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Bernardo Esteves Fev 2024 17h25
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Um grupo de trabalhadores rurais estava a caminho da roça na região do Pantanal do Paiaguás, em Mato Grosso do Sul, quando se deparou com um tamanduá-bandeira. Ficaram atormentados ao avistar o animal, que alguns acreditam trazer má sorte. Foi mesmo um encontro desafortunado – para o tamanduá. Os agricultores o amarraram a uma árvore e passaram a espancá-lo, imaginando que assim afastariam o mau agouro. A tortura durou três dias, até que o bicho morreu.
Em vários rincões do Brasil, esse mamífero é associado a todo tipo de desgraça. Se um pescador encontra um tamanduá a caminho do rio, dizem que deve desistir da jornada, porque peixe é que não vai pegar. Há quem jure que o bicho é prenúncio de traição amorosa. A reação mais comum dos supersticiosos é desviar o caminho para evitar o tamanduá, mas os mais exaltados apelam para a violência.
A imprensa registrou várias ocorrências Brasil afora em que o bicho foi morto a pauladas ou até amarrado a um veículo e arrastado até morrer. A truculência não é exclusividade brasileira: na Costa Rica, onde os tamanduás-bandeira não são avistados desde os anos 1990, as crendices populares são a causa mais provável de sua extinção.
O relato do tamanduá amarrado à árvore e espancado foi ouvido pela bióloga e ambientalista Mariana Catapani, de 39 anos, que estudou as superstições associadas ao bicho em seu doutorado pela Universidade de São Paulo. A pesquisadora fez centenas de entrevistas com moradores de três municípios do Pantanal sul-mato-grossense para tentar entender como as crenças se perpetuam.
Catapani viu um tamanduá-bandeira pela primeira vez aos 7 anos, no zoológico de São Paulo. Foi amor à primeira vista. “Soube ali que eu queria trabalhar com esse bicho”, lembrou. “Fui estudar biologia por causa disso.” Visitando o Pantanal depois que começou a trabalhar para uma ONG, a pesquisadora ouviu falar pela primeira vez da fama de mau agouro dos tamanduás e decidiu investigá-la: “Me enfiei de cabeça na psicologia cognitiva e na sociologia para tentar entender como essas crenças eram assimiladas pelas pessoas.”
As superstições nascem quando eventos contíguos no espaço e no tempo são associados por alguém, mesmo que não haja qualquer vínculo entre eles. Se o time de um torcedor ganha uma partida difícil, ele pode acreditar que foi por causa da cueca que estava trajando, e dali em diante não vai usar outra roupa de baixo em dia de jogo. O comportamento supersticioso geralmente envolve uma atitude pouco custosa que parece trazer grande benefício: bater três vezes na madeira é um preço barato para evitar a desgraça que se abateria sem esse gesto.
Nem só humanos são supersticiosos, como mostrou um estudo conduzido nos anos 1940 pelo psicólogo americano Burrhus Skinner. No experimento, um dispositivo entregava comida para pombos em cativeiro a cada quinze segundos, acontecesse o que acontecesse. Com o tempo, várias aves desenvolveram comportamentos ritualizados, como girar em sentido anti-horário ou inclinar a cabeça, como se fosse aquele gesto o responsável pela aparição do alimento.
Não é possível cravar de onde vem a má fama do tamanduá, mas Catapani suspeita que as características únicas da espécie estejam por trás da superstição. “É um bicho muito diferente”, disse a bióloga. “Quando você o vê de longe, não sabe se ele está indo ou vindo.” Um ponto que deixa as pessoas com a pulga atrás da orelha é o fato de não ser possível distinguir machos e fêmeas a olho nu. Por causa disso, há quem ache que eles são hermafroditas, ou que se reproduzem com seu peculiar focinho. O narigão ajuda o animal a ingerir dezenas de milhares de formigas e cupins por dia, mas não tem função sexual.
Há outros elementos que suscitam desconfianças. As pegadas do tamanduá se parecem com as de crianças – daí a acreditarem que ele devora os pequeninos é um pulo. Seus olhos não têm o chamado tapete lúcido, uma membrana que reflete a luz, e por isso não brilham à noite. “Há quem chame o tamanduá de animal fantasma, que aparece do nada”, disse Catapani. “Por tudo isso, ele entra na cabeça das pessoas como um bicho realmente muito estranho.” A pesquisadora concluiu que o comportamento e a anatomia do bicho despertam desconforto psicológico em algumas pessoas, sentimento que alimenta crenças supersticiosas.
Em seu estudo, publicado em dezembro de 2023 na revista especializada People and Nature, Catapani afirma que a influência social é um fator importante no reforço da superstição. Quem convive com gente que acredita no mau agouro do tamanduá tem mais chance de disseminar a crendice. Outro elemento central é o desconhecimento: “Quanto mais a pessoa acha coisas erradas sobre o tamanduá-bandeira, maior a chance de acreditar que ele traz má sorte”, afirma a bióloga.
Dentre as pessoas entrevistadas por Catapani, nenhuma disse que avistar um tamanduá inspirasse ganas de matá-lo, mas uma em cada dez admitiu que tinha ímpeto de bater no bicho para espantar os maus eflúvios. A superstição representa um perigo para a espécie, que é considerada vulnerável no Brasil. “É uma ameaça importante para o tamanduá-bandeira, mas não a principal”, esclareceu a bióloga. O perigo maior vem da destruição do hábitat do animal pelos humanos.
É preciso cautela para combater a superstição. “Quanto menos a gente disser que o tamanduá traz má sorte, melhor”, disse Catapani. Isso porque a simples menção do mau agouro do animal – mesmo que para desmentir essa crença – pode incorporar a ideia ao repertório de uma pessoa. “Se um dia ela encontrar um tamanduá e algo ruim acontecer, é o suficiente para relacionar os dois eventos”, explicou a bióloga. Em vez disso, o mais recomendável é investir num maior conhecimento do bicho. Cartilhas com informações que desmistifiquem as esquisitices do tamanduá – seus olhos, suas pegadas, sua diferenciação sexual – são mais eficientes para desbaratar temores infundados.
A estratégia pode ser útil também para a conservação de outras espécies cercadas pela superstição, como corujas, morcegos, hienas. Para Catapani, o segredo é naturalizar o comportamento dos animais sem perpetuar a superstição. “Sair falando que qualquer bicho traz mau agouro não é uma boa estratégia de conservação.”