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Pedro Tavares Dez 2024 17h33
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Jilvan Oliveira Carmo tinha 12 anos quando foi escalado, em 2015, para interpretar um personagem importante numa peça escolar baseada em O menino do dedo verde, livro do francês Maurice Druon. Logo nos primeiros ensaios, a professora do colégio em Itabuna, na Bahia, retirou-o do elenco principal, alegando que o garoto não seria compreendido pela plateia.
Carmo tem gagueira, um distúrbio neuromotor que causa rupturas involuntárias no fluxo da fala. “A professora me colocou num papel sem fala, em que eu iria só dançar. Isso me marcou muito porque foi um preconceito vindo de uma autoridade”, relembra.
No último 9 de novembro, Carmo, hoje com 21 anos, foi o apresentador do 5º Encontro Baiano de Pessoas que Gaguejam, realizado em Salvador pela Associação Brasileira de Gagueira (Abra Gagueira), em parceria com instituições de ensino superior da Bahia. “Apresentar o encontro, com a presença de deputados, doutores em um auditório com 150 pessoas, foi muito simbólico para mim”, diz o estudante de psicologia do Centro Universitário Jorge Amado. “Queria que aquela professora tivesse comparecido”, completa, rindo.
A Abra promove esses eventos em vários estados. Abertos ao público em geral, eles trazem informação científica – fonoaudiólogos estão sempre entre os palestrantes – e incluem um componente de terapia em grupo, graças aos depoimentos de pessoas que gaguejam. “Queremos mostrar para a sociedade que por trás da gagueira, daquela coisa engraçada, existe sofrimento. Sempre foi passado como algo ligado ao humor. E isso tem um reflexo bem pesado nas pessoas”, diz Maurício Lopes do Nascimento Júnior, de 39 anos, diretor-secretário da Abra. Ele recebeu alta de sua fonoaudióloga há catorze anos e hoje apresenta uma gagueira branda. “Não me traz mais sofrimento”, diz.
O critério para a alta da fonoaudiologia é mais subjetivo do que clínico. O objetivo é mudar a consciência que a pessoa afligida pela gagueira tem de sua fala, explica a fonoaudióloga Aline Alvarenga, que participou da organização do evento em Salvador. “A gagueira é multidimensional. O medo de falar, a ansiedade, a frustração não são causas da gagueira, mas fazem parte dela”, diz.
Existem três principais tipos de gagueira. A mais comum é a gagueira do desenvolvimento, que aparece na infância, durante o período de construção da linguagem. Ela pode desaparecer ou amenizar, porém, em alguns casos, permanece até o fim da vida. As outras duas formas, chamadas de gagueiras adquiridas, surgem mais tarde, em geral depois dos 12 anos. A gagueira neurogênica é aquela causada por algum acidente que afete o sistema nervoso central, como um AVC. A gagueira psicogênica, bem mais rara, está relacionada a traumas emocionais. “Muita gente, de forma errônea, acha que toda gagueira é emocional ou psicológica. Isso é um mito. A minha e da maioria das pessoas é a gagueira do desenvolvimento. Desde que comecei a falar, já fui gaguejando”, diz Carmo.
A Abra – ONG que completa vinte anos neste mês – recomenda que não se use a palavra “gago”, pois ela tem um caráter determinista e definitivo. É melhor dizer “pessoa que gagueja”. Além dos encontros, a entidade organiza grupos de apoio, cujas reuniões são, em sua maioria, online. “Promovemos ainda cursos, palestras e lives com o propósito de disseminar a correta informação sobre a gagueira e suas causas, buscando derrubar mitos e preconceitos”, diz o advogado Luiz Fernando de Souza Barreto, presidente da Abra.
Morador de Teresópolis, na serra fluminense, Barreto orgulha-se da cidade em que reside há quase trinta anos, por ela ter promulgado em 2021, com assessoria da Abra, uma lei municipal prevendo atenção especial para pessoas que gaguejam. “Desde então, replicamos a legislação em nível municipal e estadual por todo o Brasil.” A deputada estadual Fabíola Mansur (PSB) compareceu ao quinto encontro e se comprometeu a fomentar projetos nesse sentido no Legislativo da Bahia. “Temos que capacitar os nossos servidores e professores para lidar com o tema”, ela declarou no evento.
Dos encontros regionais da Abra nasceu o encontro nacional, que teve a primeira edição no Rio de Janeiro, em 2008. O evento é sempre em outubro, mês em que se celebra o Dia Internacional de Atenção à Gagueira (no dia 22). “Nesses encontros, tive a oportunidade, várias vezes, de ver pessoas que gaguejam, que nunca falaram diante de um desconhecido, pegar em um microfone e dizer o que estão sentindo sem se sentir julgadas. Onde mais elas teriam essa oportunidade?”, comenta a fonoaudióloga Aline Alvarenga.
No final do encontro na Bahia, o microfone foi aberto para depoimentos do público. Uma participante recordou uma experiência profissional que a abalou: ela trabalhava como servidora pública e foi exonerada do cargo por gaguejar. Emocionada, contou como reuniu coragem para fazer um novo concurso público. Foi aprovada e encontrou um ambiente de trabalho mais acolhedor.
“O meu medo de gaguejar era muito maior que a minha gagueira”, disse João Francisco Santos Nunes, outro participante. Ele lembrou um episódio marcante de sua infância: queria contar um caso engraçado para os colegas de escola, mas “uma travada brutal” o impediu de falar. “Eles desistiram de ouvir a história, e realmente ficou sem graça porque perdeu o timing da parada. Nunca mais me esqueci disso.”
Jilvan Carmo fez tratamento com fonoaudióloga desde a primeira infância. Aos 17 anos, decidiu encerrar as sessões. “O processo de aceitação fez com que minha gagueira diminuísse muito. Quando eu não me aceitava, a minha gagueira era bem mais evidente”, lembra. Seu recado para todos os que convivem com pessoas que gaguejam é claro e direto: “Não observe como eu falo e sim o que eu falo.”