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A IGREJA CÚBICA VIRTUAL

Comunidade católica no Minecraft incomoda arquidiocese
Imagem A igreja cúbica virtual

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Na manhã de 13 de julho passado, o papa Bento VIII celebrou a missa dominical nos jardins do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo. O céu estava limpo, renderizado em azul vibrante. Os fiéis, adolescentes em sua maioria, acompanharam o sermão por um chat do Discord, aplicativo de conversa muito usado pelos gamers. No altar ladeado por vasos pixelados, o pontífice escolheu como tema a Parábola do bom samaritano. “O cristão é chamado a exercer sempre um papel de fraternidade e caridade”, disse. Após a bênção, o papa anunciou que passaria o restante do domingo em retiro espiritual, mas abriu uma exceção para falar com a piauí.

Bento VIII é uma persona do brasileiro Pietro Ferraz, de 24 anos. Ele é o atual líder da Comunidade Católica de Minecraft, que conta com mais de 12 mil seguidores no Instagram. Houve um pontífice com esse nome no século XI, mas Ferraz na verdade quis homenagear Joseph Ratzinger, o teólogo alemão que comandou a Igreja como Bento XVI.

Em entrevista concedida na pequena comuna italiana virtual, Ferraz explicou que a fé digital não substitui a real: “O Minecraft é só um meio. Nosso objetivo é evangelizar.” Dentro do servidor católico, os jogadores assumem o papel de leigos, bispos e padres. Alguns rezam o terço no Discord. Outros organizam procissões na Sexta-Feira Santa, celebram a via-sacra em cidades inspiradas na Jerusalém bíblica, e preparam retiros vocacionais para jovens.

Lançado em 2011, o Minecraft, jogo eletrônico que ganhou recentemente uma adaptação para o cinema, é uma espécie de Lego digital de proporções infinitas e definição de imagem em 16 bits, o que lhe dá o visual primitivo dos computadores do século passado. O jogador entra num mundo feito de pequenos blocos cúbicos onde pode construir o que quiser: casas, vilas, castelos, cidades.

O game vai além da arquitetura. Permite criar comunidades com regras próprias e até simular estruturas sociais e religiosas. É nesse cenário que surgem templos, terreiros, sinagogas e igrejas. Além da comunidade católica, há espaços dedicados ao candomblé, ao judaísmo e a diversas outras expressões de fé – pixeladas, mas guiadas por devoção real. Estima-se que o jogo tenha mais de 300 milhões de cópias vendidas e cerca de 62 milhões de jogadores ativos mensais em todas as plataformas.

O que parecia apenas uma forma curiosa de devoção virou caso de polícia no final de junho. Um padre da Arquidiocese de Salvador, ao procurar pelo próprio nome no Google, notou que aparecia em um blog intitulado Arquidiocese de Salvador Minecraft, braço soteropolitano da Comunidade Católica de Minecraft.

Julgando que havia sido vítima de falsificação eclesiástica, o padre alertou a Cúria, que registrou um boletim de ocorrência na Delegacia Virtual da Polícia Civil do Estado da Bahia. Alguns dos jogadores assumem a persona de eclesiásticos que não só existem na vida real, como estão em plena atividade.

A arquidiocese não quis conceder entrevista à piauí e tampouco revelou o nome do padre que suscitou a queixa. “Alertamos a todos que não confiem nas informações divulgadas nesse site falso, pois elas não representam o posicionamento oficial da Arquidiocese de São Salvador da Bahia”, diz a nota enviada à reportagem. Acrescenta que a existência de tal simulacro pode induzir os fiéis ao erro, uma vez que utiliza, para fins recreativos, os nomes e cargos de pessoas reais sem o consentimento delas.

A reação surpreendeu os jovens da Comunidade Católica de Minecraft, que decidiram pelo fechamento da unidade soteropolitana do jogo – reproduções virtuais de outras arquidioceses Brasil afora permanecem a pleno vapor. “Se tivessem perguntado, a gente explicava”, diz um dos membros, em condição de anonimato.

Basta citar o caso de Leony Mariano, estudante de 15 anos que há dois anos frequenta a igreja cúbica virtual e ganhou o título de monsenhor prelado de honra no 39º pontificado (a sucessão de papas é rápida: a comunidade hoje está no 43º pontificado). Ele atua como recrutador vocacional. “Quando a pessoa chega, a gente pergunta se quer seguir a vida leiga, religiosa ou sacerdotal. E aí ela é encaminhada”, explica. Há seminários, votos (válidos apenas no universo do jogo, ressalta Mariano), e aulas sobre os aparatos litúrgicos para missas.

A ambição da comunidade é formar fiéis por meio do jogo. É o que diz um seminarista de 19 anos que prefere não se identificar, por receio de represálias da Igreja. “Trata-se de uma proposta criativa e respeitosa de evangelização”, diz. Ele lamenta que a arquidiocese tenha reagido de forma “jurídica e não pastoral”: “Acusar-nos de induzir ao erro é desproporcional diante da clareza e da boa intenção com que atuamos.” No Minecraft, no papel fantasioso de arcebispo, ele ajuda a organizar o conclave. Na vida real, segue as aulas do seminário.

A Comunidade Católica de Minecraft é um organismo descentralizado, composto por fiéis brasileiros, colombianos, costa-riquenhos e mexicanos que se reúnem para estudar o catecismo e evangelizar jovens gamers.

A linguagem é digital, mas a intenção é apostólica. Para muitos, é a única experiência concreta de vida na fé. “Tem gente que não tem acesso à missa no lugar onde mora e aqui consegue rezar em comunidade”, diz o seminarista. Há também momentos offline: alguns jovens já se encontraram pessoalmente, depois de anos rezando juntos no jogo.

O último Censo do IBGE revelou que em 2022 os católicos eram 56,7% dos brasileiros. No censo de 2010, eram 65,1% – uma queda de 8,4 percentuais. No mesmo período, a parcela de evangélicos foi de 21,6% para 26,9%.

Em tal cenário, o grupo de adolescentes imaginava que quem decide evangelizar num jogo online talvez merecesse escuta e apoio. “O digital é uma ponte, nunca um fim”, diz o seminarista. “Onde há desejo sincero de evangelizar, ali o Espírito Santo já está agindo.”


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