esquina
Pedro Tavares Out 2024 00h58
6 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
O Senado Federal tem 81 assentos. A maior parte é ocupada pelos parlamentares do psd (15), pl (14), mdb (10) e pt (9). O pp e o União Brasil dispõem de 7 senadores, cada. O Podemos tem 6. O psb e o Republicanos, 4, cada. O pdt, 3. O Novo, apenas 1. Quem procura pelos parlamentares do psdb, que governou o país por oito anos, encontra somente o amazonense Plínio Valério, um homem alto, de barba e cabelo ruivos, de 69 anos. Ele é o último dos tucanos no Senado.
Em 2019, quando iniciou seu mandato, Valério tinha sete companheiros do psdb no Senado. Quatro deles deixaram o partido de fininho e migraram para outras legendas. Em 2022, José Serra (sp) largou o mandato para tentar uma vaga na Câmara, mas não foi eleito. E, no início de 2023, Tasso Jereissati (ce) concluiu o seu mandato e não disputou a reeleição. Em meados do ano passado, restavam apenas três tucanos: o sergipano Alessandro Vieira, o mineiro Izalci Lucas (senador pelo Distrito Federal) e o próprio Valério.
Em junho, Alessandro Vieira bandeou-se para o mdb. Com apenas dois parlamentares, o psdb perdia o direito ao gabinete de liderança, benefício oferecido aos partidos com no mínimo três senadores. Para salvar a sala privilegiada de frente para o plenário, Izalci Lucas filiou o senador Marcos do Val ao psdb. A tentativa de trazer um assumido bolsonarista para a legenda pegou mal junto à Direção Nacional. Horas depois, o psdb desfiliou Do Val, que se manteve no Podemos – e o gabinete de liderança foi perdido.
“Isso foi desanimando o Izalci”, conta Valério. Em março deste ano, Izalci Lucas abrigou-se no pl, o partido de Jair Bolsonaro. “Brasília é bolsonarista, e Izalci quer ser candidato do governo no Distrito Federal. Para o pl é bom, porque é mais um a engrossar a bancada e o discurso do Bolsonaro. Então é uma jogada pragmática.”
De tanto pragmatismo, restou um único homem na corda bamba, com uma torcida embaixo para ver onde ele cai. Pelo menos meia dúzia de partidos já fizeram convites de filiação a Valério. “Eu me sinto como uma prostituta na vitrine. É um termo comparativo meio grosseiro, mas é mais ou menos isso”, diz o senador. Porém ele avisa: “Até 2026, eu não converso sobre sair do psdb.” Faltam menos de dois anos.
Atragicomédia tucana ganhou há pouco uma cena burlesca. Durante um debate dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, José Luiz Datena, o nome do psdb, desferiu uma cadeirada sobre Pablo Marçal, do prtb. “Nada justifica isso. Como também é inconcebível aceitar aqueles argumentos do adversário”, comenta Valério. Argumentos, Valério? Bem, para o senador, esse é um caso que deve ser discutido internamente no partido, mas só depois das eleições. “Passada a campanha, a gente precisa analisar esse contexto para entender o que a gente fez de errado. É claro que uma cadeirada não contribui em nada para a imagem de um partido”, conclui.
As chances de Datena em São Paulo são pequenas (ele estava com 6% dos votos em 24 de setembro, segundo a pesquisa Quaest). Mas, para Valério, a candidatura tem uma lição a dar ao partido: “Em termos de popularidade, o Datena é bom para gente. O psdb precisa cair na realidade. A gente tem que ter voto.” Para ele, se o candidato tucano conseguisse pelo menos sustentar dois dígitos, isso significaria que a campanha não foi um fracasso de todo. “Mas, com o Datena, o psdb resiste de alguma forma em São Paulo, então eu acho muito válida a candidatura dele.”
É uma miragem, mas a conquista de uma metrópole onde o psdb tem raízes históricas seria um alento para o partido, que em 2020 elegeu só 512 prefeitos, 30% a menos que na eleição anterior. O cotejo com os anos de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República é desalentador. Em 1998, o psdb tinha 7 governadores e 99 deputados federais; hoje, são 3 governadores e 12 deputados.
Valério atribui a derrocada à timidez das estratégias do partido, que foram esvaziando pouco a pouco sua relevância. Ele lembra, a propósito, as eleições presidenciais de 2022, quando o psdb desistiu de lançar João Doria como candidato próprio e se resignou a indicar Mara Gabrilli como vice na chapa de Simone Tebet, do mdb. “Naquele momento, o psdb se apequenou”, avalia. “E, quando a gente perdeu São Paulo, aí fodeu-se tudo.” Gabrilli hoje está no psd.
Em 2022, pela primeira vez em 28 anos, o psdb perdeu as eleições para o governo de São Paulo. A derrocada do partido no estado se ampliou com outros dois episódios, na opinião do senador: a morte do prefeito Bruno Covas, em 2021, e a saída de Geraldo Alckmin do partido, no mesmo ano, depois da confirmação de Doria como o candidato tucano ao governo paulista. “O Alckmin, de presidente do psdb, foi ser vice do Lula. Então olha só o balaio de gato que o psdb se meteu”, diz.
Plínio Valério se filiou ao psdb em 2011 e elegeu-se vereador no ano seguinte. Em 2013, fez sua estreia no Congresso: passou nove meses como deputado federal, quando Pauderney Avelino (DEM), de quem era suplente, licenciou-se para assumir a Secretaria Municipal de Educação de Manaus. Foi eleito senador em 2018 e hoje é presidente regional do psdb no Amazonas.
Entre seus projetos mais caros, está a lei de autonomia do Banco Central, aprovada em 2020, e uma lei de combate à violência nas escolas. Seu mandato também está a serviço da luta contra ONGs ambientais que atuam na preservação da floresta. “Um dos meus maiores objetivos é livrar a Amazônia das garras das ONGs”, diz. Em seus primeiros meses no Senado, Valério entrou com o pedido de uma CPI para investigar a administração de recursos dessas ONGs. As conclusões foram publicadas, em dezembro passado, no livro Relatório final: CPI das ONGs na Amazônia, que Valério mostra com orgulho. A CPI concluiu que as ONGs da região amazônica investigadas pela CPI fazem um trabalho que tem pouca efetividade e que lhes falta transparência na forma como gastam os recursos recebidos. O relatório diz que boa parte da verba serve para pagar os salários dos próprios funcionários das ONGs.
Em 4 de setembro, quando conversou com a piauí, o Senado recebia dois visitantes ilustres. Um era o economista Gabriel Galípolo, que, indicado por Lula para assumir a presidência do Banco Central, foi granjear o voto de simpatia dos senadores, que precisam validar a indicação. A outra visita foi a da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de quem Valério é opositor feroz. Ele nem assistiu ao pronunciamento da ministra no plenário. “Para brigar, eu prefiro nem ir. O que a Marina prega é porque ela sofre do complexo do colonizado.”
Antes de se tornar político, Valério foi jornalista. Arriscou-se também na ficção com Pra lá do fim do mundo onde o rio acolhe os mortos, romance de 1996 que mistura realidade e folclore. Na parede ao lado da sua mesa de trabalho, há um quadro com a ilustração da capa do livro: um pescador em pé dentro de sua pequena canoa, no meio de um rio. O gabinete é coberto de fotos da Amazônia feitas pelo próprio senador. Na única imagem em preto e branco, um jovem Plínio Valério aparece suspenso no ar, o braço erguido para arremessar a bola ao gol numa partida de handebol. “Hoje não consigo pular nem dessa cadeira”, brinca. No futebol, ele torce pelo Vasco e, por essas e outras, foi aprendendo a lidar com adversidades e até a desenvolver o otimismo.
Quando pensa no futuro do psdb, o senador vê uma saída clara – e repete a mesma cantilena das últimas eleições presidenciais: “As pesquisas dizem que tem uma maioria de brasileiros que não quer nem Lula nem Bolsonaro. A gente precisa se voltar para essa maioria. Precisamos convencer com propostas boas e com voto.” Um instante depois, ele conclui: “Mas como fazer isso com apenas um senador?”
Aos colegas que, incomodados com sua solidão partidária, o abordam com convites para mudar de legenda, o último dos tucanos gosta sempre de repetir essa boutade: “Ser o único tem ao menos uma vantagem – a bancada vota sempre unida.”