esquina
Tatiane de Assis Mai 2024 18h54
4 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Na fachada pintada de preto, destaca-se um logotipo na cor branca, formado por dois bigodes desenhados à maneira de arabescos. No meio deles, está o nome do estabelecimento: Josyas Barbershop. A barbearia de Josyas Silva Mendes, de 46 anos, fica no Jardim Vergueiro, na periferia de São Paulo, mas costuma receber pessoas famosas, como Mano Brown, que foi lá pela primeira vez em 1997.
“Ele veio numa Bonanza que tinha, uma picape preta”, lembra o barbeiro. “Juntou um monte de gente na rua, querendo tirar foto porque era também o ano de lançamento do Sobrevivendo no inferno, o disco importante dos Racionais MC’s.” No primeiro contato, o rapper, desconfiado, fez só o pezinho. Uma semana depois, voltou para o corte completo.
Mendes conta que Brown é vaidoso: quando está em São Paulo, vai à barbearia dia sim, dia não, mesmo agora, que está com tranças. “É um cara que gosta de estar sempre alinhado, na régua”, elogia.
O barbeiro também já cuidou das madeixas de outros dois músicos, Jorge Ben Jor e Seu Jorge, do ator Caio Blat e de Guilherme Boulos, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo Psol.
Blat foi levado pelo maquiador Marcos Freire para fazer a caracterização de Marco Aurélio (Macu), seu personagem no filme Bróder (2010). “Era um corte todo raspado na máquina 1, com um talho de navalha fazendo um traço, como se estivesse dividindo o cabelo de lado”, descreve Blat. O ator diz que, com esse “corte de quebrada”, foi discriminado em um restaurante do bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo. Quando contou o episódio para Silvio Guindane e Jonathan Haagensen, seus colegas negros no filme, eles responderam, sem espanto: “Bem-vindo ao clube.”
Blat curtiu o clima da Josyas Barbershop: “Eu lembro que a gente ficava ali conversando, cortando cabelo e ouvindo um rap. Era tipo um ritual.” Característica do local, a música preenche uma lacuna aberta na vida familiar de Mendes. “Minha mãe é evangélica. Lá em casa não tinha como rolar o disco dos Racionais. Então, rolava na barbearia”, diz ele, que também é evangélico, mas de uma denominação liberal: frequenta a Igreja Betesda, conhecida por acolher o público LGBTQIA+.
O salão da Josyas Barbershop tem uma decoração retrô, com quinze confortáveis cadeiras de couro marrom. Um mural do artista Michel Onguer mostrando uma paisagem de casas simples decora uma das paredes. Ladeando os espelhos, há um paredão preto com fotos de personalidades admiradas pelo proprietário, quase todos negros: Martin Luther King, Malcolm X, Angela Davis, Jorge Ben Jor e, claro, Mano Brown. Entre os poucos brancos, estão Lula, Dilma Rousseff e o compositor Flávio Venturini.
Como revelam as fotos, Mendes é um homem de esquerda. Sua posição política, tal como a fé, vem da família – neste caso, não da mãe, Carmelita, mas do pai, Júlio Francisco Mendes. Hoje com 81 anos, Júlio mudou-se aos 18 anos de Jaicós, no Piauí, para Santos. Depois, foi para São Paulo, onde trabalhou como metalúrgico por doze anos e participou da organização de greves. “Meu pai sempre foi comunista, um guerreiro”, diz o filho. “Ele foi a minha faculdade.”
No interior da barbearia, uma área com pé-direito alto foi configurada como uma pequena praça, batizada de Sérgio Vaz, em homenagem ao escritor que fundou o Sarau da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa). Ali fica um conjunto de estantes baixas repletas de livros que os moradores do bairro podem pegar emprestados. O estabelecimento – que Mendes toca com um sócio, Luiz Fernando Gualberto – inclui ainda salas para pedicure e massagem, uma hamburgueria e uma loja de roupas, em áreas alugadas para profissionais autônomos.
Mendes calcula que realiza até duzentos cortes por semana, ao custo de 50 reais (masculino) e 60 reais (feminino), cada. Para seu trabalho, desenvolveu uma habilidade de entrevistador: entende o corte desejado pelo cliente perguntando sobre preferências musicais, história de vida e profissão.
O serviço rápido é um diferencial da Josyas Barbershop: o corte de cabelo é feito em 15 minutos. “Todo mundo que trabalha aqui foi treinado para isso”, diz ele. Mas o estilo importa tanto quanto a rapidez. “Eu trouxe para as quebradas os cortes afro com inspiração americana que só faziam nas barbearias do Centro de São Paulo.” Ele dá exemplos desses cortes: “Um pezinho bem desenhado, ou o fade [degradê] do Will Smith, no filme Bad Boys.” O estilo do próprio barbeiro é outro: tem as laterais do cabelo raspadas e dreads grisalhos, presos no alto da cabeça.
Ele sabe o dia exato em que fez seu primeiro corte: 7 de maio de 1993. Tinha 15 anos, e sua irmã se casaria no dia seguinte. A mãe costumava cortar o cabelo dos seis filhos, mas naquele dia estava muito atarefada, ocupada com o casamento. Mendes foi então designado para cortar o cabelo do irmão mais novo, Jaílson, com 8 anos. Pegou uma tesoura de corte e costura emprestada pela vizinha, um pentinho fino – daqueles que se usa para tirar piolhos – e foi ao trabalho.
O corte saiu bonito, embora ele não tivesse até então feito qualquer curso ou treinamento. Como muita gente gostou, logo Mendes estava cortando o cabelo dos vizinhos no quintal de sua casa. No ano seguinte, abriu o primeiro salão – na verdade, uma salinha de 2 m2. Nem podia imaginar então que, um dia, seria o barbeiro de Brown, Blat e Boulos.