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Érica Wallauer Alves Dez 2024 18h02
4 min de leitura
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Com apenas 12 anos, Mariah Charão fala com desenvoltura de um tema que já foi tabu. “Crianças menstruam e continuam sendo crianças”, diz a estudante do sétimo ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, no bairro de Lomba do Pinheiro, na periferia de Porto Alegre. “Elas não viram ‘mocinhas’.”
Mariah Charão não descobriu isso ouvindo apenas os professores. Ela faz parte de um grupo que se organizou na escola para promover leituras, contar histórias e realizar outras atividades sobre saúde menstrual. Estudando e discutindo o assunto, meninas e meninos aprenderam que o antiquado termo “mocinha” sugere uma maturidade sexual que não surge magicamente com a primeira menstruação – e que essa noção equivocada pode abrir a porta para o abuso e a violência. O grupo adotou o nome Garotas de Vermelho.
A ideia nasceu em 2019, quando alguns alunos passaram a se reunir na biblioteca da escola para conversar sobre assuntos cruciais que eles consideravam pouco discutidos em sala de aula: violência doméstica, abuso sexual, acessibilidade, inclusão e pobreza menstrual (a expressão designa a falta de recursos para manter a saúde e a higiene durante a menstruação). O projeto se ampliou, e eles então criaram o Coletivo Luísa Marques, que vem se engajando em atividades e causas variadas. Marques foi uma aluna do Saint Hilaire, precursora do projeto, que morreu de câncer em 2017, aos 15 anos.
As Garotas de Vermelho são um dos mais ambiciosos projetos do coletivo: promover a saúde menstrual dentro e fora dos portões da escola. O grupo (composto por vinte meninas e um menino) trabalha para que se possa falar de menstruação com naturalidade, sem qualquer temor. “A desconstrução dos tabus relacionados à menstruação na escola é muito impactante”, diz Joana Dorneles de Souza, de 15 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio e integrante do grupo. Ela se preocupa com as meninas que faltam às aulas e às atividades escolares porque têm dificuldades para comprar absorventes.
É uma realidade que atravessa o país. Dados da pesquisa Pobreza menstrual no Brasil: desigualdades e violação de direitos, publicada em 2021 por duas agências da ONU, mostram que cerca de 713 mil meninas não contam com banheiro ou chuveiro em casa. Mais de 4 milhões de alunas estudam em escolas nas quais falta pelo menos um item da higiene menstrual básica, como absorventes, sabonete, papel higiênico ou até banheiros funcionais. Dessa parcela, quase 200 mil estudantes não encontram no espaço escolar sequer os recursos mínimos para lidar com a menstruação.
Para enfrentar o problema, as Garotas de Vermelho criaram, há dois anos, um kit de saúde menstrual, que inclui itens como absorventes de pano reutilizáveis (duram até cinco anos) e bolsa térmica para aliviar a cólica. As estudantes firmaram parcerias com a comunidade local: o absorvente e a bolsa térmica são confeccionados por costureiras da Lomba do Pinheiro, e o kit traz ainda pequenos objetos feitos por artesãos do bairro.
Vendido a 100 reais, o kit provou-se uma ferramenta eficiente para combater a pobreza menstrual. O dinheiro arrecadado cobre os custos de produção – inclusive a remuneração de costureiras e artesãos – e financia a produção de artigos de higiene pessoal para estudantes que têm dificuldades de adquiri-los.
Em abril do ano passado, na Semana da Menstruação, as Garotas de Vermelho distribuíram mil absorventes de pano para alunas da Escola Saint Hilaire e de outros colégios. O grupo já conseguiu também doações de absorventes convencionais, que ficavam à disposição na biblioteca para quem necessitasse. Além de facilitar a higiene menstrual, a distribuição de absorventes fortaleceu o diálogo das Garotas de Vermelho com as demais alunas da escola. A iniciativa chamou a atenção e foi premiada no concurso Desafio Liga Jovem, promovido pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
O livro De onde é esse sangue, Joana?, escrito e ilustrado pelo Coletivo Luísa Marques, também integra o kit. A professora Maria Gabriela Pires de Souza afirma, orgulhosa, que este é o primeiro livro sobre menstruação escrito por crianças. Destina-se a meninas que estão vivendo suas primeiras menstruações, como Joana, a personagem principal. O texto trata das mudanças desse período com sensibilidade e leveza:
Joana, com vergonha, fechou a porta do banheiro. “O que foi que aconteceu, Joana? Se machucou? Fala com a mãe?” […] Joana abriu a porta do banheiro e sua mãe estava com uma calcinha limpa e um absorvente na mão. Julia [a irmã de Joana], curiosa, perguntou: “O que é isso?” A mãe respondeu: “É um absorvente, Julia, para segurar o sangue.”
Se hoje, na Escola Saint Hilaire, as mulheres falam abertamente sobre menstruação, isso se deve ao trabalho das Garotas de Vermelho. Essa promoção da dignidade menstrual vem sendo, a seu modo, uma atividade escolar multidisciplinar: conjuga educação sexual, ação comunitária, proteção à infância, empreendedorismo social e sustentabilidade (o coletivo de estudantes mantém uma horta comunitária, onde cultiva chás e ervas que aliviam a cólica menstrual). Dessa forma, as Garotas de Vermelho fazem jus aos lemas da ativista negra americana bell hooks estampados na camiseta do grupo: “Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos.”
O texto é um dos sete selecionados para publicação entre os participantes do concurso Uma História na Minha Esquina, voltado a estudantes de jornalismo