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OS PRINCÍPIOS POR CUMPRIR

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[PARCO, NADA FALAVA. O GOSTO, BEM SABIA?]

hoje não vou fechar a porta, cá te espero.
fico de riso quando na tua chegada
me promete um inferno, uma noite de enxames.

[ferramenta afiada, sua respiração?]

se eu soubesse cantar abrandava, na língua
que me falta, o calor que diz teu nome – e ria
com pausa pra durar um pouco mais contigo.

[pensava: e os companheiros de campanha, vivem?]
sinto mais uma vez o balanço dos barcos.

[a vida deles não se esquece do comércio?]
partir, eu nunca quis. janela sempre aberta.

[resistirão à artilharia dos espelhos?]
não vou deixar quebrar a vírgula da volta.

CHAMARAM, VIM DE LONGE, VASTIDÃO

alimentar, alimentei. bastava?
há muito que fazer, mundo a trabalho.

vou plantar peixe miúdo na terra.
vou aprender comunidade. o lado

de lá, quina da praia, tem abismos
– são os abissos no dentro das gentes.

vê no teu rosto, menina: procede
um cuidado preciso, a prece à brisa,

alguma coisa a apascentar o barro,
cada gota suada, cada milho
da manhã, não secar água da mina,

afiar boa reza todo dia,
não secar as escamas feito espuma
no estirâncio, lembrar que ninguém doma

os polvos – nem quando esquecem do mar.

OS PRINCÍPIOS POR CUMPRIR

– e o sol dando mais um giro
nas palmas das mãos. a pele,
encarquilhada ao cardar
da idade, instala à sua volta
todo o incêndio das esperas.

a casa é um cais de preceitos?

anota à risca na cara
escamada dos silêncios
o que, por força do hábito,
no sussurro afia a lâmina
da língua. o peito abre em canto
no chamado das crianças.

água de mar que ensinou?

na última volta da lua,
desde lá inda se espera
muita miçanga nos fios.
grão de areia não se conta –
só quem sabe é a mão que escava
muito a fundo cada trança.

quem vai parir as manhãs?

saber nascer só doía
– diz a palavra de um pai
que só se conhece a pulso,
pois que nem se sabe, e é pouco,
e nem deu pressentimento
dos cardumes, dos enxames.

se estão soltos, quem deixou?

cada cabaça que conte
quanto d’água da moringa
se perdeu. das mães aceita
boa oferta de partilha
na conferência do dia
que se deu pelo comércio.

vissem mundo, o que fazer?

se faz com muito preparo
a próxima noite. a vida
chega adereço, oceana,
caminha pelo chão móvel
arrolando das marés
as peças de encalhe e embarque.

quem será isca dos monstros?

PRAIA COMUM

a saber, não há mais ninguém em casa
e a manga está madura no quintal.

[não faz muito sentido, eu sei, mas te segura]

quantas vezes não ouviu: “sementinha
do mal se mata antes de brotar”?

[o meio dos artistas não difere tanto]

se der de se mostrar na radicalidade
antes de dar em flor, botão, te arrancam.

[sendo o terreno fértil, basta a superfície]

numa campina verde e acidentada,
onde um boi vai pastar [e é só uma imagem,

não é pra se apegar] e esquece a grama
quando enxerga o moirão malposto, a fresta

da cerca e da porteira [há vaca indo pro brejo].

há boias de marcar em mar aberto,
o aboio é segurança em mar de morro.

[tem algo similar nessas passagens]

quando alguém se distrai, dizem uníssono:
errância [um dia viu que podia voltar],

então lambeu seu cão leprento e focinhou
sua mulher, a arrependida do crochê,

que disse: “não me invente de sair de novo,
não me faça promessas, ninguém. se vier
de papinho, mete o pé, e me chupe as dívidas.”

[o ocidente nasceu dessa delícia, dizem]


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Poeta, professor e tradutor, é editor da revista Escamandro. Seus livros mais recentes são Chabu e Rebute (TextoTerritório)