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CARPETES DA REPÚBLICA

O funcionário que renovou o visual do Senado
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Clodoaldo Silva Santos, funcionário terceirizado da limpeza do Senado Federal, estava de férias quando o Congresso Nacional foi invadido por bolsonaristas fanáticos, em 8 de janeiro de 2023. Dois dias depois, seu colega João de Abreu Neto foi chamado para cumprir uma função que Santos criou no final dos anos 1990: decorar o carpete azul do plenário com as formas da bandeira nacional.

A mesa diretora, que é mais elevada, é cercada por rampas acarpetadas. É ali que Santos faz sua arte, penteando o carpete para criar áreas mais claras ou escuras. A bandeira que ele desenhara antes de sair de férias apagou-se de tanto ser pisoteada pelos invasores. Por sorte, Abreu Neto aprendera a técnica desenvolvida por Santos. Ele se orgulha do que realizou naquele momento tumultuado. “Fiz a bandeira em tempo recorde, na manhã do dia 10 mesmo, porque naquele dia já ia ter sessão”, diz Abreu Neto.

De volta ao trabalho, Santos descobriu que o carpete, danificado pelo vandalismo golpista, havia sido trocado. Não gostou da substituição: o novo carpete, diz ele, é mais rígido, o que prejudica a nitidez das figuras.

Filho de piauienses radicados em Brasília, Clodoaldo Silva Santos, de 54 anos, começou a trabalhar no Senado em 1998. Na função de auxiliar de serviços gerais, fazia a limpeza de praticamente todas as instalações da Casa. Os desenhos surgiram de forma espontânea: ao perceber os rastros deixados no carpete pelo aspirador de pó, ele foi criando formas diferentes. “Conforme aspirava eu ia desenhando também”, conta.

As três grandes rampas acarpetadas em torno da mesa diretora – uma ao centro e duas nas laterais – ofereciam o espaço ideal para a criatividade de Santos. “Ali, eu deixava uns desenhos abstratos mais elaborados, com várias linhas e contornos.” Uma de suas criações foi apelidada de “espinha de peixe”, por se parecer com a carcaça do animal.

A novidade foi bem recebida, mas com ressalvas. Santos lembra que “o doutor Carreiro” – Raimundo Carreiro, na época secretário-geral do Senado e hoje embaixador do Brasil em Portugal – achou que o carpete estava ficando “muito enfeitado” e pediu “algo mais sério” para decorá-lo. Foi por isso que, em junho de 1998, Silva passou a traçar a bandeira do Brasil.

O lábaro estrelado casou bem com a empolgação patriótica daqueles dias de Copa do Mundo na França. Mas Santos pensou na bandeira como uma homenagem a um novo brasileiro: seu filho nasceu naquele ano.

A bandeira estabeleceu-se na rampa central. De início, ela se resumia às formas básicas, mas o artista do carpete foi desenvolvendo detalhes, como a faixa com as palavras “ordem e progresso”. Em períodos de luto nacional – como o incêndio da Boate Kiss e a tragédia de Mariana –, ele desenha uma faixa escura cortando a bandeira. A última delas foi em agosto do ano passado, pela morte de Silvio Santos.

Em 2006, pediram que Clodoaldo Santos criasse novos desenhos para celebrar os dez anos da TV Senado. “Pensei em fazer o Congresso Nacional. Aí puxei duas colunas para as torres e fiz as cúpulas arredondadas”, diz. Desde então, o Congresso ocupa a rampa à direita da mesa. O lado esquerdo seria ocupado por outra obra de Oscar Niemeyer: a Catedral Metropolitana de Brasília.

Esses desenhos são feitos com apenas três instrumentos: duas escovas de tamanhos diferentes – partes de um aspirador de pó – e uma caneta esferográfica. Em condições normais, as figuras são retocadas de quinze em quinze dias, nos horários em que não há sessão no plenário. Tempos de agitação política exigem reparos mais frequentes. “Na época do impeachment da Dilma, as sessões iam até não sei que horas, e o pessoal pisava mais nos desenhos”, recorda Santos.

O desenhista fez dois trabalhos fora do Senado. Homenageou o presidente Juscelino Kubitschek no carpete vermelho do auditório do Memorial JK, museu histórico em Brasília. De novo, traçou as torres do Congresso: “Só que na primeira torre fiz a letra J e na segunda o K.” O outro trabalho, no plenário da Câmara dos Deputados, durou pouco: “Me chamaram para fazer a bandeira do Brasil lá. Dias depois, uma mulher me pediu para tirar. Disse que ia dar problema. Até hoje não sei o motivo.”

Em 2004, Santos foi promovido a encarregado de serviços gerais do Senado. Três anos atrás, foi realocado, ainda no mesmo cargo, para a gráfica, que fica em um prédio anexo. Hoje em dia, ele só vai ao plenário do Senado para fazer seus desenhos e não ganha adicionais pelo trabalho artístico nos carpetes: “Eu faço isso por prazer.”

Santos deixou a escola antes de concluir o ensino médio. Trabalhou como frentista em postos de gasolina e na lavagem de automóveis até encontrar um lugar estável no Senado. É fã de futebol, mas não de política. “Não sou nem de direita nem de esquerda. Sou a favor do Brasil”, diz. Admite, porém, que nunca votou em um partido de esquerda.

Na manhã de 11 de março, uma terça-feira, a piauí acompanhou o trabalho de Santos nos retoques da bandeira. O plenário ainda estava vazio – só haveria sessão à tarde. Com a escova maior, ele fez os contornos do retângulo. Depois, empregou a escova mais fina para o losango interno. Também usava a mão para clarear o carpete. “A técnica é basicamente essa: para baixo clareia, para cima escurece.” O lema “Ordem e progresso” é escrito com a ponta da caneta, sem deixar marcas de tinta no carpete. A caneta também é usada para assinar o trabalho com as iniciais de seu nome (CSS), geralmente no canto inferior direito.

Por volta das 10 horas, o senador Flávio Arns (PSB-PR) entrou no plenário para tirar fotos com um grupo de visitantes e, ao ver Santos desenhando os carpetes, fez um cumprimento. “Toda vez que venho com alguém aqui, eu digo: ‘Olha o nosso artista.’ Continue firme, hein!”, disse o senador.

“Amém, doutor, obrigado”, respondeu Santos, sem tirar os olhos do carpete.


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Repórter da piauí