esquina
Thallys Braga Dez 2024 17h41
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Todos os dias, por volta das cinco e meia da tarde, Roseana Murray sente dores no braço direito. O membro queima como se estivesse sendo retalhado com uma faca, ou incessantemente perfurado por uma agulha. “De vez em quando, tenho a impressão de que a minha mão está molhada”, diz a escritora. As sensações existem, são mais reais do que Murray gostaria que fossem. Seu braço direito, no entanto, é apenas um fantasma.
Há oito meses, às seis da manhã de uma sexta-feira, a escritora saía de casa para a academia quando foi atacada por três pit bulls. Famintos, os cachorros cravaram os dentes em seu braço e a arrastaram pela rua de paralelepípedos, fazendo força para arrancar-lhe os nervos e músculos. Murray pediu socorro, com esperança de que seus gritos fossem mais altos que o som do mar agitado de Saquarema, cidade do estado do Rio de Janeiro onde mora.
Um homem a ouviu e chegou para enxotar os animais com um pedaço de madeira. “Então veio a ambulância. Lembro de sentir a minha calça de academia sendo cortada, depois eu dormi. Só fui acordar dentro do helicóptero dos bombeiros.” A aeronave a transportava para um hospital público no município próximo de São Gonçalo. “Eu vi o mar lá embaixo, disse ‘que lindo’ e depois apaguei de novo. Despertei na sala de cirurgia, cercada por muitas pessoas, e não me lembro do que aconteceu depois.” Ao acordar da anestesia, Murray descobriu que os médicos não haviam conseguido salvar o seu braço direito. Restou só um pequeno pedaço perto do ombro. Os cachorros arrancaram metade da orelha direita da escritora e deixaram cicatrizes em seu rosto e no braço esquerdo.
Aos 73 anos, Murray organiza os dias para fazer tudo o que precisa antes das cinco e meia da tarde. Nessa hora, ela se deita no sofá para sentir as dores no membro fantasma. “Eu digo: ‘A nave pousou no meu braço. Começou o ataque dos aliens.’” Em agosto, a Editora Estrela Cultural publicou O braço mágico, livro de Murray que narra a cumplicidade de dois netos com a avó que perdeu o braço em um acidente. Graças à bondade das crianças, a personagem, evidentemente autoficcional, desenvolve um membro imaginário capaz de realizar fantasias. A certa altura, a avó adquire um braço robótico azul.
O desfecho do livro é como Murray espera que sua própria história termine. Nos últimos meses, a escritora tem passado muito tempo nutrindo a expectativa de conseguir uma prótese biônica pelo SUS, com a ajuda da Secretaria de Saúde de Saquarema. Ela quer um modelo azul, igual à de uma jovem cuja foto viu na internet. “Mal posso esperar para segurar o legume com uma mão e a faca com outra”, diz.
Ela não cozinha desde abril. Escreve seus poemas e livros no celular, por causa da praticidade. Antes do acidente, era destra, e agora está aprendendo a ser canhota. Seu braço esquerdo ficou sobrecarregado com a mudança. Em outubro, ela passou por uma cirurgia para aliviar a pressão sobre o nervo do punho, que estava dolorido.
Murray se ocupa lendo vários livros ao mesmo tempo. A cada dois meses, reúne os amigos em casa para um clube de leitura. Ela também recebe alunos das escolas públicas de Saquarema para ler poesia e tomarem juntos o café da manhã. Os jovens ficam fascinados pela casa da escritora, cujos fundos são ocupados por um jardim cuidado impecavelmente. “Mesmo com toda essa maravilha, às vezes eu me lembro do que tem do lado de fora”, me disse a escritora, olhando para o quintal. “Eu não encaro a vida com facilidade. Ela é muito dura.”
Além de antidepressivos, Murray toma remédios para dor crônica há trinta anos. Em razão de uma má-formação congênita, ela passou muito nova por uma série de cirurgias e tem duas próteses no quadril. “É um corpo muito mexido. Eu não sei se teria conseguido atravessar tudo isso se não tivesse a literatura na minha vida.”
Encontrei Murray em Saquarema na tarde do dia 30 de outubro para conversar sobre a sua recuperação. Dias antes, ela havia me perguntado pelo WhatsApp se o marido – “o Juan Arias, esse grande jornalista” – poderia participar da entrevista, com o que assenti. Quando desembarquei do Uber, a escritora veio ao portão me receber com um abraço. Por cima do seu ombro, vi um senhor de suéter acenando para mim. “Aquele é o Juan”, me disse Murray, com um sorriso cortês.
Nós nos sentamos na cozinha, e ela contou que conheceu Arias – um dos principais nomes da imprensa espanhola –, no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio, em 1994. Murray estava a caminho de Sevilha para receber um prêmio, e ele chegava de Mato Grosso, onde havia feito reportagens sobre os indígenas para o jornal El País, do qual era colunista. Arias foi correspondente no Vaticano e viajou o mundo cobrindo os mandatos de três papas. Esteve no Brasil pela primeira vez em 1980, acompanhando a passagem de João Paulo II, e gostou daqui. Apaixonado pela escritora de estatura baixa e cabelos vermelhos, decidiu trocar Madri pelo Rio.
“Minha mãe tinha uma casa em Saquarema, mas eu nunca gostei de praia. Prefiro montanha”, disse Murray, filha de imigrantes poloneses. “Um dia, no final da década de 1990, tive que vir aqui com uma amiga francesa. Vi a paisagem e pensei: ‘O Juan vai gostar disso.’ Quando eu o trouxe, ele olhou a orla da praia e disse: ‘Ah! Cheguei no meu lugar.’” O casal construiu uma casa amarela de dois andares em frente à praia. “Passamos o tempo aqui sozinhos e trabalhando”, disse Murray. Perguntei ao jornalista como sua mulher tinha passado os últimos dias. “Ela está ótima, tem uma força inacreditável.”
Murray me conduziu até o segundo andar da sua casa, até que paramos diante de uma porta de madeira. Ela a empurrou algumas vezes com a mão esquerda, um pouco desajeitada, tentando sem sucesso abri-la. Então gritou para pedir ajuda de uma sobrinha do marido que os visitava naquela semana. Quando ela nos alcançou no segundo andar, Murray finalmente tinha conseguido abrir a porta, e estávamos numa varanda diante do mar feroz de Saquarema. ¿Qué pasó?, perguntou a espanhola. Para não fazê-la perder a viagem, Murray disse, carinhosamente: “Saudade.” A espanhola fez cara de confusa, e a escritora riu. “Eles não entendem. Não existe saudade em outra língua.”
Vinte e três dias depois, Juan Arias morreu por complicações de uma insuficiência renal, aos 92 anos. Roseana Murray velou o corpo do marido em casa. “Seguirei o sinuoso rio da vida, com tudo o que a vida me trouxer”, ela disse.