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GRAÇA ALCANÇADA

Em meio à depressão, o restauro de bonecas
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Em Mucugê, cidade de 12 mil habitantes na região centro-sul da Bahia, Francisca Paraguassu é carinhosamente chamada de Chiquinha das Bonecas. Ou, com menos intimidade, de Dona Chica das Bonecas. Mulher de pequena estatura e grande fé, Francisca, de 60 anos, mantém num quarto de sua casa uma exposição de bonecas que ela mesma restaurou. Para chegar a esse museu pessoal, é preciso embrenhar-­se na estreita Travessa Anísio Paraguassu e bater na porta com a placa “Casa de Bonecas da Dona Chica: do Lixo ao Luxo”. Francisca virá contar ao visitante que sua devoção à Nossa Senhora das Graças levou-a, já em idade adulta, a restaurar bonecas abandonadas.

Na infância, ela não tinha bonecas em casa. Um dia, uma menina vinda de São Paulo apareceu na Fazenda Sumidouro, comunidade rural de Mucugê onde Francisca vivia com a família. A visitante trazia nos braços uma linda boneca, que não emprestava a ninguém. Desde cedo ajudando na dura lide de uma pequena propriedade rural, Francisca e suas duas irmãs encantaram-se com a delicadeza da bonequinha.

Quando a menina foi embora, ficou o desejo de carregar uma companheira de brinquedo nos braços. Um dia, Francisca atravessou a cerca do quintal do vizinho para arrancar a espiga mais bonita da plantação de milho. Bastou arrumar os fios desgrenhados do milho e ajustar sua casaca verde para que a espiga, com uma pitada de imaginação, se tornasse sua primeira boneca. O vizinho flagrou o furto e denunciou a menina para a avó, que também se chamava Francisca. A menina nem teve a chance de se explicar: levou uma surra.

A absolvição só chegou mais tarde, quando a avó perguntou por que Francisca roubara comida do vizinho, se em sua casa, apesar de todos os apertos e limitações, ninguém passava fome. A avó chorou quando a neta lhe mostrou a bonequinha de milho. Para aliviar a culpa, prometeu-lhe uma boneca.

A promessa nunca foi cumprida. Quando Francisca, aos 17 anos, engravidou de seu primeiro filho, a avó se desculpou por nunca ter encontrado condições de comprar a boneca. “Mas Deus lhe dará”, garantiu. “Você vai ter muitas bonecas.”

Adulta e com família constituída – ela teve quatro filhos –, Francisca Paraguassu passou a encontrar alegria na companhia das amigas. Trabalhavam juntas na colheita de café e saíam para pescar e acampar.

Uma após a outra, porém, algumas foram deixando Mucugê, outras morreram. Então, por volta de 2010, a solidão passou a afligir Francisca. Era uma dor física, que se espalhava por suas terminações nervosas e roubava seu fôlego. Os médicos diagnosticaram depressão e a medicaram. Mas ela não melhorava. Ao contrário, sofria com os efeitos colaterais da medicação psiquiátrica. Só não perdia a fé: rezava para que Nossa Senhora das Graças lhe mostrasse uma saída.

Perto do Natal do mesmo ano, a santa apareceu em sonho e anunciou que a cura estava na confecção de um presépio. Tradição iniciada por São Francisco de Assis, a representação do nascimento de Jesus com bonecos ajudou a restituir a saúde mental de Francisca. Ela conta que encontrou um conjunto de bonequinhas despidas que estavam esquecidas em sua casa, dentro de uma caixa, por um sinal da santa: elas caíram de uma prateleira e se espalharam pelo chão.

Cinco dias depois, incentivada pelo marido e pelos filhos, Francisca, que nunca havia costurado, confeccionou roupas para as bonequinhas. O figurino bíblico em miniatura ficou tão bem-feito que seu marido, o comerciante Adenildo Silva Costa, chegou a desconfiar que Francisca contratara uma costureira. Durante os dias em que o presépio esteve montado, ela parecia estar curada. Bastou desmontá-lo para que a depressão retornasse com força. Francisca volta e meia parava na emergência do hospital.

Ela recorreu à fé, mais uma vez. Nossa Senhora das Graças, diz Francisca, voltou a aparecer em seus sonhos, para indicar um caminho terapêutico: a restauração de bonecas velhas ou descartadas no lixo. Foi assim que se iniciou um processo de cura feito à mão e bordado pela espiritualidade.

À medida que seus dotes de costura se aprimoravam, Francisca Paraguassu foi acrescentando cor e variedade à sua coleção. Passou a homenagear artistas e celebridades. Hoje, suas prateleiras exibem bonecos e bonecas caracterizados como Roberto Carlos, Wanderléa, Fátima Bernardes, Bruna Marquezine e Maju Coutinho. Ela também representa figuras importantes da cultura nordestina, como o sanfoneiro Targino Gondim. Há ainda bonecos que retratam profissões essenciais – policiais, professores, jornalistas e até mesmo a prefeita da cidade – e que buscam conscientizar o visitante da Casa de Bonecas sobre temas delicados, como o autismo.

Cumpriu-se a profecia de Francisca, a avó: Francisca, a neta, hoje tem muitas bonecas – tantas que nem se arrisca a estimar o número aproximado. A Casa de Bonecas se transformou em parada obrigatória para turistas que visitam a cidade de Mucugê. Não só: Francisca já foi entrevistada pelo Fantástico e pelo Avisa lá que eu vou, programa apresentado por Paulo Vieira. E não existem mais rastros de depressão em sua vida.

Outro dia, o marido de Francisca também sonhou com Nossa Senhora das Graças. A Virgem lhe disse que as bonecas não iriam pertencer à sua mulher para sempre, mas que ela saberia dar um destino às suas criações.

Francisca Paraguassu já instruiu a família: quando morrer, suas bonecas deverão ser doadas a algum hospital que trate de crianças diagnosticadas com câncer. Os responsáveis estarão livres para decidir se as bonecas serão presenteadas às crianças em tratamento ou leiloadas para levantar fundos para a instituição. Chiquinha das Bonecas entendeu que a cura, o amor e a fé são coisas valiosas demais para não serem compartilhadas com o próximo.


O texto é um dos sete selecionados para publicação entre os participantes do concurso Uma História na Minha Esquina, voltado a estudantes de jornalismo


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Baiano de 21 anos, é aluno do quinto período de jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb)