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GUIA DO COLECIONISMO

A inglesa que se tornou a art advisor do momento
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Art advisor é uma profissão relativamente nova no mundo da arte. A figura do especialista que ajuda colecionadores a entender tendências de mercado e a escolher os artistas e obras nos quais investir emergiu nos anos 1980 e ganhou tração nas décadas seguintes. Aos 28 anos, a inglesa Adefola­kunmi Adenugba já é uma expoente da área. Neste ano, seu nome foi incluído na Forbes Under 30, a sempre muita discutida lista de profissionais notáveis na faixa dos 20 e poucos anos, elaborada pela revista Forbes.

Fola, como é conhecida no meio, entrou na lista não só por sua expertise, mas por ter criado um negócio singular: a Ise-da (pronuncia-se “ichêda”), uma plataforma para estimular pessoas negras a colecionarem obras de arte. O nome do negócio vem do iorubá e tem diferentes significados, que em conjunto parecem sintetizar a conjunção de sensibilidade, conhecimento e tino para negócios que se espera de quem orienta colecionadores: criação, origem, natureza, bom trabalho, responsabilidade.

O pai da art advisor é nigeriano. A mãe nasceu na Inglaterra, mas viveu na Nigéria. Em meados dos anos 1990, o casal se estabeleceu em Londres, onde Fola nasceu. Aos 16 anos, a família se mudou para a Suíça, e foi lá que ela concluiu o ensino médio. Nessa época, seus irmãos mais velhos – um casal de gêmeos – faziam faculdade nos Estados Unidos, e Fola logo tomaria o mesmo caminho. Hoje, mora em Nova York.

Fola começou a planejar sua plataforma para colecionadores negros em 2015, mas só fundou o negócio em 2020. No meio-tempo, foi adquirindo experiência e tateando seu caminho entre as incertezas próprias de quem é tão jovem. “Eu tinha cerca de 19 anos quando fiz um estágio no High Museum, em Atlanta. Não tinha muita ideia sobre com que trabalharia no mundo da arte e pensava que a curadoria poderia ser um caminho”, conta.

Em outro estágio, agora na National Gallery of Art, em Washington, ela consolidou seu interesse em temas como afrodiáspora, cultura negra e artistas afrodescendentes. “Foi incrível. A equipe da National Gallery era muito unida e me estimulava a participar de outras atividades, não só daquelas restritas ao meu cargo”, diz. Sua formação incluiu ainda mestrado em negócios da arte na sede nova-iorquina do Instituto Sotheby’s, ligado à famosa casa de leilões, e bacharelado em administração na Universidade Emory, na Geórgia, também nos Estados Unidos.

A plataforma de colecionismo ainda não é a atividade principal de Fola. No horário comercial, ela coordena o departamento de gestão cultural da Orange Barrel Media, gigante do mercado de mídia outdoor. Fora do expediente e no fim de semana, dedica-se à Ise-da. É um negócio enxuto. “Hoje, somos três pessoas na equipe fixa”, diz ela. “Prestamos o clássico serviço de aconselhamento para colecionadores particulares.” Mas a plataforma também oferece um programa para grupos de novos colecionadores. A edição mais recente tem cerca de vinte pessoas, que são guiadas pelas melhores galerias e fazem visitas exclusivas a ateliês de artistas.

Na entrevista de Fola à piauí, feita por videochamada, ela vestia uma camisa branca e um casaco de tweed branco e preto. Como é comum no mercado tradicional, ela resiste em revelar os valores que a Ise-da cobra dos clientes. Informa apenas a média do mercado: o art advisor costuma receber uma comissão que fica entre 10 e 20% do preço da obra adquirida pelo colecionador.

Sua preocupação em formar colecionadores negros faz sentido no plano maior do mercado. Esses compradores seriam mais sensíveis ao trabalho de grupos sub-representados. Também podem investir em iniciantes. “A aquisição de obras no começo da carreira do artista é algo muito importante. É quando ele mais precisa”, explica o médico Ademar Britto Junior. Um dos poucos colecionadores negros a circular no cenário nacional, Britto Junior tem mais de duzentas obras em seu acervo. “Fui o primeiro colecionador a comprar obras do Yhuri Cruz”, orgulha-se. Artista negro do Rio de Janeiro, Cruz já teve mostras individuais no Museu de Arte do Rio (MAR) e é um dos principais nomes da geração atual.

A missão da Ise-da tem ainda outra razão substantiva: grandes colecionadores com frequência fazem parte do conselho de museus. Eles têm, portanto, influência na programação dessas instituições. Exposições em grandes museus podem turbinar a circulação da obra de um artista – e, por consequência, contribuir para seu sucesso comercial.

Fola esteve no Brasil em abril deste ano para fazer uma imersão em galerias e ateliês de São Paulo, a convite da Associação Brasileira de Arte Contemporânea. Visitou os ateliês de Flávio Cerqueira, No Martins e Larissa de Souza, três artistas negros. Não teve a chance de se encontrar com Britto Junior, mas talvez eles se conheçam no ano que vem: a art advisor planeja montar no Brasil um programa para colecionadores focado em arte afro-brasileira.

Reservada e até desconfiada quando lhe perguntam sobre sua família, sua classe social e a profissão de seus pais, Fola se solta ao falar do Brasil. Diz que quer ver o Carnaval de perto e está até fazendo aulas de samba. “Adoro o Brasil. Vejo várias conexões com a Nigéria e quero muito voltar.”


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.