questões vultosas
Fernando de Barros e Silva Abr 2024 17h21
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Há quase trinta anos, em agosto de 1994, a atriz Ruth Escobar organizou um jantar só para mulheres em torno da antropóloga Ruth Cardoso, que dali a poucos meses se tornaria a primeira-dama do Brasil. As duas Ruths tinham posições avançadas e eram, cada uma a seu modo, figuras proeminentes da elite intelectual do país.
Escobar havia transformado o teatro que leva seu nome, em São Paulo, num centro de resistência à ditadura. Foi lá, em julho de 1968, que o Comando de Caça aos Comunistas depredou as instalações e espancou os atores que participavam da peça Roda viva, de Chico Buarque. Cardoso, por sua vez, foi das primeiras intelectuais a perceber a importância dos movimentos sociais nos anos 1970 e teve atuação decisiva para consolidar a área de estudos antropológicos no Cebrap, uma das principais trincheiras do pensamento crítico e de oposição ao regime militar no país. Em 1996, já primeira-dama, Ruth Cardoso defendeu a descriminalização da maconha num programa de tevê.
Se tivesse ocorrido hoje, o jantar seria tratado nas redes bolsonaristas como uma festa escandalosa de feministas conspirando contra os valores da família brasileira. O encontro, no entanto, entrou para a história daquela campanha presidencial por outra razão.
A certa altura, Ruth Escobar disse às presentes que havia escutado dias antes de Arnaldo Jabor a seguinte definição sobre a disputa em curso: o país estaria diante da escolha “entre Sartre e um encanador”. Nosso Sartre, no caso, seria Fernando Henrique Cardoso – uma analogia capenga, já que FHC, àquela altura, estava mais para Norberto Bobbio ou Raymond Aron. Mas esse era o menor dos problemas. A caracterização de Lula como “encanador”, além de equivocada (ele era torneiro mecânico), expunha um constrangedor preconceito de classe do cineasta egresso do Cinema Novo contra o peão do ABC.
A boutade de Jabor divulgada por Ruth Escobar desencadeou uma série de polêmicas nos jornais, mas a melhor reação veio do próprio Lula, que disse ter gostado da comparação, já que um país poderia perfeitamente viver sem sociólogos, mas não sem encanadores.
O episódio perdido no tempo me veio à memória recentemente, quando Lula falou que Fernando Haddad, “ao invés de ler um livro, tem que perder algumas horas conversando no Senado e na Câmara”. Nas duas ocasiões, o petista faz o elogio da vida prática em detrimento da ociosidade da vida intelectual. Em 1994, no entanto, a resposta a Jabor era brilhante porque desarmava a estupidez elitista dos tucanos bem-pensantes, como se dissesse “vocês são sabidos, mas o problema do país é mais embaixo e disso quem sabe sou eu”. A cobrança a Haddad, pelo contrário, soa como simples grosseria, como se Lula rendesse, ele próprio, sua homenagem à estupidez do atual momento histórico. A legenda da frase seria mais ou menos a seguinte: “Nós somos sabidos, mas o problema do país agora é mais embaixo, e disso quem entende de verdade é o Centrão de Arthur Lira.”
No mesmo dia 22 de abril, enquanto em Brasília Lula passava seu pito em Haddad ao convocá-lo a participar mais de perto do problema crônico da articulação do governo com o Congresso, ambos – Lula e Haddad – apanhavam juntos em São Paulo, num seminário promovido pela Esfera Brasil, um think tank que se diz “independente e apartidário”, um pouco à maneira de Gilberto Kassab.
Foi nesse seminário, pela manhã, que José Dirceu disse que o governo Lula não é de centro-esquerda, mas de centro-direita. A quem se espantou, explicou que “essa é uma exigência do momento histórico e político que vivemos” e aproveitou para desfazer o falso clichê de que Lula seria corresponsável pela polarização do país. O Brasil está radicalizado, disse Dirceu, por causa do discurso que foi feito na orla de Copacabana por Bolsonaro e seus apoiadores, uma mistura de fundamentalismo religioso e ataque à democracia.
A tônica do encontro, no entanto, foi outra. Ela pode ser resumida pela mesa de encerramento, o grand finale, quando subiram ao palco os governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e Ronaldo Caiado, de Goiás, acompanhados pelo jornalista William Waack, da CNN Brasil. Alguém poderia pensar: bons tempos aqueles em que o partido de Sartre representava o polo conservador da modernização brasileira. Os intelectuais da nova direita são outros.
Waack deu o tom logo de cara, apresentando os entrevistados como “dois personagens políticos que tenho o prazer de ter um contato sempre muito próximo”. Nem precisou de ensaio, os três encenavam a mesma peça em três atos. No primeiro, instados a discorrer sobre os problemas do país, ambos os governadores atacaram a política fiscal do governo Lula (que Caiado chamou de “desastre”) e ambos elegeram a segurança pública como área prioritária (“o crime organizado é o grande câncer do Brasil”, disse Tarcísio).
Preparado o terreno, vem então o segundo ato: “Quem é o maior líder político hoje no Brasil?”, pergunta Waack. Bolsonaro, Bolsonaro, dizem os governadores. “Indiscutivelmente ele é a maior liderança que tem no país” (Caiado); “É um fenômeno, é o maior líder político brasileiro” (Tarcísio). Os elogios se multiplicam, sempre relacionados à capacidade de mobilização popular do ex-presidente. Estranhamente, ninguém menciona sua responsabilidade no golpe de Estado frustrado de 8 de janeiro. Esqueceram também dos crimes cometidos na pandemia, outro detalhe chato.
Feitos o ataque a Lula (o democrata) e a apologia de Bolsonaro (o golpista), o terceiro e derradeiro ato foi o desdobramento da farsa: a polarização entre esses dois personagens é perigosa e perniciosa, diz o apresentador, mas como sair dela e se abrir para o centro, pergunta em seguida, sem enrubescer.
Fiquemos com a resposta de Tarcísio, já que Caiado, apesar da pavonice aguda, é coadjuvante nessa história. Depois de se colocar no campo da centro-direita, o que é um autoengano, provavelmente calculado, Tarcísio diz que a responsabilidade para romper a polarização é de todos – do Judiciário, do Parlamento, da mídia. Waack então pergunta se ele se refere ao STF ao falar do Judiciário, e a reposta é sim: “A gente tem que ter uma porta de saída, a gente não pode mais conviver com a pressão que existe, está na hora de começar a descomprimir, está na hora de começar a ser razoável”. Tarcísio parece ter ficado a meio passo de defender a anistia aos vândalos golpistas, como faz seu líder. Fim do espetáculo.
Impossível saber hoje se Tarcísio será mesmo candidato à Presidência. Há entre seus apoiadores quem defenda que ele deve buscar a reeleição praticamente certa em 2026 e se guardar para 2030. Mas é certo que Tarcísio está agindo como pré-candidato à Presidência e que já tem boa fatia do PIB ao seu lado. O comportamento dele e da plateia presente ao convescote da Esfera Brasil mostram que o preferido de Bolsonaro já foi incorporado ao establishment como uma alternativa de… centro para… “romper a polarização”!
Primeiro, a pessoa tem que escolher se quer ser apadrinhada por Bolsonaro ou se comprometer com a democracia. São coisas incompatíveis – e Tarcísio já parece ter escolhido seu lado. Segundo, a polarização é uma falácia. Virou ferramenta retórica a serviço da demagogia para nomear o que, em geral, é apenas antipetismo.
O que existe no Brasil há pelo menos dez anos, quando Aécio Neves questionou na Justiça Eleitoral a derrota para Dilma Rousseff, é um processo de erosão da democracia. Processo que veio acompanhado pelo crescimento das direitas e pela constituição de uma direita extrema e autoritária, que elegeu um presidente em 2018 e segue muito atuante, social e politicamente. O centro de gravidade da política mudou. A correlação de forças não é desfavorável a Lula apenas no Congresso. A sociedade se inclina para o conservadorismo e a mídia, que só episodicamente foi progressista no Brasil, engrossa o coro repetindo diariamente a farsa da polarização. Não será surpresa se aparecer qualquer dia por aí um desses Willians Waacks dizendo que o país em 2026 estará diante de uma escolha muito fácil, entre o “engenheiro de bem” e o “encanador ladrão”.