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Maria Júlia Vieira Jun 2024 17h17
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Foram meses de preparativos para a homenagem anual à Iansã, realizada no Ilê Axé Oyawoyê, um terreiro em São Leopoldo, município a 35 km de Porto Alegre. Desde a confecção das roupas até a feitura dos alimentos sagrados, tudo foi pensado nos mínimos detalhes para celebrar os 34 anos de dedicação da ialorixá (mãe de santo) Mãe Bel D’Oya à Rainha dos Ventos. No último 20 de abril, em consonância com o axé – força vital que une a todos, segundo o candomblé –, o Sol brilhou.
A celebração dura dias e para concluí-la, de acordo com as regras da religião, tudo que é orgânico deve ser devolvido à natureza. Foi por esse motivo que Thiago D’Ossain – filho da ialorixá – conduziu sua família de santo ao Rio dos Sinos, a 1 km do terreiro. “Foi a penúltima vez que vimos o rio. Na última, ele nos engoliu”, recorda D’Ossain, que se chama Thiago Passos dos Santos e é auxiliar administrativo, produtor cultural e membro do Conselho Municipal de Povos Tradicionais de Matriz Africana de São Leopoldo.
Em 4 de maio, depois de dias de chuva incessante, o Sinos inundou o terreiro. No dia anterior, D’Ossain havia se refugiado com a família no ilê, que também é a casa de sua mãe. “O apartamento que financiei com minha esposa fica em Canoas. Lá é térreo, alagou bem antes”, ele diz.
O rio subiu rapidamente. Mãe Bel D’Oya conta que, às 15h30, ela e sua família começaram a carregar os instrumentos e indumentárias sagradas para os lugares mais altos do terreiro, para que não fossem atingidos pela enchente. De nada adiantou: “Às quatro e vinte da tarde, a água já estava entrando pela janela. Tudo havia sido tomado.” As casas vizinhas tinham sido evacuadas. Bairro e rio eram uma coisa só. Ainda assim, a ialorixá resistia em deixar seu espaço sagrado. Quando afinal chegaram ao portão de ferro que separa o terreiro da rua, a água já alcançava o queixo das pessoas. A correnteza era forte: mãe, pai, filho, filha, genro, nora e neta não sentiam o chão sob seus pés.
Dois barcos apareceram, mas a matriarca achou que não teria forças para alcançar o socorro. No momento certo, sua nora, Priscila Alves da Silva, de 38 anos, agarrou-a por trás e a impulsionou para dentro da embarcação. “Iemanjá na minha vida”, agradece Mãe Bel D’Oya. “Minha nora ajudou um por um: minha filha grávida, Thiago, que havia feito uma cirurgia, minha neta. Ela foi a última a subir.” Não à toa, lembra a ialorixá, no candomblé o nome de Priscila é sucedido por D’Iemanjá. Sua nora é filha da Senhora das Águas.
Dos 217 mil habitantes de São Leopoldo, 180 mil – mais de 80% da população – foram diretamente atingidos pela enchente. Doze mil pessoas estavam desabrigadas e seis mortes haviam sido registradas até o fechamento desta edição.
Embora ainda não tenha conseguido voltar ao terreiro, que continua alagado, D’Ossain acredita que quase tudo foi perdido. O material dos instrumentos é perecível. As ervas são sensíveis. As páginas dos livros da recém-inaugurada biblioteca afrocentrada, quando molhadas, se desfazem. O terreiro, que é composto por barracão, cozinha e plantação, tem também um quarto para cada orixá. Tudo debaixo d’água.
“Eu não estou preocupada com a minha casa. Eu estou extremamente triste e preocupada com o meu orixá”, diz Mãe Bel D’Oya. “Nosso espaço está em uma área pobre, próxima ao rio e a uma zona de prostituição com muitas pessoas LGBTQIA+. Lá, eu alimento, abrigo e recebo cada um com amor. Sem essa estrutura de cozinha e banho, como faremos?”
A ialorixá anda angustiada com a interrupção dos projetos desenvolvidos no terreiro, como o “varal solidário”, no qual sua família de santo angaria doações de roupas para distribuir na comunidade. As crianças recebem aulas de atabaque e danças afro no ilê. Festivais de música, debates e aulas sobre cultura e religião são organizados ao longo do ano. Divulgados pelo Instagram, esses serviços são todos gratuitos. “Eu me sinto numa areia movediça. A minha estrutura espiritual é o que me acalenta e me abraça”, diz Mãe Bel D’Oya, que agora busca reunir forças – e verbas – para a reconstrução. Perder os instrumentos dos ritos sagrados, os livros e as ervas é para ela perder-se de si mesma.
O Rio Grande do Sul, onde quase 80% da população é branca, abriga uma vasta quantidade de terreiros e cultos com raízes afro-brasileiras. Mais de 60 mil casas de axé foram contabilizadas no estado pelo IBGE no Censo de 2010 (os dados sobre religião do censo mais recente ainda não estão disponíveis). As religiões mais comuns são o batuque, uma prática sincrética que mescla elementos europeus e africanos, e a umbanda. O candomblé tem menos adeptos.
Em São Leopoldo, cidade considerada o berço da imigração alemã no Brasil, o Ilê Axé Oyawoyê é o último – e único – terreiro ketu. Entre as diferenças com outras linhas do candomblé, está o maior rigor com os elementos presentes nos rituais. D’Ossain – regido por Oxóssi, pai das plantas sagradas e milagrosas – explica que, na sua fé, desgraças como a que ocorreu no estado não são castigos divinos: “Orixá não pune ninguém. Toda essa tragédia é consequência das ações humanas.”
Até porque, para a continuidade do candomblé, o equilíbrio entre homem e natureza é indispensável. Fauna e flora precisam ser preservadas. Uma das máximas da religião, na língua iorubá, é Kosi ewé, kosi Òrìsà (Sem folha, não há orixá). Da colheita no mato até o seu preparo, as ervas sagradas são acordadas, rezadas e cantadas. A canção composta por Gerônimo e Ildásio Tavares e consagrada na voz de Maria Bethânia confirma: Sem folha não tem sonho. Sem folha não tem vida. Sem folha não tem nada.