê espiritual.”
Em anos de estrada, Os Pitais foram criando seus frutos. Um deles é o Patfest, festival beneficente de música criado por Andreas Kisser em homenagem à sua mulher, a empresária e produtora Patrícia, que morreu em 2022 em decorrência de um câncer de cólon. Fã do projeto Os Pitais, ela havia pedido para comemorar o fim de sua primeira fase de quimioterapia com uma festa em que eles tocariam. Não deu tempo – Patrícia morreu logo depois.
Nas duas edições do Patfest, entre dezenas de artistas de estilos díspares – como Sandy, Chitãozinho e Xororó, Nando Reis e João Gordo –, a banda Os Pitais subiu ao palco com dez músicos formando um paredão de violões. O festival acabou atraindo mais ajuda para o projeto. Depois dele, um grande escritório de advocacia ofereceu assessoria pro bono para transformar Os Pitais em uma ONG. “A ideia agora é levar o projeto para mais lugares, com frequência maior”, planeja Butler.