esquina
Pedro Tavares Jul 2025 14h16
7 min de leitura
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Em plano de detalhe, as mãos fazem o nó na gravata bordô de listas diagonais nas cores azul-marinho, amarela e creme. A camisa é branca, estampada com suave xadrez verde. No arranjo elegante, o paletó é azul-marinho com xadrez risca de giz, estilo príncipe de Gales. Corte. Um tênis de malha knit, que imita tricô, impecavelmente branco. Corte. Quem está terminando de se arrumar é o ex-presidente e escritor José Sarney, no seu primeiro vídeo no Instagram. Corte. Seguem flashes ultrarrápidos de seus 95 anos de vida – e 70 de política. Neste seu post de estreia na rede social, em 12 de junho, ele escreve: “Hoje inicio um novo capítulo com vocês. Sejam bem-vindos ao meu Instagram. A história continua.”
No dia 18 de julho, depois de um mês de atividade nas redes, Sarney comentou em sua coluna semanal no jornal Correio Braziliense e no Imirante, site de notícias do Grupo Mirante, da família do ex-presidente: “Esse mundo fascinante da internet que agora o Instagram está me proporcionando é para mim um mundo novo, cheio de seduções e medo.”
Sarney chegou nesse mundo novo incentivado pelos netos. “Meu objetivo primeiramente era me conectar à geração deles”, diz à piauí, em uma videochamada na tarde do dia 8 de julho. Ele estava passando uns meses em São Luís, a capital maranhense, para fugir do clima seco em Brasília, onde mora, e ficar um tempo com os bisnetos. “A rede social modificou a sociedade. Tudo passa por ela, para o bem ou para o mal”, continua. “Ela tem esse poder transformador e faz parte do cotidiano de todos nós. Esse foi o motivo que me levou a entrar no Instagram.”
Quem administra o perfil na rede social e cuida da produção dos vídeos é uma de suas netas, Maria Fernanda Murad Sarney, de 37 anos, filha de Fernando Sarney, empresário e dirigente esportivo. Os vídeos são intercalados com reproduções da coluna de Sarney na imprensa, como a de 13 de junho, chamada A pós-verdade, em que ele reflete sobre as redes sociais: “Estamos vivendo coisas com que nunca sonhamos. Uma delas, a pós-verdade, que colocou a mentira no lugar da verdade, que deixou de ser o que é para tornar-se o que as emoções da rede social definiram como verdade. O fato foi substituído pela narrativa.”
Sarney diz que não perde muito tempo vendo posts de outras pessoas. Embora já tivesse cerca de 90 mil seguidores em meados de julho, ele seguia somente sete perfis: o da Academia Brasileira de Letras (para a qual foi eleito em 1980); da Academia Maranhense de Letras (eleito em 1952); da Fundação da Memória Republicana Brasileira (antes Fundação José Sarney, em São Luís); de seus filhos Roseana e José Sarney Filho, do neto Adriano Sarney (filho de Sarney Filho); e, claro, do presidente Lula – que já o está seguindo de volta.
O Instagram é a única rede social de Sarney. As publicações em geral tratam de seu cotidiano, seus hobbies e histórias de vida. Também mostram cenas da vida doméstica – celebrações de aniversários da família, fotos e vídeos com os bisnetos ou com a mulher, Marly, com quem é casado há 73 anos. Até agora, o post mais curtido é aquele em que ele agradece o carinho dos seguidores (o que não o eximiu de alguns xingamentos em meio aos 9 mil comentários postados). Outro post que lhe rendeu bom engajamento foi o da visita à Academia Brasileira de Letras, em 11 de julho, para a posse do advogado e escritor José Roberto de Castro. No vídeo, aparece abraçado com Fernanda Montenegro e outros imortais.
No vídeo de 15 de julho, ele aparece cortando o cabelo, enquanto conta em off uma anedota da velha política. Como a de um dia em que Jânio Quadros foi à barbearia do Palácio da Alvorada e, ao ser perguntado como desejava o corte, respondeu apenas: “Sem conversa.” Na legenda do vídeo, Sarney fez uma promessa aos seus seguidores: “Na próxima, vou contar mais sobre o meu bigode – que uso desde os 17 anos.”
Em um vídeo de 30 de junho, o ex-presidente surge fazendo exercícios. Primeiro, sentado, lançando uma bola numa cesta baixa. Depois, caminhando entre obstáculos de plástico. “Muitos me perguntam sobre longevidade e o que faço para me cuidar. Bem, minhas segundas-feiras começam assim!”, ele escreveu no post daquele dia. No de 9 de julho, acrescentou outro conselho: “Dormir muito, comer pouco e não discutir com sua mulher.”
Sarney acorda por volta das cinco e meia da manhã e, a partir das 7h30, faz uma hora de exercícios e fisioterapia, quatro vezes por semana. O restante do dia geralmente é dedicado às atividades intelectuais. “Escrever é uma compulsão. Escrever e ler. São duas coisas que se completam. De maneira que eu estou sempre agarrado num livro”, conta. Autor prolífico, ele já lançou 123 títulos.
Quando fala de livros na rede social, Sarney quase sempre escolhe os clássicos. Dedicou posts a Dom Quixote – a obra-prima de Miguel de Cervantes é seu livro favorito – e a mestres brasileiros, como Machado de Assis e Guimarães Rosa. Atualmente, está lendo Nexus, best-seller de Yuval Harari. “Harari utiliza uma linguagem muito pessimista e nos adverte que o futuro com os computadores será uma coisa difícil”, diz à piauí.
No final de 2014, quando encerrou o seu terceiro e último mandato como senador pelo Amapá, Sarney colocou um ponto final na carreira política. “Na minha idade eu não posso pensar nisso. Quero transmitir um pouco da minha vivência e dividi-la com um público muito mais amplo”, afirma. Com esse objetivo, ele espera concluir até o fim do ano um livro que pretende ser uma análise robusta da política nacional e cujo título provisório tem algo de misterioso: Brasil no seu labirinto. “No livro, devo dizer o que eu penso dessa situação nacional depois da experiência que tive e das posições que adotei.”
Uma das situações preocupantes da política brasileira é a difícil relação entre o presidente Lula e o Congresso. Com base na sua experiência na Presidência, Sarney aconselha: “Eu acho que a política é a arte do possível. Sempre achava que a gente tinha que buscar o que era possível, não buscar o impossível. Às vezes, a gente consegue o impossível buscando o possível, não é?”
De Lula, ele fala como se tratasse de um antigo compadre: “O que velho gosta é de ser bem tratado. Então, como ele me trata bem, eu gosto muito dele, e eu o trato da mesma maneira.” E cita uma frase de reconhecimento que Lula lhe disse ao assumir seu primeiro mandato presidencial, em 2002: “Duas coisas foram importantes para minha vitória: o José Alencar [então vice de Lula], que pacificou a área empresarial, e o senhor, que pacificou os conservadores do Brasil.”
O Instagram é novidade para Sarney, mas não se pode dizer que ele tenha ignorado ao longo da vida a importância da exposição midiática. Antes de assumir pela primeira vez o governo do Maranhão, em 1966, ele convidou ninguém menos que Glauber Rocha para registrar sua posse. O diretor do já consagrado Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) seguiu à risca a encomenda – mas com um adendo dialético. Ao discurso inaugural de Sarney – então com 35 anos e eleito pela Arena, o partido criado para dar apoio ao governo militar –, Glauber contrapôs imagens da miséria avassaladora do estado. (Há coisas que parecem perenes no Brasil: ainda hoje, o Maranhão, que passou quatro décadas sob influência política da família Sarney, tem mais de 50% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza.)
A posse como governador em 1966 foi o primeiro grande episódio da carreira política de Sarney – iniciada em 1955, quando ele assumiu como suplente de deputado federal. O clímax, é claro, foi a chegada à Presidência do país, em 1985.
É esse momento que emerge ao final da conversa, quando pergunto a Sarney qual seria o assunto de seu próximo post. “Eu queria falar da noite em que descobri que seria presidente”, ele diz. “Me ligaram falando que o Tancredo estava doente e que eu assumiria a Presidência. Acho que daria um bom vídeo, não acha?”
Até o fechamento desta edição o vídeo ainda não tinha aparecido no perfil do ex-presidente no Instagram. Sarney tampouco havia revelado a origem de seu famoso bigode, que está relacionado a uma superstição, como ele adianta à piauí: “Eu tenho medo de tirar e não dar sorte.”