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Em Santos, a arte proletária de um pedreiro fotógrafo
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A colher de pedreiro e a câmera fotográfica não têm nada em comum. Entretanto, um jovem de Santos, no litoral paulista, reuniu os dois objetos no seu dia a dia. Luiz Rodrigues, de 24 anos, concilia o trabalho como ajudante de obras com a paixão pela fotografia. Ele ainda depende da primeira profissão para viver, mas vem sendo reconhecido pouco a pouco como fotógrafo, com o pseudônimo que adotou: Buscapé.

O nome vem das telas do cinema. Buscapé é o personagem principal do filme Cidade de Deus, de 2002, que ganhou recentemente uma continuação, com a série Cidade de Deus: a luta não para, exibido na plataforma de streaming Max. No filme, o personagem Buscapé (vivido pelo ator Alexandre Rodrigues) deseja ser um fotógrafo profissional e retratar a vida em uma favela do Rio de Janeiro. Luiz Rodrigues, o Buscapé de Santos, também sonha viver das imagens que capta na periferia.

Ele aprendeu o trabalho de pedreiro na marra, aos 20 anos, para ajudar no orçamento de sua família. A profissão de fotógrafo começou pelo celular. Buscapé gostava de gravar vídeos das manobras de skate dos amigos e chegou a fazer alguns curtas-metragens, na rua mesmo, com um “método meio cachorro”, nas suas palavras. Aos poucos, o fascínio pela fotografia foi superando o gosto pelas imagens em movimento.

Entre 2017 e 2018, Buscapé começou a estudar fotografia mais a fundo. Ele não lembra qual foi a primeira câmera que teve, mas era um modelo para amadores. Hoje, possui três câmeras: duas Cyber-­shots e uma Canon T5, máquina “velha de guerra”, como define, mas que acrescida de três lentes constitui o seu equipamento profissional. Apesar de seu celular ter uma boa qualidade de imagem, Buscapé não o utiliza para fotografias. Ele diz que prefere a sensação de fotografar com a câmera, na qual os recursos de edição também são mais completos.

No início, Buscapé só conseguia pequenos trabalhos fotográficos em festas estudantis. “Você começa fazendo festinha de faculdade, e eles dão 50 mangos para ajudar”, conta. Atualmente, é chamado para fotografar festas religiosas e eventos culturais. Mas seu ganha-pão principal continua a ser a construção civil.

É difícil fotografar depois de um dia de trabalho no canteiro de obras. Buscapé explica que muitas vezes está exausto ao fim do expediente, sem ânimo para buscar cenas do cotidiano da periferia – seu maior interesse como fotógrafo.

Sua principal inspiração é o fotógrafo chinês Fan Ho (1931-2016)*. “Ele viveu nas periferias da China. Fazia fotografia de rua e bem nessa pegada brutalista: prédios grandes, pessoas pequenas, contraste alto”, descreve. “É algo que eu tento trazer na minha fotografia.”

Ele também costuma registrar imagens de seus colegas operários. Mas, no lugar da câmera profissional, que poderia ser danificada no meio das obras, usa a Cyber-shot – modelo digital da Sony mais barato e que cabe no bolso.

Fotografar no ambiente de trabalho exige muito cuidado. “Parar de prestar atenção em ferramentas, em coisas pesadas, para registrar uma imagem, demanda uma atenção ali, sabe?” Nem todos os colegas gostam de ser fotografados. “Sempre vai ter uma reação ruim, mas isso é um caso à parte.” Felizmente, a maioria aprova e incentiva sua arte: “O pessoal entende e até acha maneiro.” Alguns chegam a pedir as fotos impressas.

A ambição de Buscapé é ganhar a vida com a câmera. Ele já tem uma coleção de registros feitos em Santos. “É aquilo de sair de manhã do local onde eu vivo na cidade, na Zona Noroeste, e ir para lugares asfaltados e bonitos, bem cuidados, com investimento”, diz. “E então voltar em dia de chuva para a Zona Noroeste e encontrar tudo alagado.” Por isso ele define muitas de suas fotos como “barulhentas”, por chamarem a atenção para os contrastes urbanos e sociais de Santos.

Sua primeira exposição aconteceu há cerca de um ano e meio na Giro Bikes, uma oficina de bicicletas que funcionava como espaço coletivo de arte e diálogo. Ele apresentou suas fotos junto com os trabalhos de um amigo, Mateus Vitti, conhecido como Neurozine. Também mostrou suas imagens em São Paulo, na Feira Gráfica Oba-Oba do Plural Latino. Mais recentemente, participou de uma coletiva no Museu da Imagem e do Som de Santos (Miss). “Ver a reação das pessoas, assim, na hora, foi muito gostoso, um momento bem especial”, recorda.

Buscapé se orgulha dos registros que vem fazendo da rotina nas periferias da cidade. Ele acredita que esse trabalho ajuda a corrigir a noção equivocada de que fotógrafos só frequentam ambientes de elite, retratando famosos em grandes eventos.

Ele se sente realizado, sobretudo, quando as pessoas comuns que fotografa se reconhecem nas imagens. “Acho que isso dá luz e dá voz para dizer que o proletariado também pode produzir arte. Não necessariamente com fins monetários, até porque não estou ganhando tanto dinheiro assim com fotografia, mas porque mostra que você pode fazer apenas por querer fazer”, diz. “E está tudo bem assim.”


O texto é um dos sete selecionados para publicação entre os participantes do concurso Uma História na Minha Esquina, voltado a estudantes de jornalismo

* Versão atualizada com a data correta de nascimento do fotógrafo Fan Ho


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Mineira de 19 anos, é aluna do terceiro período do curso de jornalismo da Universidade Católica de Santos (UniSantos)