esquina
Tiago Coelho Set 2024 15h54
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Os atores andavam de um lado para o outro no palco do Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro. Alongavam o corpo e faziam exercícios vocais: “Mi-mi-miii” para cá, “bru-bru-bru” para lá. Era uma quinta-feira, dia 15 de agosto, por volta das 19 horas. De repente, o diretor de palco conclamou o elenco do musical Hairspray para se aproximar do proscênio. “Estou sentindo vocês dispersos. Hoje a gente tem a missão de ajudar uma colega. Então, foco”, disse João Sá, na beira do palco. Perto dele, via-se o busto de uma mulher movendo-se no fosso do teatro. Era a maestrina e diretora musical associada Claudia Elizeu.
Faltava uma hora para o início do espetáculo, e Elizeu chamou a atriz Giovana Zotti. “O seu solo é momento de atenção”, disse a maestrina. Havia uma leve apreensão no ar. Poucas horas antes, a produção recebera a notícia de que Liane Maya, intérprete da vilã Velma Von Tussle, estava rouca. No teatro musical, os atores principais sempre têm substitutos: são os atores de personagens secundários que conhecem as falas e músicas dos intérpretes principais, sendo capazes de assumir seu lugar em casos de emergência. Zotti havia sido convocada para substituir Maya.
Elizeu passou a Zotti as orientações sobre seu número solo. “Preciso que você dê ênfase ao suspiro antes de começar a letra”, disse. A atriz encheu os pulmões e entoou: “Ah, meu Deus…” Ainda não estava satisfatório. “Esse suspiro precisa ficar bem demarcado, porque é a deixa para eu puxar a banda”, insistiu a maestrina. “Se não chegar audível para mim, posso perder ou atrasar a entrada. Vamos, de novo, capricha no suspiro.” Na segunda tentativa, Zotti chegou lá: “aaahh, meu Deus…”
Agora, faltava meia hora para começar o musical de maior sucesso nessa temporada no Rio. Claudia Elizeu, de 53 anos, alta, com cabelo curtinho e loiro, correu até o camarim. Passou uma base no rosto, sombra nos olhos e batom. Enquanto fazia os retoques, contou à piauí como foi o início de sua formação musical, em corais de uma igreja batista em Piedade, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. “Muito do que faço hoje eu já fazia na igreja, regendo orquestras em apresentações de dança, cantores e corais.” Elizeu acredita que as igrejas são uma boa escola para regentes negras como ela: “Não conheço muitas maestrinas negras regendo orquestras no mercado de trabalho. Mas há muitas aprendendo regência em igrejas.”
Os pais perceberam o talento da menina e a matricularam na Escola de Música Villa-Lobos, uma instituição pública. Elizeu também frequentou um seminário musical religioso e fez faculdade de música, com habilitação em piano, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
O primeiro emprego depois da faculdade foi em uma escola de balé, onde ela tocava piano. Em 2010, surgiu o convite para substituir o pianista regente do musical Beatles num céu de diamantes, dos diretores Charles Möeller e Claudio Botelho. “Estreei com o coração na boca. Deu certo, porque ensaiei muito. Mas saí traumatizada.” O trauma foi superado, e os convites para outros musicais começaram a chegar: Elis, a musical; Chacrinha, o musical; Ayrton Senna, o musical. “Ao reger a orquestra, você precisa estar atenta ao elenco, à dramaturgia, ao solista, à coreografia e, claro, à orquestra em si. Tudo isso depende de que o seu trabalho saia bem correto”, diz ela. “É muita responsabilidade. Mas depois fui entendendo a linguagem do diretor, do coreógrafo, do coro, dos atores, e fui gostando.” Ela conta que, quando começou nos musicais, nem sempre foi fácil obter o respeito de músicos, a maioria formada por brancos, que resistiam ao seu comando e às suas orientações.
Em um musical, o teatro vem antes da música, segundo Rafael Villar, diretor musical de Hairspray. E o teatro, diz ele, é vivo: “Às vezes, o ator que sempre faz tudo de um mesmo jeito acaba descobrindo uma maneira diferente de dizer ou cantar algo. E a orquestra precisa estar atenta. Qualquer problema que der ali embaixo pode prejudicar tudo aqui em cima.” Do palco, os atores podem ver Claudia Elizeu em telas estrategicamente posicionadas. “Caso alguém do elenco se perca ou precise da condução dela, pode dar uma olhada e ver em que ritmo está regendo”, afirma Aline Cunha, que interpreta a cantora de soul Motormouth Maybelle.
O sinal do teatro tocou. Claudia Elizeu desceu correndo do camarim até a escadinha que a levaria ao fosso. Os dez jovens músicos da orquestra já estavam a postos. Sete integrantes são mulheres, e metade da orquestra é negra. “A gente tem muita admiração e respeito pelo profissionalismo da Claudia”, diz a pianista Anne Amberget.
Comprido e estreito como uma caixa de sapatos, o fosso não é, porém, claustrofóbico. O ambiente tem boa iluminação, e o pé-direito é alto, com 2,5 metros. Todos os instrumentistas utilizam um fone de ouvido, pelo qual ouvem os atores e as instruções da maestrina. De pé sobre uma plataforma de madeira, Elizeu pode ser avistada do busto para cima pela plateia no Teatro Riachuelo, mas a orquestra permanece invisível, enquanto a música se espalha pela sala.
Naquela noite de agosto, instantes antes do início da apresentação, Elizeu combinou com os músicos a festa de despedida da temporada carioca do musical, que neste mês de setembro estreia em São Paulo, no Teatro Renault. O clima no fosso era descontraído, parecido com o de uma turma do fundão da classe. “Se comportem, hein, hoje estamos sendo vigiados”, disse a maestrina, referindo-se ao jornalista da piauí.
As cortinas se abriram. Elizeu ligou o metrônomo, instrumento que auxilia os músicos a ficarem no mesmo andamento. A baterista abriu os trabalhos, e a orquestra foi junto, iniciando as 2 horas e 20 minutos de espetáculo. Lá no palco, a protagonista Vânia Canto, no papel de Tracy Turnblad, soltava o vozeirão.
Na hora do solo de Zotti, a maestrina e toda a orquestra ouviram com clareza seu suspiro: “aaahh, meu Deus…” Elizeu levantou a batuta na mesma hora, e a orquestra entrou no momento exato. Ao fim do número, todos comemoraram – não por terem entrado no tempo certo, mas pelo desempenho da substituta. “Perfeita!”, “Maravilhosa!”, elogiaram os músicos.
Hairspray conta a história de Tracy Turnblad, uma garota branca e gorda que participa de um programa musical de tevê nos anos 1960. Depois de enfrentar obstáculos e preconceitos por causa do seu peso, ela alcança a fama. É a época da campanha pelos direitos civis nos Estados Unidos – e a próxima batalha de Turnblad é ao lado de dançarinos negros, para exigir a integração racial na emissora de tevê.
Claudia Elizeu participou das audições e ajudou na seleção de elenco. Indicou músicos e cantores negros que não encontravam muitas oportunidades. “Para mim, só faz sentido estar num lugar de sucesso como esse se eu puder trazer meu povo preto junto.” São onze intérpretes negros no palco.
Em uma cena quase no fim do musical, Tiago Abravanel – que interpreta Edna, a mãe de Tracy Turnblad – faz um número exigente, com muita dança e trocas de cenário e figurino. Ele então quebra a quarta parede e pede aplausos da plateia para Elizeu e a orquestra: “Aqui, a música é ao vivo. Ou vocês pensam que nosso musical é dublado igual novela mexicana do SBT?” Nicolle Paes, a baterista, marca a piada com um “ba-dum-tsss”. Diretor artístico de Hairspray, Tiago é filho de Cintia Abravanel, primogênita do fundador do SBT.
No fim da peça, uma parte curiosa do público se aproximou do fosso da orquestra para espiar lá dentro, dando tchauzinho para Elizeu e os músicos. Dois dias depois, o espetáculo enfrentou outro desafio. Tiago Abravanel teve de ser substituído nas duas últimas datas da temporada carioca depois da morte, no dia 17, de seu avô, Silvio Santos.