Imagem O que você faria?

ficção

O QUE VOCÊ FARIA?

Os viúvos te ofenderão, os órfãos trarão sentimentos confusos

10 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

1.

Hoje, enquanto rememora os tempos de faculdade e espera na fila do cartório a emissão dos documentos para um filho estranhamente efêmero e repugnante, você é capaz de atribuir os eventos daquela noite ao efeito das drogas. Mas essa é uma elaboração recente.

Cartazes de manifestações, reuniões do Diretório Central dos Estudantes e bienais da UNE dividem espaço com pichações sobre socialismo, legalização do aborto e fim da polícia. O ar mistura fumaça, cores, nomes.

A casa é uma república composta por seis militantes: dois da causa ambiental, um trotskista e outros três que formavam uma chapa do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Somando os moradores, você e sua amiga, são oito pessoas, seis mulheres e dois homens, os dois homens são negros, quatro das mulheres são brancas, as outras duas são você e Brenda.

É o primeiro ano de faculdade e você ainda tenta se acostumar com os efeitos da maconha. Já havia aprendido a fumar sem tossir, mas ainda não consegue evitar que o contato com a erva te leve a associações mentais esquisitas. Um dos garotos te passa o baseado, pula a vez do trotskista e sorri, você devolve o sorriso, agradece e o encara por alguns segundos. Ele veste uma camiseta do time universitário de basquete. Se chama Jeferson, você vive encontrando-o pelo campus e tem a impressão de que ele só sorri para você, que quando fala com os outros, ele assume um aspecto sério.

O primeiro trago mancha a seda com batom roxo, finalizado no espelho do tapa-sol do carro da amiga. É uma noite quente e seca no interior paulista.

Você não sabe muito bem como definir e tem vergonha de expressar, mas, no fundo, você sente um pouco de vergonha da Brenda.

2.

Você demorará para perceber que na sua família materna as mulheres morrem primeiro. A família do seu pai sempre será viva e ausente. Você nunca se acostumará com os vocativos próprios aos parentes da linha paterna: a irmã da sua mãe você chamará de tia Rosemeire, a irmã de seu pai será sempre a Cláudia.

Para todos os efeitos, você criará o hábito de pensar como se tivesse apenas uma família, composta de órfãos e viúvos.

3.

A pele da Brenda é dez vezes mais escura que a sua. Se em alguns lugares você é chamada de moreninha, ela é a representação dermatológica da noite. Brenda joga capoeira, tem cabelo black power e chama qualquer pessoa com a pele mais escura de irmã. Você tem pais evangélicos, usa calça jeans santropê e finge gostar de Caetano Veloso. Depois de te ouvir constranger um aluno branco que citou errado um texto de Luiz Gama, Brenda decidiu te chamar de irmãzona e te seguir para todos os lugares.

Ela concorda com tudo que você diz, a não ser quando você tenta comparar o seu sofrimento ao dela em algum assunto de discriminação. Nesses momentos ela te alerta, com um leve toque no ombro, se vocês estiverem em pé, ou uma encostadinha no joelho, se estiverem sentadas lado a lado: “Tem que lembrar das diferenças do colorismo, né, irmãzona.”

Quando Jeferson te convidou para tomar um vinho em sua república, Brenda estava ao seu lado, na saída do restaurante universitário. Foi ela quem respondeu: “Nós vamos, né, irmãzona?

4.

Começará com a sua avó, a primeira a partir. Até a notícia chegar a São Paulo, ela já estará velada e enterrada. Depois, sua tia Rosemeire. Durante um exame de rotina, guardará sua sombrinha na entrada de uma clínica popular e, num tempo menor que o necessário para se acostumar com aquele ambiente e o cheiro de doença, descobrirá um tumor. Um mês depois, morrerá.

Sua tia Nastácia tem cirrose, você ainda não sabe. Será uma grande surpresa, porque ninguém naquele lar evangélico discute essa possibilidade quando se perguntam sobre o porquê de tia Naná sempre parecer distraída. O hálito alcoólico ela disfarça com um cuidado odontológico exagerado – escovações infinitas, uma arcada dentária perfeita. Durante seu velório, nem metade da igreja aparecerá. Uma meia dúzia de senhoras com saias longas e homens com roupas sociais compradas em brechó comporão o público da cerimônia. Ninguém comentará sobre bebidas, apenas sobre o sorriso dela. Um brilho divino, dirá uma saia; uma bênção de Deus, exclamará uma camisa social preta.

Sua tia Janaína e sua prima Neusa morrerão juntas. Acidente de trânsito banal, uma ida ao mercado para fazer as compras do mês. Não voltarão.

Sônia será a última a morrer, falecerá em circunstâncias obscuras. Sua prima Sô é casada com um técnico de computadores que, de um dia para o outro, será tomado pelo desejo de ter uma arma. A legislação se tornará mais flexível, ele comprará uma pistola Taurus G2C calibre 9 mm – todos saberão o nome dessa arma porque ele o repetirá em qualquer reunião. Ele não falará “Eu estou com a minha arma no carro” ou “Eu sempre carrego minha pistola” ou, por elegância, “Eu sei me defender”. Não. Ele sempre dirá: “Eu faço questão de carregar comigo a minha Taurus gê dois cê calibre nove milímetros.” Uma coisa esquisitíssima, ele nunca lhe parecerá violento, apenas fascinado com aquela invenção bélica.

Um dia, a Taurus gê dois cê calibre nove milímetros vai disparar e varar o fígado da prima Sônia. Jonathan alegará, em liberdade, que foi um acidente, que a arma disparou sozinha.

5.

No centro da mesa há uma garrafa de Coca-Cola cheia d’água. Você bebe vinho tinto para aliviar a secura da boca, Brenda está ao seu lado. Uma das garotas brancas – militante da causa ambiental – levanta do sofá e, dançando e cantando Um amor assim delicado…, pega a Coca e a ergue com uma das mãos, enquanto a outra sustenta um cigarro: “Vamos jogar!??”

O jogo se chama O que você faria?: uma pessoa gira a garrafa PET e os dois lados apontados selecionam os participantes. O lado de baixo pergunta. A questão deve começar com “O que você faria se…?”. O jogo é ideal para colocar pessoas em perspectivas inimagináveis (o que você faria se fosse um cachorro?), para constranger os outros (o que você faria se seu pai cortasse sua mesada?), para gerar situações (o que você faria se eu tentasse te beijar agora?); tudo depende do desprendimento da ocasião.

Na primeira rodada, a garrafa cai na posição de pergunta para Mônica, a ambientalista que sugeriu o jogo, e o desafiado é um dos garotos, o trotskista vestindo camisa florida e de barba, que segura a lata de cerveja com uma força estranha. A ambientalista pergunta qual seria seu hábito predileto caso ele fosse mulher. Brenda se ajeita na cadeira, o outro rapaz passa mais uma vez o baseado para você. Vocês trocam olhares por um tempo demorado, o transe é quebrado pela resposta ao desafio da hipotética mudança de gênero.

“Eu seduziria homens aleatórios por pura diversão”, diz o trotskista com um ar de evidente confiança na inteligência e criatividade das suas palavras. “Depois, não corresponderia às investidas, só pra ver suas caras confusas e frustradas, porque decepcionar é um prazer”, ele diz. “Como afirma Deleuze”, ele complementa.

Você sente sua bile revirar ao ouvir a imaginação oceânica daquele negrão barbudo sobre o que significava ser uma mulher. Caetano canta: A vida é oca como a touca de um bebê sem cabeça. Além de revelar que ele assistira a filmes eróticos demais antes de aprender duas ou três palavras feministas, você sabe que, na sua experiência, você até já tentou brincar de fêmea fatal suburbana, mas as coisas não saíram de forma tão glamourosa quanto a combinação de calça bege e sandálias, imagina.

Por exemplo, na vez em que você tentou flertar com um atendente do suporte técnico da internet que foi à sua casa, depois você percebeu que o cara não era apenas um esquisitinho tímido, charmoso. Ele era também um maluco que passou tempo demais em um fórum de conspiração e tinha opiniões estranhíssimas sobre o governo global. Ele se recusava a sair da sua casa, inventava coisas a fazer no modem e teste na velocidade da conexão. Quando finalmente conseguiu tirá-lo dali – inventando um primo policial e prestes a chegar –, você reforçou a fechadura da porta da sua quitinete.

6.

Você passará a vida tentando enquadrar uma fotografia mental com os maridos e filhos que restarão. Os viúvos te ofenderão, aquela lista de homens detestáveis que insistem em não morrer. Mas os órfãos trarão sentimentos confusos, ainda mais quando chegar a sua vez de parir e, inevitavelmente, ajudar a compor este grupo.

Ao retirar do quadro os viúvos, ficará apenas com a imagem de um amontoado de crianças diferentíssimas entre si, as proles originadas pela tendência familiar inexorável de se casar com qualquer um – qualquer um mesmo – que não fosse um homem preto: crianças negras claras, crianças brancas com cabelo encaracolado e nariz grosso, crianças de olhinhos puxados e pele marrom, loiros crespinhos, e você, com sua pele que fica mais escura nos verões, e seu filho, que você levará sozinha no cartório.

7.

Mônica, a ambientalista, responde dizendo que homens também podem seduzir pessoas aleatórias. O trotskista comenta que não é a mesma coisa, que são outras formas de seduzir… Enquanto a voz anasalada com o sotaque da Zona Norte paulistana entra pelo seu ouvido, você percebe que Jeferson desiste do jogo e vai para um sofá. Brenda inicia um discurso sobre como tudo aquilo que eles diziam era mais difícil para as mulheres pretas.

A garrafa gira outra vez. Mônica cai de novo na posição de questionadora, mas agora é sua vez de responder. Ela devolve a pergunta e pede para você responder o que faria se fosse homem.

“Mijaria em pé”, você responde. Brenda faz cara de quem achou isso uma ótima ideia. “Mijaria em pé?”, Mônica pergunta. “É. Em qualquer lugar: atrás de poste, carro, árvore, mictório, dentro dessa garrafa,” você aponta para o ponteiro do jogo.

“Mas não tem um adaptador pra essas coisas… Qual é o nome mesmo… Xerocopênis, pauceta, sei lá.” Sua boca fica seca e você dá outro gole no vinho. “Não é a mesma coisa”, você responde.

8.

Você se pegará pensando quanto tempo cada uma daquelas crianças teve com suas mães. Zeca, o primo que mais se parece com você, filho da Rosemeire, teve só três anos de companhia da tia Rose. Gisela, a loira que vive alisando o cabelo, viveu quase duas décadas; sua mãe morreu no dia em que ela passou no vestibular. Ricardo – japonegro, como costumavam brincar até ele achar isso muito ofensivo –, conviveu com Neusa até os 15 anos de idade. Janaína não teve filhos, a prima Sônia deixou um bebê recém-nascido, Elton, que agora vive com a família do Jonathan.

9.

A discussão sobre mijar em pé dispersa o jogo, e o vinho não resolve a secura. As vistas escurecem, suas coxas esbarram no lado de baixo do tampo da mesa. Um pensamento atravessa sua cabeça: a cada dia que passa sem gerar uma criança é um momento a menos para desfrutar da companhia de sua prole, antes de cumprir o destino inarredável das mulheres de sua família: morrer antes da hora.

Jeferson se levanta do sofá e tenta te ajudar, você recusa. Você vai até a cozinha, pega um copo d’água e sente o frescor gelado descer pela garganta. Os ruídos diminuem, você ouve: Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo… Você pensa em Jeferson, imagina que ele está te esperando no sofá.

Você volta para a sala e seu olhar pousa numa cena: o preto maconheiro beijando a Mônica. A surpresa te faz gargalhar. Os dois interrompem o beijo, parecem envergonhados.

Brenda pega a sua mão e solta um: “Pois é, irmãzona, pois é…” Ela recolhe a bolsa e te oferece carona, você aceita. Vocês saem sem se despedir. Da soleira da porta, você escuta: Que surpresa, beleza… Luz acesa, certeza…

Vocês entram no Fiat Uno, Brenda passa o cinto e se inclina para ajustar a angulação do espelho retrovisor direito, seus rostos se aproximam. Você tenta beijá-la enquanto reflete sobre o fato de nunca na vida ter percebido qualquer vontade de beijar a Brenda, que reage à tentativa com uma gentileza constrangedora, um tapinha no ombro e um “Eu te deixo em casa, irmãzona, você não tá bem”. O carro entra em movimento, você cola a testa no vidro lateral.

A atendente do cartório grita seu nome. Seu filho ameaça desatar um choro e você o reacomoda em seu colo. A atendente pergunta o nome e a data de nascimento, você responde.

Ela baixa o olhar até a tela do computador e digita enquanto dita as palavras: Caetano Gomes Soares, nascido em 9 de dezembro de 2019, na cidade de São Paulo, SP, cor branca.

Você tenta interromper, mas não consegue.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Sociólogo e escritor, publicou o livro de contos Praia artificial e o romance O embranquecimento (ambos pela Patuá)