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VISÕES DE RÉGIS BONVICINO

O poeta, que morreu aos 70 anos, foi um ativo militante cultural
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Certa vez, ao falar sobre São Paulo, onde nasceu em 1955, o poeta Régis Bonvicino afirmou que a cidade lhe parecia uma “espécie de céu inacabado”. Não era no céu, porém, e sim no plano comum das esquinas, avenidas e edifícios que ele mapeava São Paulo em seus poemas. “Minha poesia não tem muita ficção, tem muita visão, é o que eu vejo”, ele me disse um dia, andando por uma rua da capital. O que Bonvicino via era não só a poderosa metrópole, em perseverante transformação e engrandecimento, mas uma cidade consumida pela especulação imobiliária, a ganância financeira, a miséria crescente nas ruas, a agressão policial.

Foi essa São Paulo, que devora de maneira infatigável o passado, regurgitando riqueza e jactância, assim como injustiça e desamparo, que lhe insuflou os primeiros livros de poemas, Bicho papel (1975) e Régis Hotel (1978), publicados às expensas do autor, ou melhor, de seu pai. No poema Sem título (7), de Régis Hotel, ele escreveu: são paulo/do teu passado tupi/só resta/o rápido som/da palavra aqui.

É também essa cidade e seus flagrantes de violência que comparecem nos últimos poemas de Bonvicino, como os inéditos Ars vivendi, Várzea do Carmo, Passarela e Uma cena, que a piauí publica na página seguinte. Quase todos falam no presente – há apenas uma deriva na história, que leva até Várzea do Carmo, o nome antigo de uma das áreas centrais de São Paulo, para evocar as raízes de uma injustiça ancestral.

Régis Bonvicino morreu no dia 5 de julho passado, em Roma, onde estava em férias do seu trabalho como desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Quando caminhava pela capital italiana com sua mulher, a psicanalista Darly Menconi, ele sofreu uma queda, que lhe causou um traumatismo craniano, do qual não se recuperou. Estava com 70 anos e completava meio século de poesia.

Ele não nutria qualquer visão idealizada da Itália, país do qual reconhecia as contradições e a burocracia pesada, especialmente sentida por estrangeiros nos serviços públicos. O que mais o fascinava no país era o cinema, sobretudo o Neorrealismo, e aquela linhagem crítica que se insurgiu contra o nazifascismo.

Desde jovem, Régis Bonvicino foi um ativo militante cultural, participando da criação de revistas, fazendo traduções e antologias, e escrevendo para jornais. Nos anos 1970, ainda durante a ditadura militar, editou as revistas Poesia em G (Greve) e Qorpo Estranho. Com a participação do artista visual Julio Plaza, Qorpo Estranho reuniu veteranos, como Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, e nomes da nova geração, como Paulo Leminski, Carlos Ávila, Erthos Albino de Souza e Lenora de Barros, todos eles próximos dos poetas concretos.

Essas revistas, apesar de sua duração efêmera, cumpriram um papel de resistência e abriram espaço para vozes importantes da poesia brasileira, ou que se fariam importantes nas décadas seguintes. Mais adiante, no início dos anos 2000, Bonvicino lançou a revista Sibila, da qual era diretor com o poeta americano Charles Bernstein. Foram onze edições impressas (de 2001 a 2007), publicadas pela Ateliê Editorial, antes de migrar para a internet, como revista cultural mais ampla (agora vai se tornar um arquivo digital aberto). Revistas eram, para Bonvicino, uma maneira de manter a poesia e a literatura no centro do debate cultural.

Ele também buscou construir pontes entre o passado e o presente, entre poetas brasileiros e estrangeiros, tendo convidado ao Brasil os americanos Michael Palmer, de quem traduziu poemas, e Charles Bernstein, um dos fundadores da revista de poesia de vanguarda l=a=n=g=u=a=g=e, além da importante crítica Marjorie Perloff.

Suas trocas mais decisivas no início da carreira aconteceram com um poeta brasileiro. Bonvicino foi amigo de primeira hora de Paulo Leminski, com quem manteve um intenso diálogo intelectual entre 1976 e 1981. Naquele período, Leminski já entrava em sua maturidade literária, enquanto Bonvicino dava os primeiros passos na poesia.

Da correspondência entre os dois autores nasceu o livro Envie meu dicionário: cartas e alguma crítica (1999), que não apenas testemunha a forte amizade entre eles como ilumina os debates sobre poesia no Brasil naquele momento. Numa dessas cartas, Leminski não economiza entusiasmo, ao escrever, em alto e bom som: “uma puta vontade de conversar com régis bonvicino, um primitivo de vanguarda! o pop/poeta da jovem pauliceia!”

Em seus primeiros livros, Bonvicino manteve também um diálogo forte com o concretismo, mas pouco a pouco foi se afastando dessa herança poética. O momento decisivo foi seu terceiro livro, Sósia da cópia (1983), em que ele revê escolhas estéticas anteriores e propõe um balanço tanto pessoal quanto poético. Nesse livro, Bonvicino antecipa um dos temas que mais tarde se tornariam centrais em sua obra: a ideia de utopia. O seu último livro publicado se chamou, justamente, A nova utopia (2022), que, ao contrário do que sugere o título, faz mais um inventário das ruínas do presente do que expõe uma nova promessa de futuro.

Essa reflexão crítica sobre o presente e suas desilusões percorre também um de seus últimos projetos, o libreto Deus devolve o revólver (2019), espécie de cantata concebida em parceria com Rodrigo Dário, responsável pela produção artística e a parte sonora da obra. Dela participam ainda a soprano Caroline De Comi, que leu os poemas com sua bela voz, e o músico Rajana Olba, refugiado sírio radicado em São Paulo, que toca um alaúde, instrumento central em algumas passagens (o trabalho está disponível nos streamings de música).

Em uma entrevista que fiz com Bonvicino, ele comentou sobre os vícios do sistema literário, dos festivais às premiações, que repetem sempre os mesmos nomes, tornando quase tudo irrelevante no cenário atual da poesia brasileira. Também avaliou que hoje há poetas em excesso e leitores de poesia de menos (percepção que ecoa, aliás, em um verso dele de A nova utopia: um trovador sem ter o que dizer/canta para si mesmo).

Talvez por reconhecer a inutilidade da poesia – e, por isso mesmo, sua liberdade –, ele tenha buscado interlocutores fora do campo da literatura. Era um modo de reunir pessoas igualmente livres que pudessem manter a poesia como um lugar em que, apesar de tudo, ainda se consegue dizer o que de fato importa.

ARS VIVENDI

Um cara se deita perto da esquina

braço sobre o rosto,

o outro

se agacha:

pontas dos dedos queimadas

o terceiro, cicatriz no supercílio

quase em frente à porta da igreja

talvez estejam descansando depois

de subir a ladeira

Fugitivos capturados perto da Estação

– um deles, líder da revolta, preferiu se matar

cabeça

entre os amortecedores de acoplamento

dos vagões do trem –

O feiticeiro reincidente

– cachimbo cheio de raízes –

pego de novo fazendo sexo com o demo

O que enfiou o garfo na nuca do capataz

A ama de leite

navalha na garganta do gerente

do banco inglês

o London and Brazilian Bank

que lhe roubou a poupança

para a carta de alforria

subiam também a ladeira

em vez de despejar os dejetos no rio

os tigres

meteram a cabeça do senhor

num barril de fezes

de longe, o traficante espreita o séquito

um cão late

subiam a ladeira, algemas de ferro,

não queriam ser apenas um refugo de Deus

pediam, na igreja, uma passagem tranquila

uma boa morte

prostrados com as mãos atadas para trás

subiam o morro, na linha do córrego,

para depois da oração

chegar ao Largo

– carrasco, patíbulo, corda –

uns trocaram tiros

outros morreram de overdose

VÁRZEA DO CARMO

O que matou o proprietário

a golpes de capoeira

depois de sobreviver ao tronco

o que arrastou o praça de polícia

de bruços pela rua

depois do estupro de sua amiga

um escravo de aluguel

por ofender a Mãe divina

o mestiço, posseiro homicida,

fuzil roubado do exército

pela disputa de terras

com um ilustre vizinho,

fedentina, dejetos,

degola de galinhas

– mulher avulsa, poucos clientes,

se mata no poço do quintal –

o forro por asfixiar o ex-feitor da fazenda

que o cegou de um olho quando cativo

o haitiano extraviado apenas por fazer vodu

ipê-amarelo, céu azul

Um preto que exaltava as vitórias

dos batalhões negros na guerra do Paraguai

o liberto por roubar escravos

mediante paga de um êmulo do dono

marchavam

acorrentados aos carrascos

para subir ao cadafalso

PASSARELA

Um dorme com a cabeça enfiada

entre as grades do prédio

o outro acorda: colchão intacto,

barraca de pé, dádivas à vista

um estoura para-brisas

a pomba pousa no friso da fachada da igreja

ao longo da tarde o outro

põe as doações no próprio bolso

o bisavô, escravo de ganho,

pedia esmola para entregar para o dono

a chuva derruba a última árvore

um prefere marquises,

o outro, viadutos

um deles passou hoje

a empurrar nuvens

o ônibus não para no ponto

o telepata interespécie

se disfarça de lixo

para atrair um resto de comida

quando a fome aperta

só definha aquele que não desiste

UMA CENA

Se arrastava de bruços no asfalto

estava nua

roubaram suas roupas enquanto dormia?

se arrastava em câmera lenta

os carros contornavam seu corpo na avenida

ela deve ter usado bala ou quetamina

se arrastava

se apoiando também nos dedos

para alcançar a calçada do outro lado da pista?

para pegar alguma coisa nos sacos de lixo?

conseguir um vestido?

fazer um cara a cara com a vida?

pele e osso

os olhos esbugalhados realçavam seu rosto


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Poeta e tradutor, publicou 33 poemas (Iluminuras), Céu-eclipse (Editora 34) e Estado crítico (Hedra), entre outros.