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Maria Júlia Vieira Out 2024 00h51
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As missas em homenagem aos vaqueiros acontecem em várias cidades de Pernambuco e de outros estados do Nordeste. A primeira delas se deu em Serrita, cidade do sertão, em 1970. Diz a história que foi em homenagem a Raimundo Jacó, um exímio vaqueiro assassinado anos antes. Seu primo, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, decidiu que Jacó deveria ser lembrado para sempre. Compôs A morte do vaqueiro em sua homenagem e organizou, ao lado do padre João Câncio dos Santos, uma missa em seu sufrágio.
Desde então, multidões se reúnem em Serrita para homenagear Jacó, pedir coragem para enfrentar a lida e, é claro, festejar. Durante o evento, celebrado todo ano no terceiro domingo de julho, centenas de homens e algumas mulheres, montados em seus cavalos, vestem chapéus e gibões, empunhando bandeiras de suas cidades ou estados, como se carregassem o seu pedaço de sertão sobre os ombros. A festa não é só religiosa: a cidade se transforma em um palco de cavalgadas, vaquejadas, pegas de boi e shows.
Há mais de quatro décadas, Valmir Calaça, de 58 anos, natural do município pernambucano de Floresta, participa da celebração. Por muito tempo, carregava as cores verde, branco e azul da sua cidade natal, mas, em 2016, após o massacre na boate Pulse, na cidade americana de Orlando, Calaça decidiu levar a bandeira lgbtqia+. Pediu para um amigo que estava passando em Santa Cruz, polo têxtil de Pernambuco, para comprar o tecido com listras coloridas – e a mulher de Calaça fez a costura do estandarte. “Desde então, qualquer missa que eu vá, levo ela comigo. É o pedaço de pano mais pesado que já carreguei”, ele conta.
Naquele ano, pela primeira vez, o bispo pediu para que todos abaixassem suas bandeiras, mas Calaça se recusou. E foi além: durante o tradicional ofertório – para o qual os vaqueiros levam itens simbólicos de seu trabalho, como peças de couro e arreios –, subiu ao altar com o símbolo do orgulho. “Quando alguém vem me xingar ou reclamar, eu mando olhar pro peitoral do meu cavalo. Lá está escrito: ‘Não ao preconceito.’”
A coragem de Calaça quebrou uma barreira simbólica.
As barreiras que Cariline Silva enfrenta diariamente são mais insidiosas. Negra e lésbica, com cabelos ora crespos, ora lisos, ela já passou por situações de machismo, racismo e homofobia, tanto na capital, quanto no interior.
Quando criança, a sua postura sobre a sela e a destreza na condução do cavalo já prenunciavam o talento que ela demonstraria, anos depois, nas vaquejadas. Com apenas 8 anos, Silva esteve à frente de uma cavalgada com uma centena de homens que se dirigiam à Missa do Vaqueiro, em Extremoz, no Rio Grande do Norte. A garota mal sabia que estava abrindo um caminho – e não apenas na trilha de terra à sua frente.
Hoje com 30 anos, Silva é tricampeã brasileira de vaquejada. Conquistou suas vitórias competindo com homens, muitos dos quais a desdenhavam.
Nesse esporte, o objetivo é, de cima do cavalo, derrubar o boi, puxando-o pelo rabo dentro de um espaço demarcado por cal na pista de areia. A competição evoca as antigas festas de apartação (em que os vaqueiros separavam as boiadas) e as pegas de boi – como eram chamadas as perseguições ao animal que se desgarra da manada e entra mata adentro. Hoje, as pegas ainda ocorrem, mas sobretudo como diversão ou competição, não tanto como parte do trabalho cotidiano do vaqueiro.
Em 2012, Silva saiu de Natal, onde nasceu, para participar de outro tipo de competição: com motos. Ao assinar um contrato com a equipe da Yamaha, precisou ser ainda mais forte. Formado exclusivamente por homens, o time a excluía, boicotava e ofendia. “Eles falavam na cara mesmo que mulher não tinha que estar ali, que era para eu competir com quem lavava roupa mais rápido”, lembra.
Ela logo entendeu que seu desempenho seria um escudo contra o preconceito. E fez como nas disputas de vaquejada: foi vencedora de vários circuitos de moto.
Osertão mudou. Assim como o resto do país, hoje é representado por novas faces, novas identidades. A imagem do sertanejo branco e heterossexual abre espaço para outros personagens, com outras histórias.
Valmir Calaça foi convidado por Maria do Céu – dona da Metrópole, uma tradicional boate lgbt recifense – a participar da Parada da Diversidade de 2016, montado em seu cavalo. Compareceu todo “encourado”, como diz – com as tradicionais vestes e adereços de couro dos sertanejos. Na capital, sua presença foi festejada, mas ele conta que recebeu muitas críticas quando retornou a Floresta.
Essas diferenças entre ambientes liberais e conservadores são familiares também para Cariline Silva. A fim de se blindar de qualquer tipo de violência, a tricampeã brasileira de vaquejada evita a companhia de namoradas quando está participando de competições. “Ainda tem muito preconceito, mas estamos conquistando nosso espaço”, afirma. “Vejo cada vez mais gente estudada que entende que isso é crime e que está pronta para lutar.”