esquina
Tiago Coelho Jun 2024 17h00
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Em abril, a cacica Talcira Gomes, do povo Guarani Mbya, saiu da aldeia Pará Rokê, no município de Rio Grande, para visitar um tio em outra aldeia no pampa argentino e passar por um ritual de cura espiritual. A indígena de 61 anos estava deprimida com a morte da mãe. “Fui para me fortalecer e, no ritual, foi revelado que uma grande tragédia se aproximava. Então voltei para o Brasil.”
Ela chegou no dia 28 de abril e foi a uma reunião de mulheres numa aldeia em Lomba do Pinheiro, na Zona Leste de Porto Alegre. No caminho, viu os rios sujos que cortam a capital. “Chorei ao ver a água cheia de lixo”, conta. “Ela estava pedindo socorro para Nhanderu [o ser criador na cultura tupi-guarani].”
Alertada sobre a tempestade que viria, a cacica acendeu uma fogueira na aldeia de Lomba do Pinheiro e botou a erva-mate para queimar, a fim de “acalmar a tempestade”, como ela diz. Mas, uma semana depois, Porto Alegre estava debaixo d’água. “Tupã veio estourando tudo, com raios, estalos e uma chuva que não parava.”
A enchente destruiu os acessos à comunidade de Gomes, no município de Rio Grande. A cacica buscou abrigo na casa de um de seus sete filhos, em uma aldeia em Viamão, na Grande Porto Alegre – e tornou-se uma refugiada climática.
De Pará Rokê, o filho cacique Gildo Gomes da Silva, avisou que a aldeia não havia alagado, mas que a chuva arrebentara o telhado da casa modesta de sua mãe, molhara todos os móveis, matara as galinhas e destruíra a plantação.
O Rio Grande do Sul tem uma população de 36 mil indígenas – a maior entre os estados da Região Sul. São quatro povos: Guarani Mbya, Kaingang, Xokleng e Charrua, espalhados por 140 territórios. Uma articulação de conselhos e comissões indígenas afirmou que oitenta comunidades foram afetadas pela chuva, sobretudo as da Região Metropolitana de Porto Alegre, próximas ao Lago Guaíba.
Agora, os indígenas gaúchos que não vivem em terras demarcadas – caso de Gomes e dos habitantes de Pará Rokê – temem que suas comunidades sejam removidas sob o pretexto do desastre climático. Em 8 de maio, retroescavadeiras do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) derrubaram parte da aldeia do Arroio da Divisa, em Eldorado do Sul. Os indígenas não foram consultados sobre a destruição de suas moradias, e antes que ela começasse foram levados para um abrigo. A justificativa do Dnit foi que a demolição visava melhorar o tráfego na região, depois das enchentes. Mas os indígenas não acreditaram na explicação.
Os quilombolas também estão preocupados – e têm respondido ao desastre climático com organização comunitária. Porto Alegre abriga 11 dos 146 quilombos autoidentificados do estado.
Membro da Frente Quilombola do Rio Grande do Sul, Mestre Onir de Araújo, de 64 anos, vive no Quilombo dos Alpes, no bairro de Cascata, que não foi atingido pelas águas. Em 3 de maio, um dia crítico da inundação, ele foi até o Quilombo dos Machado, na Zona Norte de Porto Alegre, para se reunir com outras lideranças. A reunião ocorreu lá porque o território está em posição estratégica, cercado por vários bairros periféricos de população negra e próximo de dois quilombos também afetados pela cheia e de um terceiro que ficou completamente isolado pelas águas. Com 270 famílias – das quais 25 são de imigrantes haitianos –, o Quilombo dos Machado foi inundado apenas parcialmente.
As lideranças organizaram a busca de doações e mobilizaram motoristas para transportar as pessoas até hospitais, abrigos e quilombos em áreas seguras. A primeira providência, conta Mestre Onir, foi acalmar os moradores, alarmados por notícias falsas a respeito das enchentes. “Era preciso segurar o desespero para garantir a organização dos nossos e oferecer contenção aos irmãos que necessitavam de nós”, diz.
O boato de que um dique na região havia se rompido circulou pelos celulares. “Na verdade houve apenas um extravasamento”, esclarece Mestre Onir. Hidrólogos foram consultados e explicaram que os quilombos não corriam risco direto. “Não fosse nosso senso comunitário, eles teriam desarticulado nosso território. Não vamos admitir que utilizem essa tragédia, que é responsabilidade deles, para aprofundar nosso genocídio.”
A comunidade quilombola montou duas cozinhas comunitárias que oferecem, cada uma, trezentas marmitas por dia. Mestre Onir reclama da dificuldade de receber repasses do governo. “O acesso a recursos federais não enxerga a especificidade dos territórios quilombolas e indígenas. É uma burocracia imensa”, diz. “Isso é uma forma de racismo institucional que beneficia apenas negros ou indígenas de partidos ou ONGs aliadas ao governo.”
O líder quilombola afirma que a comunidade vai lutar para que as políticas públicas passem pelo crivo das comunidades, que também reivindicam a titularização imediata dos territórios, a reconstrução das casas e a distribuição de cestas básicas para as famílias afetadas pela enchente. A perda cultural e religiosa foi uma das mais lamentadas. “Quatro terreiros foram destruídos. Foi uma das coisas mais tristes ver terreiros antiquíssimos, como o de Mãe Catarina, em ruínas.” Mestre Onir acredita que tempos difíceis estão por vir: “Este é um ano de Exu. E Exu primeiro bagunça para depois apresentar novos caminhos.”
O cacique Vherá Poty, que vive em uma aldeia no município de São Gabriel, relata que os indígenas costumam ouvir dos moradores da cidade que seus territórios são atrasados, pois não contam com asfalto e outras comodidades urbanas. A cidade foi alagada, mas a aldeia não. O cacique lembra que seu povo tem “todo um cuidado com os rios” e as florestas que os cercam. “Só que os agricultores que plantam arroz e trigo e criam gado não têm o mesmo zelo com a natureza.”
Talcira Gomes alerta que a comida – mandioca e algumas galinhas – está se esgotando na aldeia da Estiva, em Viamão, onde ela vive provisoriamente. Diz que o povo não tem recebido ajuda do governo.
Em meados de maio, ela também se preocupava com as águas que descem do Guaíba para a Lagoa dos Patos. Sua aldeia, Pará Rokê, fica nessa região e agora corria o risco de ser alagada. “Cada coisa na natureza tem seu espírito. Água fala, árvore fala, a gente tem que respeitar”, diz a cacica. “O guarani entende isso e alerta diruá [homem branco]. Mas diruá não sabe nada, não vai entender nada dessa tragédia.” Perguntada se acha que as enchentes são um aviso para os diruás, ela responde em tom grave: “Não é que eu acho: tenho certeza que é um aviso.”