grandes figuras do mundo animal
Roberto Kaz Out 2024 15h50
19 min de leitura
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No fim de junho, dia 26, publiquei um texto longo em meu perfil no Instagram. Começava assim: “Ontem terminou a passagem, nesse mundinho, do meu amigo Aderbal. Foram dezoito anos juntos, dezoito anos em que ele me acompanhou por 12 apartamentos, 3 cidades, 2 países. Aderbal foi meu companheiro quando saí da casa do meu pai, morei sozinho, casei, me separei, voltei para o meu pai, quando aluguei um apartamento com amigos e quando voltei a morar só. Foram raros os dias em que não me deu o privilégio de dividir, com ele, a minha cama.”
O texto seguia: “Gatos e cachorros não são filhos, ainda que muita gente goste de chamá-los assim. Um filho deve sobreviver a você. Um bicho, não. O ponto de partida da relação com um bicho é a consciência da finitude: você envelhecerá alguns anos, enquanto ele irá de filhote a idoso. O fim está contratado. É bonito que a natureza nos dê o privilégio de acompanhar esse ciclo. E é mais bonito que esse ciclo possa ser acompanhado pela lente do amor.” Eu explicava, em seguida, que apesar de não ser meu filho, Aderbal era minha família: “E meu protetor. Isso é uma certeza que carrego: meus bichos são meus orixás, sempre regulando a energia que me cerca.”
Por fim, contava um pouco sobre o protagonista daquela postagem: “Aderbal foi um gato de alma grande, como definiu a Patrícia, sua médica de família. E foi um miliciano, como também definiu a Patrícia. Apesar de obeso e castrado, tocava o terror nas casas da vizinhança. Pulava muros de 2 metros, passava a madrugada fora, voltava às quatro da manhã com a cara estropiada. Isso até o dia em que foi atropelado. Perdeu dentes e a visão de um dos olhos, mas não a gigantesca afetuosidade. Era tão expressivo e grosseiro quanto generoso. Hoje, quando choro, não é pelo vazio. É pela dor da perda (o fim é difícil) e sobretudo pelo reconhecimento da dádiva que foi passar dezoito anos ao lado desse bicho.”
Este texto é sobre um gato. Ou não, este texto é sobre mim, com a desculpa de ser sobre um gato. É um texto que corre o risco de cair no ridículo, de ser lido como um capricho narcísico. Outro dia mesmo, um colega de profissão, de quem eu gosto, publicou no Instagram um vídeo de uma baleia jubarte. Escreveu mais ou menos assim, junto da imagem: “Nenhum bicho é mais exuberante do que uma baleia. Muito menos o seu pet ridículo, que você acha o máximo.” Ele tem razão: não é possível comparar a imponência de uma baleia à beleza discreta de um gato. Mas a régua, neste caso, não deve ser estética.
Amei o meu gato, e em função desse amor, acredito que ele teve uma vida extraordinária. Mas talvez ele não tenha tido uma vida extraordinária a ponto de justificar esse texto. Então por que escrevo? Sei que não é para elaborar um luto, ou para exorcizar uma dor. Aderbal tinha 18 anos, estava velho: berrava de dia, de madrugada, berrava quando tinha fome, berrava depois que comia. Estava possivelmente surdo, o que fazia com que os gritos ecoassem prédio afora (eu conseguia ouvi-lo da rua, a vários andares de distância). Estava senil: por vezes parecia me buscar no quarto, sendo que acabara de cruzar comigo na sala. Perdera o olfato: quando comia, me lembrava o músico Stevie Wonder, mexendo a cabeça de um lado para o outro, como quem procura alguma coisa, sendo que a tigela com sachê estava bem ali, embaixo da sua cara. A exemplo de Oscar Niemeyer, sua morte não foi, assim, inesperada.
Se este texto se propusesse a ser uma espécie de Marley e eu, ele começaria lembrando o dia em que peguei o Aderbal na rua, filhote, durante uma visita ao Campo de Santana, um parque com vários gatos abandonados no Centro do Rio de Janeiro. O texto diria que eu tinha 24 anos, que eu morava com meu pai, num apartamento enorme, de dois andares, num bairro rico da cidade. Que eu vinha pensando em adotar um cachorro, ideia à qual ele se opunha. Que eu acabara de me formar e que trabalhava como repórter numa publicação chamada Revista de História da Biblioteca Nacional.
Lembro de ter ido ao Campo de Santana para fazer uma entrevista na Fundação Parques e Jardins, a autarquia da prefeitura que cuida das árvores da cidade. Sei que vi o Aderbal, com a cara machucada, na entrada do edifício. Sei que um senhor, funcionário do parque, sugeriu que eu o levasse comigo, que eu recusei e que segui para a entrevista. Sei que saí da entrevista uma hora depois e voltei a cruzar com o gato, que o mesmo senhor voltou a reconhecer meu olhar de afeto e sugeriu, uma vez mais, que eu o tirasse de lá: “Pega ele. Jogaram aqui essa semana, tá apanhando dos outros gatos.” O senhor me arrumou uma caixa de papelão com furos para que o Aderbal pudesse respirar. Era fim da tarde, peguei um táxi, com a caixa no colo, e pedi que o motorista me levasse a um pet shop próximo de onde eu morava. “Quê que eu faço com esse bicho?”, perguntei à vendedora, pedindo que me ajudasse.
Lembro de ligar para o meu pai, assim que cheguei em casa, para alertá-lo sobre a novidade. “Um gato?!”, ele respondeu, perplexo. Lembro de restringir o espaço do Aderbal à cozinha, enquanto não fosse vacinado. Lembro de me sentar no chão, de pernas cruzadas, e de ele se aninhar no meu colo. Dias depois, escrevi a uma amiga, que morava em outro país, para contar o caso:
“Peguei um gato no Campo de Santana. Ele se chama Aderbal, e é muito fofinho. Em três dias, acabei me apegando a ele. Meu pai o detesta – e me pergunta todo dia se eu tenho certeza disso. Eu não tenho certeza de nada, mas me divirto com o gato. O problema é que amanhã vou viajar e tenho que arranjar um lugar para colocar o bicho. […] Vou para Salvador, pela revista do João Moreira Salles. Eles vão me pagar estadia, passagem e custos. O ruim é que tenho que pegar nota fiscal de todo táxi – se no Rio já é difícil, imagina em Salvador. Vou fazer duas matérias. Uma, sobre o acarajé das evangélicas. Outra, sobre galos de briga. Ambas as atividades são ilegais. Estou meio assustado e muito animado. Acho que estou me tornando meio adulto – e gosto muito disso.”
Não sei o que me chama mais atenção no relato: se é o fato de chamar a piauí de “revista do João Moreira Salles” (a revista ainda não havia sido lançada), o erro de julgamento (a rinha de galo de fato era ilegal, mas o acarajé evangélico não, ainda que provocasse a ira de seguidores do candomblé), ou se é o tom juvenil (a dependência do pai; o encantamento por ter direito a hotel e passagem; a constatação ridícula de que estava “me tornando meio adulto”). De toda forma, acho um bom marco temporal: quando eu peguei o Aderbal, também eu era um filhote.
Quero fazer aqui um inventário de momentos marcantes do meu gato, sem nenhuma ordem cronológica. O dia em que meu pai fazia uma reunião profissional, e Aderbal estava sentado no sofá, ereto, como se participasse. “Vocês já ouviram a opinião do gato?”, perguntei. O dia em que ficou enroscado nas cordas de uma persiana, e tentou me atacar, como um animal acuado. O dia em que o levei de coleira, para um parque em Nova York, na esperança de que isso aplacasse sua saudade da rua (não funcionou: o gato só vai para a rua quando quer e como quer). O dia em que desapareceu por três dias, fazendo com que eu, meu pai e sua ex-namorada saíssemos miando pela rua, até ouvi-lo miando de volta em uma casa vizinha. Ou o dia, desastroso, em que o levei ao apartamento da minha madrinha, achando que ele gostaria de socializar com outros gatos. Aderbal ficou tão enfurecido que me deu uma mordida no nariz, forte o suficiente para me fazer sangrar, mas fraca o suficiente para não me machucar. Lembro nitidamente do olhar dele depois disso, como se me dissesse: “Você não entendeu nada, cara.” Eu poderia contar cada história dessas em detalhes. Mas quão grande é a chance de um relato assim ficar piegas?
Queria que esse texto fosse sobre amor – ou sobre um tipo de troca não verbal, entre humanos e animais, que eu chamo de amor, na falta de outra palavra. Lembro de ter entendido isso quando acompanhei a viagem de duas elefantas de uma fazenda, em Minas Gerais, a um santuário em Mato Grosso. Maia e Guida haviam sido trazidas ainda pequenas da Europa, num contêiner, para trabalhar em circos no Brasil. Viveram uma vida de alijamento parental, encarceramento e trabalho forçado – isso até serem impedidas de continuar se apresentando, e finalmente serem enviadas a uma fazenda, a pedido do Ministério Público Estadual, onde seguiam acorrentadas.
A saga para fazê-las viver num santuário foi comovedora. Os ativistas compraram um terreno na Chapada dos Guimarães, montaram uma estrutura cercada de aço, construíram contêineres para abrigar cada elefanta, conseguiram caminhões especiais e escolta para transportá-las, e fizeram um sem-número de reuniões com o Ibama e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso, de forma que tudo estivesse legalizado. Havia um esforço coletivo gigante, de anos de trabalho, para dar alguma dignidade ao tempo de vida que ainda restava àqueles animais (a reportagem é de 2017; Guida já faleceu, Maia segue viva). O que mais me impressionava era a abnegação daquelas pessoas, a quantidade de tempo, dinheiro e trabalho empenhados em nome de dois seres sensíveis – elefantes têm uma vida emocional rica, coletiva, repleta de rituais, inclusive o de velar os mortos –, mas que nunca entenderiam plenamente aquele esforço. Quando comentei isso com o tratador Scott Blais, um americano de 50 anos que havia se mudado para o Brasil para dirigir o santuário, ele me respondeu que eu estava errado: “Os elefantes sabem quem é quem.”
Será que sabem? Na época eu tinha minhas dúvidas. Hoje tendo a concordar.
Foi na madrugada de 30 para 31 de dezembro que o Aderbal foi atropelado. Morávamos eu, minha mulher na época e três gatos num apartamento térreo, em uma rua sem saída. Os dois outros gatos, Marieta e Charlinho, sempre pareceram satisfeitos com os limites do apartamento. Aderbal, não. Pulava o muro do prédio, e passava a noite na rua, invadindo as casas. Foi por isso que a Patrícia, a veterinária que viria a operá-lo, definiu-o como um miliciano. Ele vivia de cobrar arrego dos outros gatos.
Aderbal costumava voltar no meio da madrugada, quando passava a miar na porta do apartamento até que eu acordasse. Naquela noite, isso não ocorreu. Me levantei por volta das 5 horas com uma sensação ruim, e fui para a rua procurá-lo. Encontrei-o assustado, escondido num canteiro, com um olho para fora da órbita. Ele rosnava, sem deixar eu me aproximar. Retornei desesperado, acordei minha ex-mulher e pedi ajuda a um hospital veterinário, que enviou uma pessoa para me ajudar a resgatá-lo. Ele foi operado naquela manhã: perdeu alguns dentes e a visão do olho esquerdo, que ao menos não precisou ser extraído. Perdeu também a capacidade de irrigação do olho direito, além de ter quebrado a mandíbula. A partir daí foram semanas alimentando-o por sonda, até que voltasse a comer por conta própria. Já o colírio para irrigar os olhos seguiu com ele até os últimos dias de vida.
Não sei que nome dar ao fato de ter acordado quando Aderbal foi atropelado (sei que foi no mesmo horário, porque assisti ao atropelamento, dias depois, pelo vídeo da câmera de segurança de uma casa vizinha). Pode ser mero acaso. Ou pode ter alguma conexão menos racional. Meu pai sempre contava, quando ainda morávamos juntos, que o Aderbal começava a miar e ia para a porta do apartamento 2 ou 3 minutos antes de eu chegar. Será que ele ouvia os meus passos já na esquina da rua, mesmo eu estando no térreo, e ele no sexto andar? Será que ele se guiava pelo barulho das chaves, balançando no meu bolso? Sentia o meu cheiro a mais de 100 metros de distância? Ou era algum outro tipo de sensibilidade?
No livro O relojoeiro cego, o biólogo britânico Richard Dawkins se propõe a imaginar a subjetividade de um morcego, num exercício de relativização evolutiva que é uma elegia ao darwinismo. “Os morcegos utilizam sua informação sonora mais ou menos da mesma maneira que usamos a nossa informação visual”, Dawkins escreve, lembrando que morcegos “veem” por geolocalização, ou seja: emitindo ondas sonoras, que batem nas paredes e voltam aos seus ouvidos, criando uma imagem em três dimensões, a exemplo do que fazem os sonares dos submarinos nucleares. O trecho seguinte é longo, mas vale cada linha:
É irrelevante que os morcegos construam seu modelo interno com a ajuda de ecos, ao passo que nós o fazemos com a ajuda da luz. Em qualquer dos casos, a informação exterior será sempre traduzida para o mesmo tipo de impulsos nervosos enquanto trafega rumo ao cérebro.
Presumo, assim, que os morcegos “veem” de um jeito parecido com o nosso, por mais que o meio físico usado para traduzir o mundo “lá fora” em impulsos nervosos seja tão diferente – ultrassom em vez de luz. Talvez até os morcegos usem as sensações que chamamos de cor para algum propósito, para representar diferenças no mundo exterior que não guardam nenhuma relação com as propriedades físicas do comprimento da onda, mas que têm para o morcego um papel funcional semelhante ao que a cor tem para nós. Talvez os morcegos machos tenham uma superfície corporal com alguma textura específica, de modo que os ecos que refletem sejam percebidos pelas fêmeas como maravilhosamente coloridos – o equivalente sonoro da plumagem nupcial de uma ave-do-paraíso. Não estou propondo uma metáfora vaga. É possível que a sensação subjetiva de uma fêmea ao perceber um morcego macho seja, digamos, vermelho rutilante – a mesma que tenho quando vejo um flamingo.
Dawkins prossegue:
Imagino algum outro mundo no qual uma conferência de criaturas eruditas semelhantes a morcegos, totalmente cegas, fica estarrecida ao saber que certos animais, chamados de humanos, são realmente capazes de usar os inaudíveis raios recém-descobertos chamados de “luz” – ainda um assunto militar altamente secreto – para se orientar. Essas criaturas humanas, de resto míseras, são quase inteiramente surdas (bem, são capazes de ouvir uma coisa ou outra e até mesmo de produzir grunhidos baixos e arrastados, que só lhes servem para propósitos rudimentares como a comunicação; não parecem capazes de usá-los para detectar objetos, por maiores que sejam). Por outro lado, têm órgãos altamente especializados, chamados “olhos”, que servem para explorar os raios de “luz”. […] As células da retina são misteriosamente capazes de tornar a luz “audível” (por assim dizer), e elas transmitem toda essa informação para o cérebro. Nossos matemáticos mostraram que é teoricamente possível, com a ajuda de cálculos muito complexos, deslocar-se com segurança pelo mundo usando esses raios de luz, com a mesma eficácia que qualquer um de nós o faz usando os ultrassons – e em alguns aspectos com eficácia ainda maior! Mas quem haveria de imaginar que um mísero humano fosse capaz de fazer tais cálculos?
Como será que era o mundo ouvido, sentido e visto pelo Aderbal?
À luz do meu olhar, Aderbal era um gato único, dotado de gostos só dele: amava mamão, se inebriava com o cheiro das flores, odiava o som do violão (durante um período cogitei ser violonista clássico; devo a decisão de desistir, em parte, ao horror que o instrumento provocava no gato, que sempre miava, em resposta, com um trinado sofrido).
Já à luz de um olhar menos apaixonado, Aderbal era só mais gato: miava, dormia, ronronava, comia e torrava no Sol. A diferença entre um gato e o gato está em como você escolhe vê-lo – o que vale para tudo. O chuchu, por exemplo. Para a maioria das pessoas, é só uma comida insossa. Para a Rosa Magalhães, carnavalesca recentemente falecida, era um legume épico, que fora cultivado pelos astecas, no México, antes de descer o continente pela Cordilheira dos Andes até se firmar na culinária do Brasil (Magalhães morreu sem realizar o sonho de levar um enredo sobre o chuchu à Sapucaí).
Quase sempre existe um universo rico por trás do que é aparentemente banal. Na década de 1970, o repórter americano Gay Talese publicou uma série de textos sobre Nova York no livro Fama e Anonimato. Em um deles, fez uma extensa apuração sobre a lista telefônica: “A lista telefônica de Manhattan tem 780 mil nomes, dos quais 3 277 são Smith, 2 811 são Brown, 2 446 são Williams, 2 073 são Cohen – e um é Mike Krasilovsky. Quem duvidar desta última afirmativa, basta ver no alto da página 894, onde em grandes letras pretas, se lê: ‘Só existe um Mike Krasilovsky. Sterling, 3-1990. Lembre-se de Mike. Sterling 3-1990. Só existe um Mike Krasilovsky. Sterling 3-1990.’”
Talese contou, no texto, que Krasilovsky era um senhor de 58 anos que trabalhara na transportadora de um tio, a S. Krasilovsky & Irmão. Depois de um desentendimento, fundou a própria empresa, do mesmo ramo, mantendo o nome Krasilovsky. Instaurou-se o caos com clientes e fornecedores, surgindo a necessidade de pagar um anúncio para reivindicar a unicidade do próprio nome. Em paralelo, Mike passou a assinar também como Krasilousky, com “u” no lugar de “v”, para passar à frente do tio na lista telefônica. Houve reação: um primo chamado Milton mudou o nome para Krasilosky, eliminando o “v” ou “u” para ir direto ao “s”, pulando assim à frente de Mike. “Isso enfureceu Mike”, escreveu Talese. “Ele então mudou o nome de sua empresa para Atlas-York Safe Corp., e foi para o início da lista telefônica.”
Uma lista telefônica pode ser mais do que uma lista telefônica, assim como um bicho pode ser mais do que um bicho. É possível contar o que foi a Guerra Fria através do voo orbital da cachorra Laika. É possível explicar a genética moderna a partir da clonagem da ovelha Dolly. É possível falar da disfuncionalidade do capitalismo por meio do valor – 70 milhões de dólares – pago pelo cavalo de corrida Fusaichi Pegasus (isso é mais do que o montante empenhado pelo governo Lula, em 2024, para certos ministérios, como Turismo, Mulheres e Igualdade Racial).
Gosto de pensar que o Aderbal também ajuda a contar a minha história.
A velhice do Aderbal se anunciou com um grito. Era um dia de semana, durante a pandemia. Eu trabalhava na sala de casa quando o ouvi berrando no quarto. Corri, aflito, achando que ocorrera algo grave. Ele se lambia em cima da cama; era só a idade.
Com o tempo, os gritos aumentaram em volume e diminuíram em intervalo, passando a ocorrer também de madrugada. Fiz vários exames de sangue e de ultrassom, que nunca apontaram nada. Dei-lhe óleo de canabidiol, para que se acalmasse, e fluoxetina, um antidepressivo, na esperança de que isso lhe trouxesse algum bem-estar. Houve vezes, não poucas, em que os berros agudos me obrigaram a varar a noite acordado. Cheguei a bater nele uma vez, já de manhã, exasperado (depois passei o dia imerso em culpa: é horrível maltratar um animal velho, que tem um décimo do seu tamanho, e que não espera nada de você além de afeto, comida e cuidado).
Em maio, precisei fazer uma viagem de quatro dias, e deixei o Aderbal aos cuidados de uma amiga que estuda veterinária. No terceiro dia de viagem, um sábado, ela me escreveu preocupada. Aderbal não comia, vomitava e estava prostrado na cama. Enviou-me um vídeo em que ele fazia movimentos de contração com o abdômen, como se estivesse em sofrimento. A meu pedido, o namorado dela o colocou na casinha de transporte e o levou à clínica da Patrícia – um ato de generosidade pelo qual sou muito grato.
Assim que cheguei ao Rio, fui à clínica, para conversar com a Patrícia. Os exames de sangue estavam estranhamente bons. Já o ultrassom mostrou uma massa de 7 cm no fígado, possivelmente um câncer. Batemos o martelo sobre dois pontos: ele não seria submetido à quimioterapia; e ainda não era o momento de eutanasiá-lo, apesar de sabermos que o fim estava próximo. A Patrícia respirou aliviada, como quem também precisasse se preparar. “Passei a noite contando sobre esse gato para a Paloma”, ela disse, referindo-se à sua mulher, que também é veterinária. “Ia ser difícil para mim fazer essa eutanásia agora.”
Um veterinário até pode sugerir a eutanásia, mas para efeito da lei, a decisão será sempre do tutor. Isso ocorre porque o Código Civil ainda define os bichos como propriedade – mais especificamente “bens móveis”, dotados dos mesmos direitos que um tijolo, uma cadeira ou um vaso sanitário. Caberia a mim, portanto, decidir que destino dar àquele bem chamado Aderbal.
Não é fácil escolher o momento exato de pôr fim à vida de alguém que se ama. Aderbal estava raquítico, perdera metade dos seus 10 kg, mas ainda bebia água, pedia comida, ronronava e dormia comigo, na cama. Parecia lutar para seguir vivo. Eu tinha duas preocupações: não acelerar sua morte, a ponto de desrespeitar o esforço que ele fazia para continuar aqui, e não atrasá-la, a ponto de causar um sofrimento físico desnecessário. Eu também me preocupava em estar do lado dele no momento em que morresse – cheguei a sonhar que estava ausente, numa noite em que dormi na casa da minha namorada. Acordei aflito e corri para casa.
Uma semana depois de sair da clínica, Aderbal voltou a ter dificuldade em se alimentar. Passei a cortar peixe cru em pedaços pequenos, e enfiar-lhe na boca, goela abaixo. Complementava com uma alimentação pastosa, também ministrada à força, por meio de uma seringa. Eu o ajudava a sobreviver, ou agredia o seu corpo, que já não aguentava mais? Que sentido tem para um ser que é quase todo instinto viver nesse estado? Passei a ter uma impressão cada vez mais clara de que eu o forçava a ter uma sobrevida artificial, como se respirasse por aparelhos.
Na terça-feira, 25 de junho, ele acordou debilitado. Escrevi para a Patrícia: “Tô achando que chegou a hora do Bal”, e expliquei o quadro numa longa mensagem. Ela indicou que eu o medicasse com um remédio para enjoo e um ansiolítico, que eu passara a ministrar dois dias antes, na esperança de que nós dois conseguíssemos ter uma noite razoável de sono. Combinou de passar em casa no fim da tarde, para fazer a eutanásia.
Liguei para três pessoas. Com a Alejandra, minha namorada, mantive a calma: ela vinha acompanhando a degradação diária do gato, não havia nada de surpreendente na novidade. Já com minha ex-mulher e o meu pai, não consegui me comunicar de maneira controlada. Chorei no meio da frase, exatamente a mesma frase, quando disse “Vou eutanasiar o Aderbal”.
Não sei muito bem a razão do choro. Não sei se era porque eles também haviam dividido uma casa com o Aderbal. Não sei se é porque para eles a notícia chegava de forma mais abrupta. Ou se era pelo desconforto daquela situação: tem algo de obsceno em comunicar a eutanásia de alguém estando a 5 metros desse alguém que será eutanasiado. Interromper a vida do Aderbal era um ato de cuidado, mas era também de onipotência: senti-me brincando de Deus, envergonhado por saber, sobre o destino dele, algo que ele não tinha como saber.
A Patrícia chegou no fim da tarde. Primeiro, ela aplicou uma injeção intramuscular no Aderbal, que deveria sedá-lo (não funcionou, porque o corpo dele já não metabolizava nada). Nós o colocamos então sobre uma poltrona. Eu segurei as patas da frente enquanto ela encontrou uma veia, para injetar a substância da eutanásia. Segundos depois o coração parou; o processo é instantâneo. Me despedi da Patrícia com um abraço longo, agradecido por atravessar aquele momento na companhia dela e dentro da minha própria casa. Era um desfecho bonito para uma amizade que começara treze anos antes, quando ela salvou a vida daquele gato atropelado.
Acendi uma vela, escolhi algumas músicas, e passei as três horas seguintes velando o corpo do meu gato, que permaneceu sobre a poltrona. A Alejandra e meu pai acompanharam tudo ao meu lado. Meus dois outros bichos, que sempre me cercam, ficaram estranhamente distantes. Por volta de 21 horas o carro do crematório chegou. Levei o corpo já duro do Aderbal até a Zenaide, a gata, para que ela o visse e o cheirasse uma última vez, depois à Lourdes, a cachorra, para que ela também “se despedisse” (nenhuma das duas pareceu se importar com aquele ritual claramente humano). Deixei o apartamento com Aderbal no colo, dentro de uma bolsa impermeável oferecida pelo crematório. Depositei-o no banco da frente do carro da funerária (que curiosa profissão, a do motorista de um rabecão de animais) e segui com a Alejandra para um bar perto de casa. Passamos a noite com um amigo com quem morei por alguns anos, relembrando histórias do meu gato.