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O PARADOXO DA COPA

Como sul-americanos, africanos e asiáticos fizeram valer um torneio que os europeus foram disputar a contragosto
Imagem O paradoxo da Copa

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No dia 4 de julho, feriado da Independência dos Estados Unidos, 42 166 pessoas estiveram no Citizens Bank Park, um estádio de beisebol na Filadélfia, para assistir à disputa entre o Philadelphia Phillies e o Cincinnati Reds. Na tarde do mesmo dia, enquanto os torcedores voltavam para suas casas, uma multidão de 65 782 pessoas, composta na maioria por estrangeiros, fazia o caminho inverso, a fim de ver a partida entre o Palmeiras e o Chelsea, no vizinho Lincoln Financial Field – praça poliesportiva convertida em sede da novíssima Copa do Mundo de Clubes da Fifa. Em um estádio quase lotado, o time inglês superou o Palmeiras por 2 a 1, classificou-se para a fase seguinte – e acabou mais tarde erguendo a taça de “campeão do mundo” depois de derrotar o Paris Saint-Germain por 3 a 0, numa apresentação de gala.

Para os americanos, o esporte que estava sendo praticado durante a Copa do Mundo de Clubes era o soccer – o mesmo que o resto do mundo identifica como futebol. Apesar de sua vasta tradição esportiva e da capacidade de monetizar tudo o que gira em torno de uma bola, os Estados Unidos são um dos pouquíssimos casos em que a modalidade praticada com os pés não lidera no gosto popular. Por isso, a escolha do país para abrigar a primeira edição de um torneio quadrienal reunindo os 32 melhores clubes de todos os continentes, aos moldes da tradicional Copa do Mundo de seleções, foi um tanto ousada por parte da Fifa. A decisão poderia ter sido catastrófica, inclusive pela tumultuada situação política nos Estados Unidos – e a perseguição implacável aos imigrantes, sobretudo latino-­americanos, grandes fãs de futebol. Mas, ao fim de 63 jogos, em um mês, e ponderados erros e acertos, a sensação é que a Fifa conseguiu emplacar a sua Copa do Mundo de Clubes.

Há um contexto por trás da obsessão para definir o “campeão do mundo” de futebol. A história começa em 1950, no Maracanã, e se relaciona com a inesperada derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai, no episódio que ficou conhecido como Maracanazo. Em 16 de julho, um público estimado em 200 mil torcedores compareceu ao recém-­inaugurado estádio com a certeza de que o Brasil chegaria ao seu primeiro título mundial – bastava um empate. Mas um aguerrido Uruguai virou o jogo, levou a Copa e provocou nos brasileiros uma crise de identidade com efeito duradouro.

Em meio ao abalo emocional, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) – atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF) –, organizou, em 1951, a Copa Rio, um torneio internacional de clubes com apoio da Fifa e do governo brasileiro. O campeonato, que buscava resgatar o orgulho ferido dos brasileiros, reuniu oito clubes (cinco da Europa e três da América do Sul) e terminou com o Palmeiras campeão, depois de superar a Juventus, clube da Itália. À época, alguns meios de comunicação conferiram ao alviverde o título de campeão mundial, e o clube encabeçou o pleito. A Fifa, desde então, tem uma conduta errática quando se trata de reconhecer ou não a conquista. Essa é a origem da polêmica sobre o Palmeiras “ter ou não ter um Mundial”, o que também se aplica ao Fluminense, vencedor da segunda – e última – edição do torneio, em 1952.

Uma nova disputa de envergadura aconteceu apenas em 1960, quando se confrontaram os vencedores da Co­pa Libertadores da América e da Copa dos Campeões da Europa (hoje Liga dos Campeões da Europa). Até 1979, o torneio, realizado sem o aval da Fifa, foi nomeado Copa Intercontinental, com jogos de ida e volta (e uma terceira partida em caso de empate), normalmente nos estádios dos campeões continentais. O auge viria entre 1980 e o final dos anos 1990, então com uma partida única, realizada sempre no Japão (em Tóquio ou Yokohama), com o patrocínio da montadora Toyota. Os brasileiros que ganharam o título mundial neste formato são Grêmio, São Paulo e Flamengo.

A Fifa, à qual se convencionou atribuir a autoridade moral para definir quem poderia se proclamar “campeão do mundo”, só se interessou pelo assunto no final do século passado. Em janeiro de 2000, de maneira improvisada, a entidade organizou um Mundial de Clubes menos de dois meses depois da disputa em jogo único no Japão: na época sem tradição internacional, o Corinthians foi convidado por ser o campeão brasileiro de 1998 e acabou conquistando, também no Maracanã, seu primeiro título mundial chancelado pela Fifa – anos depois, a entidade reconheceria a validade de quase todos os certames das décadas anteriores.

O Mundial de Clubes organizado pela Fifa seria retomado apenas em 2005, e só a partir daí passou a ter um regulamento fixo, com um representante de cada continente e jogos eliminatórios que, invariavelmente, conduziam a um embate entre europeus e sul-americanos. Até 2012, os representantes da América do Sul e da Europa estavam empatados, com 25 títulos para cada continente. Daí para a frente, com os times europeus atraindo investimentos cada vez mais milionários, nunca mais um sul-americano levou o título. Os europeus já acumulam treze conquistas consecutivas.

Com um histórico de escândalos que se estendia por décadas, a reputação da Fifa foi severamente impactada em 2015: uma operação internacional revelou um esquema de corrupção sistêmica, resultando no indiciamento de 45 dirigentes e em investigações em quarenta países. O episódio expôs subornos milionários em licitações e eleições, e forçou a entidade a adotar mudanças radicais: auditorias exaustivas, governança independente e mandatos limitados para seus dirigentes. Ainda que sob desconfiança generalizada, a Fifa vem elevando o faturamento global do futebol: a receita associada à Copa do Mundo de 2022, no Catar, chegou a 7,5 bilhões de dólares, um recorde.

O esforço para distanciar a entidade das denúncias – e, claro, das más práticas de gestão – vem sendo liderado por Gianni Infantino, o ítalo-suíço que assumiu a presidência em 2016, em substituição ao também suíço Joseph Blatter, um dos indiciados no ano anterior. (Nos 121 anos desde a sua fundação, em 1904, a Fifa foi presidida por apenas nove dirigentes, sobressaindo-se as dinastias do francês Jules Rimet, de 1921 a 1954, do brasileiro João Havelange, de 1974 a 1998, e do próprio Blatter, de 1998 a 2015.)

Desde o seu primeiro mandato, uma das obsessões de Infantino é a organização da Copa do Mundo de Clubes. Ele chegou a anunciar para 2021 o que deveria ter sido a primeira edição do certame, na China, mas a pandemia impôs ao futebol uma pausa forçada. Dois anos depois, mais poderoso no cargo, com o apoio de federações e confederações da Ásia e da África e cercando o presidente Donald Trump de mimos, Infantino confirmou o torneio para meados de 2025, nos Estados Unidos – que, não à toa, é um dos três países-sede da Copa do Mundo de seleções em 2026.

O prazo dilatado para maturação do torneio se deve às resistências nada veladas dos clubes europeus, que atuam como grandes conglomerados, e da própria União das Associações Europeias de Futebol (Uefa, na  sigla em inglês), que controla o esporte no continente. Insatisfeitos com um calendário apertado e pouco empolgados em medir forças com clubes de regiões periféricas, os gigantes europeus boicotaram a iniciativa até quando foi possível. Se já relutavam em fazer um ou dois jogos anuais para decidir o campeão mundial, o que dizer de uma competição com sete jogos disputados em um mês?

Ainda que seja razoável a argumentação acerca do calendário (os meses escolhidos pela Fifa para o torneio, junho e julho, coincidem com a pausa de verão na Europa), existe também a ambição dos dirigentes europeus de manter a hegemonia no futebol global. A disputa por espaço no calendário levou a Uefa a questionar a legitimidade da proposta da Fifa. Além disso, alguns dirigentes de clubes europeus e da própria Uefa continuaram a exibir seu desdém pela Copa do Mundo, deixando claro que, para eles, o que realmente interessa são campeonatos nacionais e a Champions League, todos muito lucrativos.

Além de corajosa, a Fifa foi habilidosa ao conduzir negociações nos bastidores e fazer concessões que reduziram pouco a pouco a animosidade dos grandes centros financeiros do esporte. Ao ter como sede um país cujo mercado é altamente desejado por clubes que se enxergam como grandes marcas globais – e, a rigor, são isso mesmo –, o torneio ganhou contornos mais e mais interessantes do ponto de vista financeiro. Nesse sentido, o elemento definitivo foi o anúncio da premiação: 1 bilhão de dólares, distribuídos de maneira proporcional, conforme o desempenho de cada clube.

A decisão de nomear oficialmente o torneio como Copa do Mundo de Clubes da Fifa (Fifa Club World Cup, em inglês) revela uma estratégia de reconhecimento simbólico e de estabelecer uma marca duradoura no futebol global. Abandonando nomenclaturas ambíguas, a entidade optou por uma designação que remete diretamente à tradição da Copa do Mundo (Fifa World Cup): 32 participantes distribuídos em oito grupos de quatro, com os dois melhores avançando às fases eliminatórias. Para conquistar o título, é necessário enfrentar sete adversários, em sedes previamente designadas dentro de um único país. O próprio Infantino destacou que a intenção é transformar a Copa do Mundo de Clubes em um evento fixo, sempre no ano anterior ao encontro das seleções.

A definição dos critérios para distribuir as 32 vagas seguiu a lógica empregada para o torneio de seleções, com ajustes que levaram em conta a tradição dos clubes em cada região: 12 vagas para a Europa, 6 para a América do Sul, 4 para a América do Norte, 4 para a África, 4 para a Ásia e 1 para a Oceania – além de um espaço garantido para um representante do país-sede. Em relação à Copa do Mundo das seleções de 2022, Europa e África perderam uma vaga, elevando o patamar das Américas do Sul e do Norte/Central. Já a Oceania teve uma posição assegurada, ocupada pelo quase amador Auckland City, que voltou para a Nova Zelândia com duas derrotas, um empate e nada menos que dezessete gols sofridos.

Coube a cada confederação continental estabelecer os parâmetros para definir seus representantes. Os campeões dos últimos quatro anos foram quase sempre contemplados, e as vagas “excedentes” foram preenchidas a partir de rankings de desempenho de 2021 a 2024, com algumas salvaguardas. Tentando ampliar o alcance geográfico, a Fifa estipulou o limite de duas vagas por país. Isso garantiu maior diversidade na Europa, mas não muita na América do Sul: foram escolhidos quatro times do Brasil e dois da Argentina – e nenhum outro sul-americano. Essencialmente porque os quatro últimos campeões da Copa Libertadores da América foram brasileiros – Palmeiras, Flamengo, Fluminense e Botafogo. Entre os argentinos foram contemplados o Boca Juniors e o River Plate, bem colocados no ranking da Conmebol.

Para as quatro vagas das América do Norte/Central, a Fifa tinha interesse de contemplar representantes dos Estados Unidos, de modo a atrair mais público e ampliar a divulgação do evento. Deu sorte. Como dois clubes mexicanos pertenciam ao mesmo conglomerado econômico, um deles precisou ser excluído – e, no jogo que definiu o novo participante, o americano Los Angeles FC acabou obtendo a vaga ao derrotar o mexicano América. O dado inusitado ocorreu na escolha do representante do país-sede: o Inter Miami foi convidado por ter liderado a fase classificatória da Major League Soccer, a MLS (a liga americana), em 2024. Daria tempo de esperar o campeão de fato (após os jogos eliminatórios), mas o casuísmo foi calculado. Escolheu-se o Inter Miami apenas para ter entre as estrelas da Copa o craque Lionel Messi, que joga no time.

A final disputada entre o Chelsea e o Paris Saint-Germain pode ter surpreendido pelo resultado, com uma vitória tranquila do time inglês, mas a presença das duas equipes no jogo decisivo não causou espanto. Afinal, o PSG é o atual campeão da Europa. O Chelsea, por sua vez, se equipara ao time francês nos indicadores de poderio financeiro. No entanto, considerando-se o que aconteceu nos Estados Unidos entre meados de junho e julho de 2025, é superficial apontar que foi um torneio previsível.

Antes de a bola rolar, projeções estatísticas estipulavam em 80% a probabilidade de que algum dos seis representantes mais fortes da Europa ficaria com o título – PSG, Manchester City, Bayern de Munique, Inter de Milão, Real Madrid e Chelsea. Um segundo pelotão europeu – Borussia Dortmund, Atlético de Madrid, Juventus, Benfica e Porto – somava 18% de chances. Os estudos conferiam a Palmeiras, Flamengo e River Plate, os maiores vencedores da América do Sul na última década, escassas 0,3% de chances de voltar para casa com o troféu. Esses percentuais refletem o abismo orçamentário: segundo o relatório Football Money League 2025, da consultoria Deloitte, o Real Madrid foi o primeiro clube a superar a marca de 1 bilhão de euros de faturamento em uma única temporada (2023/2024). O Flamengo, sul-americano mais bem colocado na lista, faturou 19% dessa quantia. A disparidade é ainda maior quando se comparam valores de mercado e folhas salariais dos elencos.

Contrariando a expectativa, a chegada de dois clubes endinheirados à decisão teve seus momentos de instabilidade. Favorito destacado em um grupo que incluía o Flamengo, o Espérance da Tunísia e o anfitrião Los Angeles FC (que, por ironia, não jogou em Los Angeles), o Chelsea tropeçou diante do adversário brasileiro – que aplicou um 3 a 1 com autoridade. Mais que isso: o PSG sucumbiu a um disciplinado Botafogo no lendário Rose Bowl, estádio onde o Brasil ganhou seu quarto título mundial em 1994. O time carioca venceu por 1 a 0.

Esses reveses de Chelsea e PSG não foram casos isolados. Outro brasileiro a demonstrar força diante dos europeus foi o Fluminense: tendo empatado sem gols com o Borussia Dortmund na fase de grupos, o tricolor carioca se impôs diante da italiana Inter de Milão, atual vice-­campeã continental, e passou para as quartas de final. Uma vez lá, venceu o saudita Al-Hilal, que eliminara na etapa anterior o badalado Manchester City, e passou para a semifinal – um percurso muito melhor do que o projetado para qualquer time de fora da Europa.

Como o Fluminense, o Palmeiras também foi longe: líder de um grupo equilibrado, que incluía Porto (Portugal), Al-Ahly (Egito) e Inter Miami, o alviverde se classificou para enfrentar nas oitavas justamente o Botafogo, o conterrâneo com quem travara duelos marcantes nas duas últimas temporadas: em um jogo muito intenso na Filadélfia, o time paulista se qualificou para as quartas de final com um gol solitário na prorrogação. Uma nova vitória, nas quartas, representaria uma improvável semifinal contra o Fluminense e a garantia de um brasileiro na decisão, mas o alviverde parou no Chelsea, que já fora seu algoz na final do Mundial de 2021.

O bom desempenho dos brasileiros nas fases iniciais pode ser lido de diversas formas, e uma delas referenda uma crítica dos clubes mais ricos: o calendário. Antes dessa nova Copa, os duelos intercontinentais eram programados para dezembro, com europeus no meio da temporada e sul-americanos exaustos depois de uma temporada inteira. Agora, o cenário se inverteu: brasileiros (e argentinos) chegaram aos Estados Unidos em plena forma, e enfrentaram times enfastiados pela temporada que acabou de se encerrar. Somem-se a isso o agendamento de partidas para o meio-­dia, as temperaturas superiores a 30ºC, o estapafúrdio protocolo de paralisar as partidas diante de ameaças de tempestade que quase nunca vieram – e interromperam jogos por até duas horas – e está pronta a receita para a contestação.

Mas não veio do campo o elemento que mais chamou a atenção durante a primeira fase. Com os fãs europeus ou ausentes, ou demonstrando apatia nos Estados Unidos, as torcidas da América do Sul, da África e mesmo da Ásia fizeram um espetáculo memorável na arquibancada – e também nas ruas das grandes cidades. Contrastando com a rigidez dos americanos e o tímido comparecimento de outras torcidas, brasileiros, argentinos, egípcios, tunisianos, sauditas e japoneses se destacaram pela presença numerosa, as ações coreografadas e a espontaneidade. O caso do japonês Urawa Red Diamonds foi significativo: com uma massa muito compacta atrás de um dos gols, seus aficionados ganharam destaque midiático pela precisão com que se movimentavam na arquibancada, a uniformização e a disciplina que os levava a não usar celulares durante a partida.

Já os brasileiros foram beneficiados por uma logística favorável, com jogos em grandes centros e sempre nas regiões costeiras. Foi por isso que palmeirenses, tricolores e flamenguistas passaram as duas primeiras semanas se esbarrando entre Nova York, Pensilvânia e Flórida. As duas primeiras torcidas cumpriram o mesmo roteiro, com dois jogos iniciais em Nova Jersey e um terceiro em Miami, ao passo que os rubro-negros transitaram entre Filadélfia e Orlando. É um equívoco apontar congraçamento entre multidões que não se toleram, mas uma trégua improvisada foi estabelecida por bandeiras que, no Brasil, não seriam capazes de dividir o mesmo quarteirão. O estranho no ninho foi o Botafogo, que ficou exilado na Costa Oeste, alternando compromissos entre Los Angeles e Seattle, e só esteve na Filadélfia para o duelo das oitavas de final.

O Inter Miami foi fundado em 2018, mas, contrariando o nome, é de Fort Lauderdale, a cidade vizinha. Ainda sem uma torcida consolidada (e como poderia ter, se foi fundado há míseros sete anos?), o clube manda seus jogos em um estádio provisório, enquanto constrói a própria casa. Não fosse por ter Lionel Messi como seu camisa 10, nada justificaria sua presença na Copa do Mundo de Clubes. Mas a Fifa fez questão que fosse assim, e o sorteio fez com que o Palmeiras tivesse que ir à Flórida para um jogo contra o Inter Miami, não na tal arena improvisada, mas no Hard Rock Stadium, em Miami.

Utilizado pelo time de futebol americano Miami Dolphins, o local segue à risca o padrão das sedes que a Fifa escolheu para o torneio. Não é usado para jogos do nosso futebol, mas para o football americano (e a diferença nas medidas dos campos prejudica a visão das linhas de fundo). Tem naming rights consagrados (o Hard Rock Café é uma popular cadeia americana de restaurantes). Apresenta uma arquitetura que valoriza a junção de lances retangulares de arquibancada (contrastando com os clássicos estádios brasileiros, repletos de curvas).

Depois de ocupar Nova York para os dois primeiros jogos, nós, os palmeirenses, encaramos a viagem até a Flórida na expectativa de obtermos ao menos um empate para garantir a liderança do grupo. O que efetivamente aconteceu, mas não sem susto: após um primeiro tempo desanimador, o alviverde sofreu dois gols, um em cada tempo, e foi buscar a igualdade nos minutos finais. Ocorreu, então, uma cena que resume muito do impacto cultural deixado pelas torcidas sul-americanas.

Sabe-se lá por qual motivo, policiais vestindo coletes da força de contraterrorismo circulavam pela arquibancada inferior, ora barrando o acesso de quem tinha comprado ingressos para outros setores, ora buscando coibir comportamentos que, aparentemente, os americanos julgam menos civilizados. Um exemplo? Nós, brasileiros, tendemos a não ocupar os assentos assinalados nos bilhetes (sequer reparamos nisso, devo dizer) e isso gera pequenos conflitos com quem gostaria de se acomodar, por exemplo, na cadeira 14 da fileira F do setor 129. O problema é que tal lugar está ocupado por um dos muitos instrumentos de percussão que compõem a bateria da torcida organizada e estamos ali reunidos em pé, pulando sobre assentos instalados para o repouso de traseiros mais comportados.

Lá pelas tantas, no auge da comemoração pelo empate, um desses policiais de contraterrorismo, de quem se esperava rigidez e alguma dose de truculência para garantir o cumprimento de certo código de conduta, se deixa seduzir pelo poder da multidão: ladeado por torcedores que saltam nas cadeiras retráteis, o agente tenta repetir os nossos gritos de guerra. Ele parece não ter noção do que estamos cantando, mas, em um raro gesto de espontaneidade, segue o ritmo da música com a cabeça e até ensaia movimentos com o braço direito para se integrar à coreografia. Um torcedor mais ousado, com os pés escorados entre dois assentos, apoia uma das mãos no ombro do policial, que segue impassível. Não foi a primeira vez que isso aconteceu em uma arena: diante de estrangeiros e de atitudes que desafiam o roteiro preestabelecido, autoridades ficam sem saber o que fazer e então abandonam o protocolo.

Estimo que os palmeirenses foram, naquela noite, pelo menos 25 mil dos mais de 60 mil presentes à arena de Miami. Os “donos da casa” eram minoria, e muita gente estava ali simplesmente para ver Messi em campo. De onde resulta que a torcida alviverde se sentiu em casa, mesmo enfrentando um time que empresta o nome da cidade. Tal invasão se deu também com o Flamengo em Orlando e, em menor escala, com o próprio Fluminense, também em Miami. Em número ainda maior, grupos organizados do Boca Juniors e do River Plate seguiram itinerários distintos para ocupar arquibancadas que, não fosse pelo afluxo de argentinos, teriam ficado às moscas.

A Copa do Mundo de Clubes teve média de 39 557 torcedores por partida. Não é pouco, mas é bem menos do que o recorde das Copas do Mundo, a de 1994, também nos Estados Unidos – foram 68 991 pessoas. Para isso, pesaram a maior capacidade das sedes do Mundial de três décadas atrás, mas também o impacto de partidas menos concorridas no torneio de clubes. O encontro entre o time sul-africano Mamelodi Sundowns e o sul-coreano Ulsan HD, em Orlando, foi o mais esvaziado, com 3 412 testemunhas – um número impensável para uma competição global.

O poderoso Real Madrid liderou o ranking geral de público, mas isso se deu menos pela presença massiva de espanhóis e mais por seu status de marca global. Como as valiosas franquias dos esportes americanos, o clube mais vencedor da história do futebol foi um chamariz para lotar estádios grandiosos – e cumpriu bem esse papel, embora não necessariamente pelos méritos de sua torcida. Outros times europeus tiveram recepção menos calorosa, inclusive alguns muito populares em seus países, como o alemão Borussia Dortmund e o português Benfica, com públicos inferiores a 10 mil pessoas.

Em função disso, com a Copa em andamento, a Fifa teve de revisar a política de preços dos ingressos, incluindo a nada usual prática de reduzir o valor de determinados setores em alguns estádios e devolver dinheiro para quem fizera compra antecipada. Nas primeiras rodadas, para evitar clarões na arquibancada em jogos menos disputados, a entidade lançou mão de estratégias incomuns: distribuiu ingressos gratuitamente para aumentar a taxa de ocupação e, nas arenas maiores, fechou setores superiores ou aqueles que não eram exibidos pelas câmeras de tevê, adensando o público em espaços mais visíveis na transmissão.

A classificação dos quatro brasileiros para as fases eliminatórias poderia garantir a ocupação de grandes arenas, mas então surgiu outro desafio: os fãs se programaram para ver apenas a primeira fase, sem dar muito crédito para o que poderia vir depois – e, ainda pior, sem ter muito crédito para sustentar mais uma ou duas semanas na estrada. Os mais abastados ainda conseguiram esticar a caravana, mas o contingente de torcedores brasileiros nas fases eliminatórias caiu sensivelmente. Temendo ter a arquibancada vazia logo em um dos últimos jogos do torneio, a Fifa fez despencar o preço dos ingressos para a semifinal entre Fluminense e Chelsea: de 474 dólares (cerca de 2,6 mil reais) para apenas 13 dólares (em torno de 72 reais) – menos do que o cobrado por um copo de cerveja dentro do estádio, na faixa dos 16 dólares (88 reais).

Na fase anterior, na Filadélfia, o enxugamento das multidões já era sentido pelos palmeirenses. Boa parte das dezenas de milhares de alviverdes que tomaram conta de Nova York e de Miami já tinha voltado ao Brasil, e restamos ali alguns poucos milhares, ainda capazes de preencher toda a cabeceira atrás de um dos gols e contagiar o restante do estádio, mas bem menos dominantes do que na primeira fase. Do outro lado, uma torcida mirrada: nem toda a fortuna investida por mecenas no Chelsea pôde transformar os torcedores da Zona Oeste de Londres em sujeitos dispostos a atravessar o Atlântico por 90 minutos de bola rolando.

Até havia muita gente vestindo azul no Lincoln Financial Field naquela noite de sexta-feira, mas os ingleses eram poucos, e ainda mais raros os que tinham vindo do Reino Unido para a partida. Predominavam os locais (torcendo por um clube britânico na Filadélfia, em pleno feriado da Independência!) e imigrantes de diversas partes do mundo que optaram pelo Chelsea menos por identificação com a história do clube e mais pela sedução exercida por uma bem construída campanha de marketing.

É óbvio: americanos e imigrantes ali residentes têm todo o direito de escolher o time que querem apoiar, mas isso dá origem a um público um tanto artificial. Durante o feriado na Filadélfia, em meio a desfiles cívicos e queima de fogos, contavam-se nos dedos as camisas azuis nas ruas, praças, hotéis, bares e restaurantes da cidade. Os fãs do Chelsea não demonstravam qualquer conexão entre si, quanto mais algum sinal de organização: por mais numerosos que fossem, nada indicava haver ali uma torcida de verdade. Os palmeirenses, por sua vez, surgiam de todos os cantos da cidade para tomar as imediações do estádio, como se estivessem na Pompeia, o bairro paulistano onde fica o Allianz Parque.

Sei que esta é apenas a perspectiva de um sujeito que só sabe viver o futebol a partir de uma arquibancada de cimento – ou, vá lá, de pé em cima de uma cadeira retrátil até aparecer um gringo querendo tomar posse de um pedaço de plástico apenas porque um QR Code no aplicativo da Fifa indica isso. Sei também que esta não é a narrativa vencedora, porque o resumo é que, ao fim de 63 jogos, o Chelsea eliminou os dois melhores brasileiros da Copa para triunfar com enorme superioridade na final contra o PSG. E me parece inevitável que as potências europeias sigam triunfando dentro de campo, comprando craques ainda menores de idade e investindo para expandir suas marcas em novos mercados globais.

De volta ao Brasil, vivo a desconfortável experiência de acompanhar a partida derradeira pela tevê. Com a audição treinada para identificar sons da arquibancada, faço um esforço enorme para captar as interações entre as coletividades finalistas, mas elas são quase imperceptíveis em meio aos 81 mil torcedores que quebraram o recorde do torneio. Percebo que o PSG é incentivado por um grupo de não mais do que uma centena de ultras (como são conhecidos os torcedores organizados na Europa) atrás de um dos gols, e logo estabeleço a comparação com os pelo menos 25 mil palmeirenses que compareceram àquele mesmo campo na rodada de abertura.

Realmente pensei que clubes e torcidas do Velho Continente se mobilizariam para as fases finais, mas nem isso aconteceu. E, então, incapaz de detectar sequer uma música entoada pelo que deveria ser a torcida do mais novo campeão do mundo, lembro-me de uma citação do botafoguense Luiz Antonio Simas, professor, historiador e filósofo popular das ruas da Zona Norte carioca:

O que temos hoje é um futebol que, de forma acelerada, passa por um processo de elitização que solapa o jogo como um evento da cultura e o reduz a um episódio da cultura do evento, mensurado pelos anseios de engravatados devotos do deus mercado. No primeiro caso, o do evento da cultura, prevalece o torcedor; na segunda perspectiva, a da cultura do evento, interessa apenas o cliente, encarado como uma espécie de “consumidor do produto futebol”. Dá-se, então, o desencantamento do mundo.

Pois Fifa, Uefa e toda sorte de engravatados já escolheram um lado: os dispersos consumidores que vestem a camisa de um time europeu como se fosse uma grife. O paradoxo é que o produto que eles vendem depende da paixão genuína de quem se dispõe a desembolsar uma pequena fortuna pessoal – e arriscar muita coisa – para seguir até outro país e apoiar um time sem chances reais de chegar ao título. Os engravatados pensam que o futebol é entretenimento, mas a Copa do Mundo de Clubes provou que o evento que eles idealizam depende menos de enfadonhos shows no intervalo e mais da espontaneidade dos que chegam ao estádio carregando bandeiras, instrumentos de percussão e muita disposição para cantar. Ao fim, o pacote completo só pode ser entregue se atrás de um dos gols estiver uma multidão fervorosa que não se importa com ingressos numerados, com a câmera do beijo e com selfies para aumentar o engajamento nas redes sociais.


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é jornalista, autor de Forasteiros: crônicas, vivências e reflexões de um torcedor visitante (Editora Grande Área).