esquina
Felipe Fernandes Dez 2024 18h07
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
“Eu não deprimo não, amor. Quem vier pra cima achando que vai ter a minha tristeza, não vai, não. Vai ter o meu silêncio e, no momento oportuno, o meu desaforo”, diz Maria do Céu, em tom debochado, quase duas horas depois de uma entrevista planejada para durar bem menos.
Figura fundamental da vida noturna do Recife, Maria do Céu de Ataíde Vasconcelos se define como “agitadora cultural”, mas ela já fez um pouco de tudo em seus 57 anos de vida: foi modelo, dançarina, DJ, psicóloga e empresária. É também musa da comunidade LGBTQIA+ e ficou famosa como a “Bela da tarde” pernambucana, depois de ter participado da gravação do clipe da música La belle de jour, de Alceu Valença.
A perseverança de Maria do Céu vem de longe. “Tenho uma tia que diz que eu botei a faca no dente e saí de casa”, conta. Nas décadas de 1980 e 1990, ela adotou o nome artístico Maria Kelner e foi uma das modelos mais requisitadas da capital pernambucana. Chegou a desfilar no programa da Hebe Camargo. Tornou-se também uma estrela da noite recifense. Dançava até amanhecer na Misty, lendária casa noturna dos anos 1980 e 1990. “Era o local onde as travestis dançavam”, recorda. “Era o palacete delas.”
O gosto pelos clubes noturnos a transformou em dona (palavra que ela detesta) de dois points famosos do Recife: Doktor Froid e Miami Pub, que já fecharam as portas. Hoje, administra, junto com os filhos, o PajuBar e seu empreendimento mais audacioso, o Club Metrópole, inaugurado em 2002. Mãe de cinco filhos – David, Deborah, Victor, Vitória e Ângelo, com idades entre 19 e 37 anos –, Maria do Céu deixa o lado materno imperar no ambiente de trabalho e o lado empresária disciplinar a casa.
O Club Metrópole funciona no mesmo endereço da Misty, em um dos pontos mais agitados do Recife, a Rua das Ninfas, no bairro de Boa Vista. “Eu percebo a Metrópole como um patrimônio vivo e pulsante da cidade”, diz ela, que prefere se referir à casa noturna no feminino. “Um produtor, uma vez, chegou para mim e falou que o palco da cultura LGBT do Recife hoje é a Metrópole.” Não por acaso, os vouchers que o clube vende para os festeiros adquirirem comes e bebes é chamado de real pink.
Maria do Céu disputou quatro eleições – três para vereadora e uma para deputada estadual –, mas nunca se elegeu. A primeira campanha para a Câmara Municipal do Recife, pelo Partido Verde (PV), em 2000, foi a mais marcante, pois ela estava grávida de Vitória. Ela diz que se candidatou “porque todos os partidos tinham que cumprir a cláusula de 30% de mulheres candidatas”. Mas então teve a chamada “placenta prévia” – quando a placenta cobre a abertura no colo do útero – e foi forçada a passar boa parte da gravidez em repouso. “A natureza é tão incrível, tão incrível, que ela me botava um sono, que eu só fazia dormir. Aí o PV marcava as coisas comigo, e eu faltava”, lembra. “Mas minha filha nasceu linda.” A candidata conseguiu só 520 votos.
A empreendedora desistiu da política, mas não do trabalho social: é hoje presidente do Instituto Boa Vista, uma ONG que desenvolve projetos e oferece apoio jurídico e psicológico para pessoas idosas e a população LGBTQIA+.
A Rua das Ninfas evoca em Maria do Céu o melhor da capital pernambucana: “É uma rua poética, que conta muito da história da boemia, da noite, da vida das pessoas LGBT da cidade.” Junto com outras do Recife, a via é carinhosamente lembrada por Alceu Valença na música Pelas ruas que andei.
Em 1992, quando o músico lançou La belle de jour, Maria do Céu, que era modelo, foi chamada pela produtora TV Viva para fazer uma participação no videoclipe. No projeto original, ela não seria a protagonista, mas Alceu Valença a viu durante a filmagem e decretou: “É ela a Belle de Jour.”
Houve um rebuliço entre os produtores. “Porque já tinha outra mulher escalada para ser a personagem da canção, a modelo Julieta Cavalcanti”, conta Maria do Céu. “E o pessoal disse que não podia, porque eles já estavam gravando, mas Alceu bateu o pé e disse que queria que fosse eu também.” Na versão final, as duas modelos encarnam a personagem, mas foi Maria do Céu que ficou mais associada a ela. “Aí eu virei mesmo a Belle de Jour, o rosto da música”, diz. “Foi uma participação épica em uma música que é um sucesso.”
Como o próprio Alceu Valença conta em entrevistas, a canção é uma homenagem equivocada a Jacqueline Bisset. O compositor conheceu a atriz britânica em um bar de Paris, em 1986. Impressionado com sua beleza, resolveu celebrá-la em uma música que falasse de um filme protagonizado por ela. Só que Belle de jour (A bela da tarde), filme de 1967 dirigido por Luis Buñuel, é estrelado por Catherine Deneuve. Não tem Bisset no elenco.
Recentemente, a bela da Rua das Ninfas assumiu de vez seus cabelos brancos. Ela anda saudosa de sua primeira paixão: a psicologia. Maria do Céu se formou em 2009 na Faculdade de Ciências Humanas Esuda e agora está pensando em trocar, aos poucos, as pistas de dança pelo consultório. Antes de terminar a entrevista, ela faz um pedido ao repórter: “Se tiver que fazer um elogio no seu texto, diga que eu sou dona de mim.”
O texto é um dos sete selecionados para publicação entre os participantes do concurso Uma História na Minha Esquina, voltado a estudantes de jornalismo