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A DIFÍCIL TRANSPARÊNCIA

Na República Tcheca, um brasileiro descobre a arte em vidro
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No final de 2023, quando foi convidado a montar uma exposição na igreja do vilarejo de Kunratice u Cvikova, na República Tcheca, o artista do vidro Ricardo Hoineff, carioca de 56 anos, alertou seu interlocutor: “Você sabe que meu trabalho fala muito sobre gays e minorias, não sabe?” A resposta foi tranquilizadora: “Ricardo, nosso padre é um cara de mente muito aberta. Não tem problema nenhum.”

Na abertura da mostra, de pé no presbitério, Hoineff se surpreendeu ao ver dezenas de pessoas admirando suas obras. Divertiu-se ao constatar que alguns homens fotografavam com interesse o relevo em vidro de um jogador de futebol, mas saíam de fininho ao saber que era uma homenagem a Jakub Jankto, futebolista tcheco que saíra do armário naquele ano. “Em dois deles eu vi uma cara de ódio”, relembra Hoineff.

No altar, estava uma de suas peças mais elaboradas: uma sequência de cenas narrando a história de amor entre um homem meio golfinho e um mensageiro. No final, o casal mergulha na água para se beijar – e os dois têm o pênis ereto.

Só bem depois de criar essa peça, Hoineff percebeu que ela se relaciona à sua infância no Rio de Janeiro, época em que costumava passear de barco pela Baía de Guanabara, onde às vezes flagrava alguns golfinhos. “Eu queria aquela liberdade, eu queria estar lá”, relembra.

Hoineff tem um bigode à la Salvador Dalí, chora à toa e fala pelos cotovelos. De origem judaica, mudou-se para a Tchecoslováquia em 1991, pouco antes de o país se desmembrar na República Tcheca e na Eslováquia. Já teve seu trabalho exibido na Inglaterra, Polônia e Alemanha, entre outros países europeus. No país de adoção, por seu trabalho artístico com vidro, ele já foi tema de reportagens na tevê, em jornais, revistas e sites jornalísticos. O interesse por sua trajetória artística converge para um fato inusitado: até os 38 anos, ele não fazia nem ideia de como se produzia vidro.

Na infância, Hoineff era considerado “problemático” na escola. “Eu tenho muito problema de concentração. Hoje em dia isso se chama TDAH, THD, um negócio assim”, diz. Na sala de sua charmosa casa de três andares em Slunečná, vilarejo tcheco de 154 habitantes, ele ainda guarda uma coruja em cerâmica que fez quando criança. Seu pai, porém, o proibia de pintar e desencorajava atividades artísticas em geral. “Era a coisa que meu pai tinha mais medo: que eu fosse artista ou veado”, conta.

Na juventude, decidiu ser cenógrafo. Foi “assistente de assistente de assistente de cenografia” na novela Sassaricando, de 1987. Quatro anos depois, surgiu a oportunidade de estudar cenografia em Praga. Para se sustentar na República Tcheca, fazia bicos como DJ em bares e festas de casamento. Seu nome artístico vinha de uma ave brasileira: DJ Tucano.

Depois de concluir o bacharelado e o mestrado em cenografia, em 1998, Hoineff passou a trabalhar em cenários para programas televisivos. No mesmo ano, conheceu o economista tcheco Radek Kubik em uma estação de metrô em Praga. A paixão foi urgente: poucos dias depois, estavam morando no mesmo apartamento. Estão juntos há quase 27 anos. “O Radek me trouxe de volta aos 14 anos que eu não tive: a questão de namorar, de ficar apaixonado”, diz.

Em 2007, aos 38 anos, Hoineff foi convidado a trabalhar em um evento em Nový Bor, município tcheco conhecido como a “cidade do vidro”. Lá, visitou uma fábrica, onde soprou vidro pela primeira vez. “Era tudo que eu queria fazer e não sabia que existia”, conta.

A epifania em Nový Bor não causou uma mudança de vida imediata. Só três anos depois, Hoineff desistiu de seu trabalho como freelancer na equipe de arte de uma tevê para inscrever-se na Escola Técnica Superior do Vidro de Nový Bor. Mudou-se para um dormitório estudantil, onde os outros inquilinos tinham entre 14 e 21 anos. “Com 41, fui aprender tecnologia e química em tcheco, sendo que na adolescência era ruim em química em português”, ele recorda, rindo. Terminou o curso em 2013, mas sua formação artística ainda não estava completa.

Em 2019, começou uma residência em Frauenau, na Alemanha, onde conheceu a artista alemã Anna Mlasowsky, sua mentora. “É tudo bonito e legal, mas acho que você não está indo ao cerne da sua prática e de você mesmo”, diagnosticou a professora, quando o brasileiro lhe apresentou suas criações. Mlasowsky percebeu que Hoineff evitava abordar sua sexualidade no trabalho em vidro. Delicadamente, ela foi descobrindo as frustrações mais profundas do aluno. “Eu vivo há tantos anos com o meu marido e não posso chamá-lo de marido oficialmente”, desabafou Hoineff. Na República Tcheca, casais gays podem formar uma união de parceria, que não tem o mesmo status do matrimônio.

Dessa conversa, nasceu a inspiração para a peça em vidro #UnderBlankets, que ganhou destaque em 2022 na revista New Glass Review, do Museu do Vidro de Corning, nos Estados Unidos, uma das principais instituições dedicadas ao vidro. É uma obra de cerca de 2 metros de altura por 2 de comprimento, representando dois corpos separados, em posição fetal – como quem está angustiado ou com frio, explica Hoineff –, cada um debaixo de um cobertor.

Atualmente, Hoineff prepara uma nova série, motivada pela morte inesperada de um sobrinho de 30 anos, no ano passado. Seu ateliê fica na pequena Slunečná. De segunda a quinta-feira, como o marido trabalha em Praga, o artista conta apenas com a companhia da gata Madalena, que gosta de caçar ratos do campo, e do cão Dingo, que costuma perambular pelo vilarejo recolhendo crânios de veados. Na entrada da propriedade, ele deixa as obras de vidro que, na sua avaliação, não deram certo. Pendurada na parede da sala, há uma mensagem que um professor lhe deixou, em 1983, depois que o pai de Hoineff proibiu que ele fizesse aulas de desenho: “Seu amigo e professor não tem dúvidas quanto ao seu talento e sensibilidade. Não pare nunca!”

Hoineff prepara suas artes em vidro no estúdio de casa, no vilarejo de Slunečná, no Norte da República Tcheca – Foto: Gabriel Ferreira Morais


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