poesia
Rodrigo Garcia Lopes Jan 2024 19h10
2 min de leitura
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VERSOS INCERTOS
Que eu saiba, parece.
Pelo sim, pelo não, por exemplo:
vai ver. Certeza.
Nem tudo,
ao que tudo indica, no fundo,
digamos, um dia,
e pronto.
Só que não.
Tomara.
Quem dera.
O sentido é sempre impre-
visível (invisível palavra,
sua máquina do tempo).
Sob a garoa vagarosa do agora
uma vaga vaga vaga.
Toda referência se rarefez
no raro fog dos afetos.
E por acaso, quer dizer, às vezes
ou mesmo antes,
chove uma luz verde, é claro,
que eu saiba, como sempre.
KOAN
Se o primeiro verso
nos dão os deuses
“Névoa matutina”,
“Vulto de montanha”,
Quem dá origem
a este silêncio?
MORPHIA
Do nada, como pequenas ilhas,
as cargas elétricas das sílabas.
Lá fora, a luz feroz.
Aprenda: só se arrependa
do que não se escreve.
O leão do tempo foge, urge.
Hoje ficou tão longe.
O vento sul apressa o amanhecer.
Receba, no afã das coisas breves,
rosas vulgares, visões comuns,
tornados de neve.
GÊNESIS
É assim que tudo começa:
Campo que uma pessoa lavra,
Página branca onde palavras
Vão chegando, sem pressa.
Mostrar, sim, não descrever:
carvão do crepúsculo, praia ocre.
Uma rima bem-feita pode ferver,
fazer brilhar uma linha medíocre.
Quase nunca um verso,
com sua lira nula, absurda,
calcula seu destino adverso.
Não tem ideia onde chafurda
além do instante em que está,
pântano onde insiste, imerso,
bruma que lembra Ishtar.
É como se todo o universo
Se equilibrasse neste espaço
feito de escansão, sentidos e som,
e só restasse ilusão, brancos, cansaço,
os estilhaços de uma canção.
ME, MY SELFIE, AND I
Séculos de poesia pra dar nisso: é o fim.
Cada verso, uma foto de mim mesmo.
Este sou eu, em Berlim, andando a esmo.
Neste em Dublin (ou seria Sarajevo)? Enfim,
O que tenho pra dizer é isso mesmo:
Meus versos viraram meros selfies.