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A BUSCA DE UM HERDEIRO

Maior museu de xilogravura do Brasil pode desaparecer
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O professor aposentado Antonio Costella andava inquieto naquele começo de abril, preocupado com uma carta que iria escrever para a presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Fernanda Castro. Ele precisava enfatizar na mensagem a importância e a singularidade do Museu Casa da Xilogravura, que fundou em 1987, em Campos do Jordão. O professor de 81 anos também queria chamar a atenção de Castro para uma situação crítica: se não forem tomadas providências, o maior museu do país dedicado à xilogravura corre o risco de desaparecer.

O museu fica em frente à casa onde Costella vive com sua mulher, a arte-­educadora Leda Campestrin. É um casarão centenário de estilo normando, com as obras expostas em mais de trinta cômodos. As gravuras são a maioria dos itens de um acervo de mais de 8 mil peças, que inclui ainda livros raros e um linotipo antigo de quase 1 tonelada.

As obras oferecem um panorama da história da xilogravura no Brasil e até no exterior. As joias do museu são os trabalhos de Lasar Segall, Emílio Goeldi e Aldemir Martins, além de um livro de litogravura de Tarsila do Amaral, que se dedicou pontualmente a esse tipo de trabalho. Uma gravura de 11 metros de comprimento feita pelo brasileiro Eduardo Ver é um dos atrativos mais curiosos.

Vinte anos atrás, Costella recebeu o diagnóstico de câncer de pele. Teve certeza de que iria morrer. Como não teve filhos, fez na época um testamento destinando todo seu acervo à USP, onde foi aluno e professor na Escola de Comunicações e Artes. Contou com o apoio do então reitor, Adolpho Melfi, que homologou os trâmites para o aceite.

Além do acervo de gravuras, Costella destinou à universidade, no mesmo testamento, o casarão onde fica o museu, construído nos anos 1920 para abrigar um mosteiro. Em contrapartida, a universidade, deveria manter as características originais do imóvel e assumir todos os custos de manutenção. A partir de então, o Museu Casa da Xilogravura hospedou artistas e pesquisadores ligados à USP, antecipando o dia em que a universidade passaria a administrá-lo.

O câncer foi superado, mas Costella sofre hoje de sérios problemas renais. Por causa dessa situação delicada, em outubro do ano passado, ele e sua mulher reuniram-se com o atual reitor da USP, o médico Carlos Gilberto Carlotti Junior, para pleitear a antecipação da doação, passando as funções administrativas para a universidade. A resposta foi negativa.

Frustrado, Costella retirou a USP do testamento e agora deposita suas fichas na União. “O pessoal do Instituto Brasileiro de Museus vai levar a sério”, conjectura. “A doação do acervo e do imóvel é uma forma de preservar a configuração da casa e a organização em que estão as coisas. Se doasse apenas a coleção, a cidade perderia um dos poucos espaços culturais que tem.”

Ele não cogita transferir o museu para outro lugar, pois isso “descaracterizaria o projeto”. Também não quer passá-lo para a iniciativa privada. “Me interessa que isso tudo vá para o povo.” A USP informou, em nota à piauí, que, como não tem atividades na cidade de Campos do Jordão, a administração do museu “implicaria maiores investimentos”.

A vida profissional de Costella dividiu-se entre o mundo jurídico, co­mo procurador da Prefeitura de São Paulo, e a vida acadêmica. Autor de O controle da informação no Brasil (Vozes), entre outros livros, foi uma referência no ensino de comunicação na USP, com relevantes pesquisas sobre liberdade de imprensa quando o país vivia sob uma ditadura. Em meados dos anos 1970, querendo amenizar a rotina pesada de trabalho, ele largou o ofício jurídico e passou a se dedicar apenas à universidade.

Costella também decidiu realizar um desejo antigo. Ele tinha forte inclinação para o desenho e, no começo da década de 1980, resolveu fazer um curso de tipografia no Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo. Foi assim que se apaixonou pela xilogravura e se tornou um colecionador desse gênero artístico “menosprezado”, segundo ele. “Acham que é uma arte menor, porque é reprodutível em larga escala. Mas cada impressão, em detalhe, é diferente. Além do que, a xilo tem um apelo que nenhuma outra arte tem: é popular.”

Durante suas viagens pelo país, o professor passou a pesquisar a produção brasileira, desde as impressões populares, como os cordéis, até os trabalhos de artistas consagrados. Seu objetivo era tentar entender o Brasil pelos veios da xilogravura, que é feita a partir de entalhes em uma peça de madeira, sobre a qual se deposita a tinta que permitirá a reprodução da obra.

Em 1978, ele comprou a casa de Campos do Jordão, onde passou a guardar o acervo e também sua volumosa biblioteca. Nove anos depois, converteu parte da casa – garagem, quarto de serviço e quarto de despejo – nas primeiras áreas de exibição. “Como colecionador, queria expor as obras que comprava e ganhava”, diz. Anos depois, Costella se mudou para o imóvel onde vive hoje, do outro lado da rua, e transformou a antiga residência no Museu Casa da Xilogravura.

Único membro brasileiro da Associação Europeia de Museus de Impressão, o museu foi sustentado durante muitos anos por uma editora criada por Costella, a Mantiqueira, de linha editorial bastante eclética – publica desde livros infantis até obras sobre arte e ciência.

O best-seller da casa foi escrito pelo próprio Costella: Patas na Europa, um curioso relato da viagem de carro que ele fez na Europa, em meados dos anos 1990, junto com a mulher e o cachorro Chiquinho. Como é o cão que conta as peregrinações da família, o livro chamou a atenção até de Jô Soares, que entrevistou Costella em seu programa. As vendas de Patas na Europa pagaram por um bom tempo os custos do museu, que atualmente chegam a 15 mil reais mensais.

Hoje, no pátio central, há um memorial dedicado ao cachorro, com a efígie de Chiquinho desenhada pelo chargista Baptistão, que foi aluno de Costella. É um canteiro florido e bem cuidado, onde repousa o velho amigo. “Uma condição é pétrea: quem herdar o museu, não pode mexer no túmulo do Chico”, diz Costella. “Quando escrevi o testamento, deixei isso esclarecido. Afinal, a xilogravura brasileira deve muito a ele.”


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